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Carlos Luis Figueira sobre Edgar Correia

Vasco de Carvalho, “Edgar Correia – um militante indomável”, Público, 30/04/2005

Paulo Sucena, Entre o Delírio e o Desassossego.

João Tunes, Edgar Correia, Água Lisa.

Pedro Baptista, In memoriam Edgar Correia, Comércio do Porto, 19/5/2005

Todos estes textos estão transcritos em baixo.

Mais documentos sobre Edgar Correia: Carta de Demissão, Nota para audição prévia de Edgar Correia nos termos e para os efeitos do artº 60º dos Estatutos do PCP , RESOLUÇÃO DO SECRETARIADO DO COMITÉ CENTRAL SOBRE GRAVES VIOLAÇÕES DOS PRINCÍPIOS E NORMAS ESTATUTÁRIAS POR EDGAR CORREIA.

CARLOS LUIS FIGUEIRAS

Conheci o Edgar no Porto, em finais dos anos 60, por volta de 70 / 71, não sei precisar mais. Fazia parte eu com ele e o José Carlos de Almeida do organismo mais importante do Partido a Norte. A chamada troika, cujo responsável era o Carlos Costa. O Edgar era o único de nós que não era ainda funcionário do Partido e se mantinha numa situação legal. Este facto inédito na prática do Partido só era possível pelas qualidades politicas que se reconheciam ao Edgar e pela confiança que nele se depositava. Nesta troika eu era responsável por todas as Beiras, o José Carlos de Almeida pelo sector operário do Porto e o Edgar pelo sector intelectual do Porto e boa parte do Norte do Pais.

Ao fim de algum tempo o Edgar foi substituído no organismo pelo José Bernardino este, quadro clandestino, acabado de chegar do exterior.

Lembro-me a propósito que se organizou entre a troika um jantar de despedida do Edgar tendo este nos obsequiado com um suculento leitão que na altura nos soube a pouco.

A despedida do Edgar coincidiu com a sua entrada na clandestinidade, ele e a sua companheira. Teve como quadro clandestino destacadas responsabilidades no Alentejo, onde se manteve ainda durante algum tempo após o 25 de Abril, num período em que as suas qualidades politicas foram muito importantes para a definição de uma orientação concreta do Partido face ao problema da terra e o arranque para as ocupações que deram origem à reforma agrária.

Já depois do 25 de Abril participei com o Edgar e outros camaradas na Comissão de Organização do Partido, estrutura que tinha a particular responsabilidade de dar conta dos níveis de crescimento de um partido que passa de um partido de quadros para um partido de massas e definir as principais linhas de orientação para a sua estruturação orgânica. O Edgar respondia então pelo distrito do Porto onde já se encontrava depois da sua saída do Alentejo.

Como membro da Comissão Politica durante largos anos tive a oportunidade de continuar a conviver de perto com o Edgar e a apreciar a sua inteligência e a sua não menor coragem politica. Era de facto daquele conjunto de quadros que compunham a Comissão Politica o que apresentava sobre diversas matérias um grau de preparação maior o que não poucas vezes conduziu a acesos debates e confrontos particularmente com os elementos mais aparelhisticos e carreristas deste organismo, acentuando-se as clivagens que conduziram mais tarde ao desfecho politico que se conhece.

Carlos Luís Figueira

2005-04-20

VASCO DE CARVALHO

Vasco de Carvalho, Edgar Correia – um militante indomável

(Público, 30/04/2005)

Conheci pela primeira vez Edgar Correia quando ele repousava no seu berço de menino, pouco depois de nascer.
Era amigo de seu pai, Fernando Correia, que por meu intermédio se filiou no Socorro Vermelho Internacional, quando era estudante de engenharia, e foi um militante tenaz no Porto.
O pai também foi vítima do estalinismo, sendo falsamente acusado de ter denunciado camaradas quando da sua prisão. Na realidade, Fernando Correia foi posto em liberdade pouco depois de ter sido preso, porque seu pai, na Primeira Guerra Mundial, salvou a vida do que seria então director da PVDE, e este, por uma questão de gratidão, mandou soltar Fernando Correia. O verdadeiro denunciante foi um outro camarada estudante cujo nome não me recordo.
Segui a evolução de Edgar Correia, primeiro como jovem estudante anti-fascista até à sua posição de militante devotado do Partido Comunista Português, do qual veio a ser expulso, porque não era um homem para dizer sempre que sim, pela facção estalinista que infelizmente perdura no partido.
Edgar Correia sempre quis que o seu partido fosse seriamente marxista-leninista.
O seu combate não abrandou depois da sua expulsão do partido pelo qual tanto se sacrificou, quer do ponto de vista profissional, quer familiar.
Com o falecimento de Edgar Correia perdeu-se um militante indomável pelo ideal comunista. Ideal comunista que não será a instauração de uma nova ditadura, como aconteceu na Roménia, na Hungria, etc., mas a conquista de um poder verdadeiramente democrático para o povo.

PAULO SUCENA

Um misto de razão e emoção

Há muito não me acontecia escrever sob uma tão espessa, dolorosa e funda amargura. Não procuro as palavras, porque todas seriam pobres e demasiado frágeis para falar de um amigo querido, de um homem bom, de um comunista íntegro e inteiro como poucos outros conheci.
Não era uma personalidade plana. Edgar Correia era um ser rico e complexo, com defeitos como todos os humanos, mas com uma generosidade e por vezes com uma simplicidade tão tocantes que só não emocionavam quem, de todo, fosse destituído de sensibilidade. Edgar Correia era um misto de razão e emoção plantado no centro da vida, com uma inesgotável capacidade de reflectir e de agir.
Assim morreu e assim cresceu, desde a adolescência. Com 13 anos já acompanhou seu pai, activamente, na candidatura de Humberto Delgado à Presidência da República. Ao cair da tarde de terça-feira passada, a escassas horas da sua morte, ainda levantou energicamente o braço, quando abriu os olhos, mais pesados do que a tristeza do mundo, para me ver pela última vez. Ainda fez um segundo gesto semelhante ao primeiro, mas já com um cansaço que me gelou o coração e então fui eu que lhe apertei a mão mais próxima num diálogo surdo que só a amizade compreende. Um último sopro de vida alimentou alguns sons esparsos e desarticulados que eu e a Helena decifrámos no mesmo sentido e eles prendiam-se, como a expressão do rosto confirmava, com uma preocupação que durante muitos anos partilhámos durante a década de 90.
Estava a morrer um homem igual a si próprio. Um homem que fizera da causa comunista a razão da sua vida. Edgar Correia aderiu ao PCP em 1965. A partir de 1970, primeiro numa situação de semiclandestinidade e depois como militante clandestino integrou a direcção regional do Norte do PCP, que dirigia a organização e a acção do partido nos dez distritos do Norte e do Centro do país. No final de 1972 foi deslocado para o Sul, passando a integrar a direcção da organização regional do Sul do PCP. Nesta situação soube, por um anúncio colocado no jornal O Século, que lhe tinha nascido um filho, porque algo se perdera num comboio saído de Lisboa com destino ao Porto. Se a direcção do comboio fosse a contrária, isso significava que nascera uma filha. Dessa circunstância sentimental ou de todas as outras que tiveram a ver com a dureza da vida clandestina nunca lhe ouvi uma palavra de azedume ou de egoísmo.
Edgar Correia plasmava a dureza da razão com a doçura do coração, orientadas ambas para a consecução do grande objectivo da sua vida – a construção de uma terra sem amos.
Após o 25 de Abril participou activamente no arranque da Reforma Agrária com a firmeza política que sempre lhe conheci e com a humanidade que pude intuir ao ver os laços tão afectuosos existentes entre ele e os trabalhadores agrícolas alentejanos. Em Julho de 1975, regularizada a sua situação militar, readquiriu o seu nome verdadeiro e regressou ao Norte onde permaneceu até 1990, tendo sido responsável pela direcção da organização regional do Porto.
Transferido para Lisboa pelo partido, Edgar Correia assumiu múltiplas funções na comissão política, no âmbito da educação, da ciência e da tecnologia, da saúde, da segurança social e de outros assuntos sociais. Foi membro do comité central de 1976 a 2000 e da comissão política entre 1983 e 2000, tendo-se demitido destes organismos, no final de Novembro de 2000, por divergências de natureza política com a direcção do PCP.
Todavia, Edgar Correia manteve-se até à morte como comunista, dizendo-me frequentemente que na sua vida não havia senão um caminho – o do ideal comunista abraçado na juventude. Esse ideal sobrepujava tudo, mesmo a funda, terrível e disfarçada amargura de se ter visto expulso do seu partido.
Quem o leu sabe que os seus escritos geraram diversificadas controvérsias, mas sob o azebre das palavras repousavam parâmetros de uma ética pessoal, algumas vezes excessiva, e uma dor que ele sabia irremovível que às vezes o tornavam violento como só um homem extremamente bom o pode ser.
Trabalhei com ele muitos anos e da saudade desses tempos não falo porque é só minha, apenas confesso que ele reforçou em mim a ideia de que a lealdade política é um bem inestimável e que os princípios não estão à venda. Essa firmeza e essa intransigência deram-nos saborosas e difíceis vitórias políticas.
Morreu Edgar Correia, mas estou certo de que a sua herança é partilhada por muitos dos que com ele trabalharam. Morreu Edgar Correia – o ideal comunista ficou mais pobre.

[Paulo Sucena, Secretário-Geral da FENPROF]

JOÃO TUNES

EDGAR CORREIA

A notícia andou por aí sem oportunidade, no momento, de a ecoar – faleceu Edgar Correia.

Fomos companheiros diários de lutas estudantis (e outras, nomeadamente nas actividades culturais, sobretudo no Cine Clube do Porto), em 1967 e 1968, no Porto. Lutámos, conspirámos, fizemos juntos, e outros mais, aquilo que, na altura havia a fazer – resistir, resistir. Fomos camaradas sem sermos amigos. Porque, pessoalmente, não nos gostámos.

Voltámos a encontrarmo-nos algumas vezes depois. Noutras lutas, agora – avançar, avançar. Continuámos camaradas sem sermos amigos.

Eu saí da organização em que fomos camaradas, ele ficou. Depois, chegou-lhe a hora de querer renovar, foi expulso. Nunca tendo sido amigos, deixámos de ser camaradas.

Um dia, alguns dos que o expulsaram vão querer renovar o que renovação não tem. E vão sair ou serem expulsos.

Edgar Correia foi um lutador. Um homem de elevada craveira intelectual, um poço de energia cívica, um passado de dedicação profunda à luta pelas suas convicções. Foi meu camarada. Nunca foi meu amigo. Lamento, com toda a sinceridade e respeito, a sua perda.

PEDRO BAPTISTA

Pedro Baptista, In memoriam Edgar Correia

Para lá da perda do homem e do amigo, o falecimento do Engenheiro Edgar Correia foi uma baixa significativa na esquerda: porque se finou um dos que nunca desistiu de lutar pelo que considerava justo; e porque se perdeu um espírito que, mantendo os ideais de sempre, procurava gizar-lhes o caminho da concretização, com criatividade, inteligência e abertura de espírito face à história e à realidade de todos os dias e todos os espaços.

Tivemos o privilégio de termos sido amigo do Edgar. No princípio da nossa vida política mais activa, e já perto do fim da sua vida, princípio e fim entrecortados por mais de 30 anos de acérrima divergência política, em que contudo fizemos sempre questão e tivemos o gosto de o continuar a respeitar e a considerar amigo. Porque, para além do mais, vimos sempre no Edgar, entre os que conhecemos, o melhor de todos, o que, de forma aparentemente paradoxal, era o mais inteligente e o que defendia com mais combatividade as suas convicções, mesmo quando já eram apenas uma quimera. A prova de que o paradoxo era apenas aparente, é que percebeu que todo o edifício, a cuja construção tinha entregue mais de 30 anos, ruíra, porque não merecia continuar e, por isso, era preciso a coragem de começar tudo de novo, por um novo caminho e mesmo um novo destino.

Era o que procurava fazer, desde que o PCP considerou insuportável a sua insistência na renovação, na democratização e na abertura, a partir da reflexão e do debate, desde os princípios à prática política concreta, desde os contornos do ideário aos projectos políticos imediatos. Um esforço que era mais do que necessário para o PCP sair da obsolência vegetativa que, lenta mas progressiva e inexoravelmente, o isola cada vez mais na sociedade portuguesa e na esquerda europeia e de todo o mundo.

Encontrámo-nos o ano passado para um “papo” que durou quase a tarde inteira. Se falámos de política concreta, foram cinco minutos. De resto o tema que nos prendeu foi o homem. O Homem. Sabíamos que a política só vale a pena se servir para isso.

Disse-lhe que considerava, e já o tinha escrito, o maior erro da minha vida ter aderido na juventude às teses de Louis Althusser, uma leitura estruturalista do marxismo que se assume como ciência e donde desaparece o humanismo, como uma reminiscência indesejável de ideologia. Ele deu-me informações que eu desconhecia sobre os últimos anos do filósofo francês, mormente sobre o facto de ter redigido uma autocrítica intitulada “O Futuro é muito tempo” em que reconhece erros fundamentais no seu pensamento, pelo que me disse o Edgar, coincidentes com alguns dos que eu próprio estigmatizava.

Desconhecedores da doença, procurámo-lo recentemente, desta vez, para falar de política concreta e imediata, em particular do nosso Porto, mas do telemóvel já ninguém atendia. No entanto, os seus últimos trabalhos, no sítio dos “Comunistas renovadores”, são a expressão de como a inteligência quando se faz irmã da coragem, não só para avançar como para pensar, não só para cindir como para unir, não só para continuar como para mudar, é a mola real do progresso das ideias e da construção dos grandes projectos libertadores da humanidade. O Edgar faz falta à esquerda. Faz falta à esquerda portuguesa… muitos Edgars. Ficando pois a sua mensagem.

Que passa pela reflexão global necessária, onde se conjuguem as tradições da social-democracia primitiva, dos socialistas de esquerda, dos comunistas anti-totalitários, dos liberais de esquerda e dos libertários, para refazer o Grande Sonho e ter o discernimento necessário, suficientemente desperto, para encontrar os caminhos mais adequados ao tempo em que se vive e às realidades concretas.

Sabendo que o adversário também ajuda, porque não poucas vezes, tem bons argumentos e esses são sempre os melhores, venham de onde vierem. Deverão ser, por isso, os nossos argumentos, também. E o seu crivo contraditório é também grande ajuda para aferir da força ou fraqueza das nossas percepções e soluções. Pelo que, o espaço da esquerda e da criatividade necessárias para o encontro de soluções passa pela invenção de novas formas de participação política, sem nunca porem causa os princípios da representação vinda do sufrágio universal e do livre debate argumentativo que podem e devem, entretanto, serem depurados e melhorados na sua eficiência.

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