1. Introdução

 

Este trabalho* visa o estudo do que, em nosso entender, pode ser definido como sendo uma cultura de resistência ou, se preferirmos, uma contra-cultura face ao regime do Estado Novo, assumida e praticada pelo PCP, por militantes e funcionários, evidenciada não apenas ao nível dos valores e da moral, mas também através da praxis quotidiana.[1] A clandestinidade comunista praticada pelos funcionários do PCP na década de 40, está longe da ilegalidade que havia caracterizado a actividade política na década de 30.[2] Com a reorganização dos anos 40, não serão apenas os principais dirigentes a viver em situação de clandestinidade, é toda a estrutura partidária que se clandestina, através de uma rígida compartimentação, com regras de funcionamento e comportamentos estandardizados, de modo a escapar à acção repressiva desencadeada pelo regime de Salazar[3]. Falar do PCP na clandestinidade é, em parte, falar de uma “instituição total”, na esteira do conceito avançado por Erving Goffman, o qual remete, em última instância, para a primazia da instituição (neste caso, o Partido) sobre os indivíduos que nela ingressavam[4].

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O tratamento da questão feminina por parte do PCP. Os 1º e 2º Congressos Ilegais (1943, 1946). Das resoluções teóricas à prática

 

«O Congresso constata que, apesar da crescente participação

activa das mulheres trabalhadoras portuguesas nas

lutas da classe operária, do campesinato e das massas

trabalhadoras em geral, não se tem notado um

correspondente progresso na organização das mulheres

trabalhadoras.» (1)

A situação dramática vivida em Portugal nos primeiros anos da década de 40, motivada por uma grave crise nas subsistências, terá, como uma das suas principais consequências, a participação massiva das mulheres, nas greves e marchas de fome que à época varreram o país, e que tinham como principais consignas, a demanda pelo pão e demais géneros alimentícios que escasseavam no mercado.

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«Não chegou a adquirir fama o nome de José Dias Coelho […] e as histórias da arte, se não forem muito minuciosas, ignorá-lo-ão»

(J-A França, Diário de Lisboa de 04-02-1977)

1 – Um estudo recente sobre a Escultura Portuguesa ligada à escola de Lisboa 1 revela-nos serem os anos quarenta/cinquenta os “menos amados” pelas críticas da época e actual. Alerta-nos para a premência do estudo das motivações que têm ignorado e omitido as obras e os nomes desses escultores e faz eco, ainda, do sentimento de alguns deles, ainda vivos, que dizem não se reconhecer numa historiografia que genericamente os apelida de “estatuários” e os vota ao esquecimento. 2
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J. M. Leal da Silva – FOTOS DA GREVE DE 1943 (Excerto)

A primeira (e a mais conhecida) fotografia da “Greve de 1943”

(…)
2.1. Sem dúvida que a fotografia da Fig. 1 é a mais significativa e a mais divulgada, pelas razões já referidas.

Fig. 1

Tem um lugar garantido na História de Portugal no sec. XX e até da história dos conflitos laborais europeus e merece, por isso, todos os encómios. Por idêntica razão também deveria merecer uma maior atenção e respeito. A sua referência de origem atribui-lhe uma data (28/7/43) e uma legenda (“A polícia obrigando as famílias dos operários grevistas a abandonar as imediações das fábricas.”). Nesta, nenhuma referência ao Barreiro! Veja-se agora, sem a preocupação de esgotar o tema, pois existem certamente outras reproduções ou utilizações da mesma fotografia que escaparam a esta listagem, como o mesmo documento vai ser apresentado num conjunto de fontes que se reputa significativo e que sucessivamente a vão reproduzir desde a sua primeira divulgação pública, posterior a 1974:

(a) Na publicação 60 Anos ao Serviço do Povo e da Pátria, da Editora Avante, Lisboa, 1981, pag. 65, está referenciada como “Barreiro, Julho de 1943: a polícia expulsa das fábricas as mulheres dos operários em greve”.

(b) Em FERNANDO ROSAS, O Estado Novo (1926-1974) , 7º Volume da História de Portugal publicada sob a direcção de JOSÉ MATTOSO, Círculo de Leitores, s.l., 1994, pag 356, a legenda é a seguinte: “Forças da GNR dispersando uma concentração das mulheres dos operários grevistas do Barreiro em Julho de 1943. Fonte: Fototeca Palácio Foz, Arquivo O Século”. Ao Autor não é indiferente o comportamento revolucionário das mulheres de Alcântara, pelo que, na pag. 358 da obra citada, transcreve parcialmente o parágrafo da reportagem de “O Século” que atrás (ponto 1.5) se referiu.

(c) Em ARMANDO SOUSA TEIXEIRA, A Fábrica e a Luta em Construção – Barreiro: Uma História de Trabalho Resistência e Luta – Parte II – 1946 / 62, edições Avante, Lisboa, 1999, a Fig. 1 está reproduzida na parte superior da contracapa e é identificada, na pag. 6 da obra, como: “Repressão sobre mulheres corticeiras em greve”. Não referindo directamente o Barreiro, esta legenda induz essa localização, quer através do objecto geral da própria obra, quer pela referência a “mulheres corticeiras”, certamente uma hipótese de trabalho que resulta do desenrolar da greve de 1943 no Barreiro, mas que não encontra qualquer conforto por parte da fonte original.

(d) Em JOÃO CARLOS OLIVEIRA, Movimento Operário Durante a II Guerra Mundial – Luta e Repressão no Barreiro, História (Nova Série), XXI, 18 (Outubro 1999), pp. 58 a 66, é dada a pag. 62 com a legenda “Famílias de operários grevistas são obrigadas pela polícia a retirar das imediações das fábricas da CUF”, que praticamente reproduz a legenda original, apenas resultando induzida a referência ao Barreiro pelo título do próprio artigo. Saliente-se que, para além de uma cuidada análise das greves de 1942, 1943 e 1944, obviamente dentro dos limites de extensão do próprio artigo (mas que o Autor tem recentemente desenvolvido numa série de oportunos textos em publicação no Jornal do Barreiro) esta fonte é a única que reproduz a fotografia da Fig. 1 sem a recortar na sua parte superior – o que, como se verá, tem alguma importância. Este artigo tem ainda a particularidade assinalável de ser, a conhecimento do signatário desta resenha, a primeira fonte a reproduzir todas as restantes fotografias relativas à CUF (Figs. 2, 3 e 4), com adequada menção da sua origem.

(e) Em JOAQUIM VIEIRA, Portugal Século XX – Crónica em Imagens – 1940-1950 (5º volume), pag 170, é apresentada como “As forças de segurança expulsam familiares de grevistas das imediações de fábricas da CUF, no Barreiro, ocupadas e paralizadas pelos seus operários.”, identificando-lhe a origem (bem como das outras fotografias próximas) na pag. 215 do mesmo volume. Deve aliás registar-se que na pag. 240 do último volume da série (o 10º), publicado já em 2001, a “corrigenda da 1ª edição” se lhe refere mencionando: “Pag: 170 / Coluna: Legenda inferior / Onde se lê: no Barreiro / Deve ler-se : em Alcântara (Lisboa)”.

(f) Num comentário anónimo publicado a pag. 3 do Jornal do Barreiro, de 25/8/2000, sob o título interrogador Afinal onde foi?, dá-se conta, reproduzindo-a, de que a mesma fotografia foi encontrada, no painel “Repressão nas Ruas” duma exposição sobre repressão e perseguição política então patente no Forte de Peniche, com a surpreendente legenda: “Agressões protagonizadas pela GNR sobre transeuntes na Marinha Grande. Década 30”. E o anónimo comentador conclui, com razão abundante: “Essa mesma fotografia tem sido divulgada como “repressão da GNR, no Barreiro, nos anos 40”. Afinal onde foi? Que se apure a verdade. A palavra aos historiadores.” Este repto, que revela o interesse existente quanto à questão, deu lugar a uma oportuna resposta por parte de FERNANDO ALEGRIA DA MOTA, como leitor do Jornal do Barreiro, resposta essa que, pelo seu interesse, adiante se retomará.

(g) Ainda mais recentemente, no capítulo 6º (A viragem da guerra: as greves) da obra de JOSÉ PACHECO PEREIRA, Alvaro Cunhal – Uma Biografia Política; Volume 2: «Duarte»., o Dirigente Clandestino (1941-1949), ed. Temas e Debates, Lisboa, 2001, a legenda que lhe vem aposta, na pag 260, é “GNR carrega sobre as mulheres no Barreiro”. Ao Autor não passa despercebido o valor intrínseco do documento, que lhe merece a seguinte análise, a pags. 259/260: “Data provavelmente desse dia a mais conhecida fotografia da greve e talvez a mais expressiva de qualquer movimento social operário durante a ditadura, na qual se vê um grupo de GNR a carregar sobre mulheres e crianças no Barreiro. As mulheres ainda jovens, de avental e com a chita dos vestidos dos pobres, olham para trás para o guarda que levanta a espingarda para dar uma coronhada, sem qualquer medo. A mulher da frente leva na mão um filho e quase não corre, anda apenas mais depressa.”. Ainda na mesma obra são reproduzidas as outras três fotografias de “O Século” que à greve e aos dias 28 e 29 de Julho de 1943 se referem, sem mais indicações que as legendas respectivas, e volta a ser parcialmente transcrita, no texto, a referência, já acima citada (ponto 1.5.) da reportagem do mesmo jornal quanto à intervenção activa das mulheres de Lisboa.

(h) Finalmente, e como uma das razões já invocadas para a oportunidade destas linhas, a já tão celebrada fotografia da Fig. 1 é reportada a 1943 na série cronológica constante da exposição “Elementos do Passado Industrial Barreirense”, que, em Maio último, a Câmara Municipal do Barreiro inaugurou nas Reservas Museológicas Visitáveis, tendo aí a seguinte legenda: “Agressões da GNR sobre familiares dos grevistas da CUF”, e registando como fonte imediata a publicação referenciada em (a), supra. Ainda que esta legenda não o mencione, a natureza da exposição e o reporte referido àquela referência antecedente, sem qualquer salvaguarda quanto ao local, volta a induzir o Barreiro como localização. Aliás, como se verá, a identificação como GNR da força repressora que a fotografia exibe havia já sido posta em causa, quando desta mostra. A própria divulgação desta interessante exposição na imprensa diária vai determinar a mais recente publicação que se conhece da mesma fotografia, com muito má qualidade e com uma legenda que se situa apenas no contexto da exposição e não no que o documento significa, a pag. 10 da edição de Lisboa do “Jornal de Notícias” de 18 de Maio de 2002.

2.2. Apresentada a fotografia da Fig. 1, tal como tem sido até hoje divulgada, afasta-se liminarmente a suposta localização na Marinha Grande e nos “anos 30”, que revela uma lamentável falta de rigor e um total desconformidade com a sua origem. Tem-se por assente que a fotografia respeita à greve de 1943 e que se reporta a instalações da CUF, mas muito do que se encontra nas variadas legendas que lhe foram atribuídas e que atrás se referiram, incluindo a alusão a uma localização que se tornou tradicional (Barreiro), carece de apoio na fonte original.

2.3. Começa-se por questionar a identificação da força repressora, quase geralmente apontada como sendo a GNR. Cabe tal mérito e prioridade ao já referido leitor do JB, FERNANDO ALEGRIA DA MOTA, quando, respondendo ao repto “Afinal onde foi?” lançado na edição deste jornal, de 25/8/2000, levantou certeiramente a questão em carta-resposta publicada na edição do mesmo, de 8/9/2000, pag. 4, e da qual, com a devida vénia, se destaca o contributo seguinte: “A foto sempre foi apresentada em muitas publicações como sendo do Barreiro.Não é facilmente decifrável o local onde foi feita, embora a roupagem das mulheres e crianças, bem como o ambiente envolvente, tenha muito mais do Barreiro do que da Marinha Grande. A ser no Barreiro, a foto deve ter sido feita nos anos 40, julgo mais certo 42 ou 45, aquando das grandes greves que então aqui se registaram. Mais interessante é que a carga das forças policiais é atribuída à GNR quando são agentes da PSP que estão a actuar, força que então policiava o Barreiro só tendo sido substituída pela GNR depois destas greves. É fácil reparar nas diferenças: A GNR usava polainas. A PSP usava calça completa. Os bonés, embora semelhantes, não são iguais. O fecho dos cinturões é diferente, tendo a GNR, ainda hoje, um escudo próprio. No que respeita ao armamento exibido, ambas [as] forças policiais usavam o mesmo modelo, ao que presumo Mauser mod. 37 ou a Mauser Vergueiro. Ainda devem existir pessoas vivas que tenham presenciado os acontecimentos e que possam esclarecer devidamente a foto.” [tem-se que a referência a 45 foi gralha ou má leitura, e que o referido leitor talvez quizesse escrever 43]. Ou seja: se são importantes as dúvidas deste leitor quanto à localização, é também certeiro o reconhecimento, pela farda, de que as forças repressoras então fotografadas são da PSP e não da GNR, estendendo-se os argumentos de identificação às restantes fotografias da série. Porém, sendo importante para marcar leituras incorrectas nas sucessivas apresentações dessas fotos, já que as legendas originais não referem a GNR, tal argumento não fornece, só por si, um critério decisivo quanto à localização. De facto, o policiamento do Barreiro urbano era até então “titulado” pela PSP e assim, muito embora tenham acorrido ao Barreiro efectivos da GNR para integrar as forças da repressão (e vieram para ficar, como se viu e sentiu…), os acontecimentos representados com presença da PSP poder-se-iam desenvolver tanto no Barreiro urbano como em Lisboa. Tempos depois, com a entrega de todo o Barreiro à acção da GNR destacada, já não se diria certamente o mesmo…

2.5. Aprofundando a indagação, percorreu-se atentamente o campo fotografado na Fig.1, inclusive para tentar identificar onde, no Barreiro, teria tido lugar o acontecimento registado. Não se tendo conseguido respostas satisfatórias, a atenção fixou-se em dois elementos que a fotografia apresenta: o poste metálico cilíndrico que se evidencia junto à esquina, e o candeeiro de ferro fundido, com um globo de vidro de desenho característico, que se desenha no fundo, “do outro lado da rua em frente”. Quanto ao primeiro, a identificação pode ser facilitada quando o desenvolvimento vertical do mesmo se observa na fotografia sem recorte superior, como consta da reprodução publicada no artigo de JOÃO CARLOS OLIVEIRA e aqui se retoma. É o que também ressalta da ampliação do canto superior direito da fotografia, que se dá como Fig.1-1. E assim não só se confirma ser aquele um poste metálico cilíndrico, como facilmente se reconhecem os troços de diferente secção, da base para o topo, que o identificam com os que a Carris então usava e ainda hoje usa para suspender o condutor aéreo.

Fig. 1-1 (foto a incluir posteriormente)
Ampliação do canto superior direito da Fig.1,
mostrando… o poste da Carris e o candeeiro
da iluminação pública.!

Ora, ao que se sabe, tais postes não existiram nem tinham razão de existir no Barreiro, em 1943, pelo que o indício se torna revelador.. Como se verá, numa outra fotografia tirada pela mesma reportagem fotográfica e no mesmo dia (Fig.2), surge um outro poste da Carris, este até com o número bem à vista!

2.6. Quanto ao candeeiro de ferro fundido, que a Fig. 1-1 também mostra, é de e modelo próximo ao que a Câmara Municipal de Lisboa ainda hoje usa em diversos localizações urbanas, embora com diferente globo (por exemplo, no Largo Dr. José de Figueiredo, às Janelas Verdes). Dir-se-á que no Parque Catarina Eufêmia, no Barreiro, existem também candeeiros desses. Constata-se porém que, com construção e globo como estes, em nenhuma outra localização urbana ou fotografia antiga os reconhecemos no Barreiro, e que este indício, mesmo que se possa conceder como não determinante, vai articular-se com os restantes… e é mais um elemento a ter em conta.

2.7. Ficava assim estabelecido todo um “inventário de rua” que decisivamente justificava uma procura de localização em Lisboa, já que no Barreiro se não tinha conseguido encontrar nem localização, nem resposta para os indícios reconhecidos. Procurava-se um entroncamento urbano, em T, próximo de um dos estabelecimentos industriais da CUF e do traçado de uma linha de “eléctricos”, compatível com o perímetro que a reportagem de “O Século” atribuíu à presença activa das mulheres familiares dos operários em greve no dia 28 de Julho de 1943. Na haste do T, sem ser visível o outro lado da rua, havia, em 1943, um pavimento em empedrado irregular e um passeio em pedra de espelho, cortado transversalmente por uma descarga de caleira, idêntica às que em Lisboa se encontram, uma parede (fachada) que se prolonga até quase junto à esquina, em que se abre a porta que acoberta o fotógrafo, e ainda, junto à esquina, um poste metálico da Carris e uma árvore. Ao fundo, ao longo da “barra do T”, um muro alto, com paineis, acompanha um passeio “do outro lado”, com árvores que em 1943 eram ainda “tenras” e com um candeeiro de iluminação pública em ferro fundido, encobrindo parcialmente edificações tipo armazém ou oficina.

2.8. Estabelecido todo este “caderno de encargos”, não foi muito difícil chegar à Travessa do Baluarte, que desemboca na Avenida 24 de Julho e que precisamente limita, do seu lado nascente (que se não vê na foto), um dos históricos estabelecimentos fabris da CUF na zona de Alcântara de Lisboa e que era a “Fábrica Sol”. Todos os condimentos lá estão, como se pode ver das Figs. 1-2, 1-3 e 1-4. Ao longo da Avenida 24 de Julho corre o mesmo muro com motivos iguais aos da foto de 1943 e com árvores ainda tenras ou com cepos bem visíveis no lugar das árvores que provavelmente testemunharam os acontecimentos de 1943. Na Travessa, por sua vez, mantém-se o mesmo passeio, com a mesma linha de escoamento e o mesmo empedrado que, em 2000, antes da reparação entretanto efectuada, dava interessantes indicações (que se fotografaram) para uma possível interpretação cronológica das diversas modificações, num verdadeiro exercício de “arqueologia urbana”. É mais que evidente o poste da Carris , que hoje tem o número A 843, e a árvore da esquina ou a sua sucessora. O portão de correr na fachada do lado nascente da Travessa é posterior aos acontecimentos e substituiu a porta que “albergou” o repórter fotográfico de “O

Fig. 1-2 (foto a incluir posteriormente)

O entroncamento da Travessa do Baluarte com a Av. 24 de Julho,
em Lisboa, na actualidade. No passeio fronteiro da Avenida são visíveis os cepos de árvores anteriores.

Fig. 1-3 (foto a incluir posteriormente)

(cronologicamente anterior à Fig. 1-2)
A travessa do Baluarte no ano 2000, antes das obras no passeio
da direita, em que se vê o portão de correr e a “porta gémea”;
à esquerda o edifício que era da Fábrica Sol

Fig. 1-4 (foto a incluir posteriormente)

O edifício que era da Fábrica Sol, em foto actual tirada do passeio Sul da Av. 24 de Julho, em frente da Travessa do Baluarte, vendo-se o poste da Carris nº A 843, na esquina do lado esquerdo da mesma

Século”, em 1943, e que, no entanto, tem rigorosa reprodução numa porta gémea que ainda hoje subsiste, mais para dentro da Travessa. A proximidade da Fábrica Sol e a linha de eléctrico na Avenida 24 de Julho, que constitui a “barra do T”, são situações claramente mantidas. Falta o candeeiro de ferro fundido, substituído entretanto por outro suporte de iluminação, e sobeja a sinalização vertical de trânsito que, em 1943, obviamente não existia.

2.9. Aponta-se assim para ter sido aí, na Travessa do Baluarte, freguesia dos Prazeres, em Lisboa – e não no Barreiro – que, a 28 de Julho de 1943, se passou o que a bem conhecida fotografia da Fig. 1 regista.

Nota – Excerto de um estudo de Paulo Guinote sobre o impacto da Revolução Russa na opinião publicada em Portugal em 1917-18, trabalho esse desenvolvido num seminário do Mestrado de História do século XX da FCSH da Universidade Nova. O trabalho permanece praticamente inédito e a publicação deste excerto foi autorizada pelo autor

“EM PETROGRADO, OS MAXIMALISTAS AGITAM-SE”
(Diário de Notícias, 8/Nov/17, 1)

“Mais um Movimento Revolucionario na Russia”
(Seculo, 9/Nov/17, 2)

“PETROGRADO NAS MÃOS DOS MAXIMALISTAS”
(Diário de Notícias, 9/Nov/17, 1)

“A situação na Russia
A Revolução Maximalista”
(Republica, 10/Nov/17, 1)

“A RUSSIA PEDE A PAZ”
(Diário de Notícias- Funchal, 11/Nov/17, 1)

Quer pela sua natureza, quer pela sua relativa previsibilidade, os acontecimentos revolucionários de Outubro (Novembro no Ocidente), ocuparam um espaço mais reduzido nos títulos dos periódicos portugueses do que a deposição do Czar em Fevereiro. Por um lado, em Fevereiro, apesar de algumas dúvidas iniciais, os factos pareciam apontar para um reforço da posição dos Aliados, por outro, a surpresa de Outubro era apenas relativa, não constituindo um fenómeno absolutamente imprevisto.

As características da insurreição maximalista contra o Governo Provisório de Kerensky eram conhecidas a priori, assim como as suas motivaçes e objectivos – negociar a paz com os Impéérios Centrais e proceder a um radical e perigoso, mas ainda não muito bem compreendido, programa de reorganização económico-social da nação russa. O debate que a indesejada, mas aparentemente inevitável, tomada do poder pelos bolcheviques estava em condições de suscitar, centrava-se nas suas possibilidades de permanência e nas capacidades de realinhamento e reagrupamento de todos aqueles que se lhe opunham e pretendiam restaurar um poder firme na Rússia. Lateralmente, não em termos de debate, mas mais de constatação progressiva, surgiram também os comentários sobre as consequências internas e externas das medidas que o novo poder executivo ia implementando com acentuada rapidez num império russo em acelerada desagregação.

Quanto ao primeiro ponto, a esperança de vida do novo regime não aparentava sinais particularmente animadores. As diversas frentes de oposição aos maximalistas, se não se tinham entendido nos tempos anteriores de maneira a evitar a nova movimentação revolucionária, pelo menos pareciam apostados em a abafar de forma rápida. Disso dariam prova os títulos do Diário de Notícias nas semanas seguintes. De entre as quase três dezenas de títulos principais incluídos nas edições que se sucederam dos primeiros dias de Novembro até final do ano, cerca de metade retrataram a situação como sendo de resultado imprevisível ou desfavorável para os maximalistas. Enquanto apenas cerca de 5 ou 6 davam conta de sucessos para os novos senhores de Petrogrado, a maior parte dos restantes títulos estavam relacionados com as negociações de paz entre a Rússia e a Alemanha.

O noticiário sobre o alastramento da guerra civil no Diário de Notícias foi quase diário e os títulos sucederam-se de forma pouco favorável à estabilidade do novo poder:

“Kerenski marcha sobre Petrogrado” (12/Nov)

“Os Maximalistas Começam a Perder Terreno” (13/Nov)

“Na Russia, Kaledine Propõe-se Restaurar a Monarquia” (21/Nov)

“Na Russia, os Ingleses e Japoneses Auxiliam a Contra-Revolução” (15/Dez)

“Petrogrado Saqueada pelas Tropas” (17/Dez)

“Na Russia a Guerra Civil Continua Encarniçada” (19/Dez)

“A Ukrania Aceita a Guerra com os Maximalistas” (22/Dez)

Contra isto, apenas as referências a vitórias maximalistas em recontros com as forças de Kerensky (18/Dez) e com os Cossacos (16/Dez), e o anúncio de vitória nas eleições (1/Dez), permitiram algumas expectativas mais favoráveis.

No Seculo, embora o assunto não merecesse tanto destaque em termos de monopolização dos principais títulos de primeira página, a sensação transmitida não era muito diversa. Aqui, era em Kerensky que se depositavam as esperançças. No dia 12, na segunda página, perguntava-se se “Kerensky vae dominar, pelas armas, a revolta?”. No dia seguinte, declarava-se que “O GOLPE MAXIMALISTA Parece que Falhar Completamente”. Nos dias seguintes, procurar-se-ia tranquilizar a opinião pública. “Parece Estar, de Facto, Restabelecido o Governo de Kerensky” (Seculo, 14/Nov/17, 2). No entanto, isso não acontecia e, dois dias depois, é que “Parece que, efectivamente, Kerensky vencerá “. O poder continuava com os maximalistas e, assim, a situção na Rússia passava por “angustiosa” (18/Nov, 2), de “catastrofe” (25/Nov, 2), “tragica” (26/Nov, 1), “de mal a peor” (27/Nov e 1/Dez, 1), de “derrocada” (15/Dez, 2) ou “cada vez mais embaraçada” (16/Dez, 2).

Os evolucionistas do Republica não andavam muito longe deste tipo de vocabulário, apenas introduzindo a anteceder os comentários e noticiários sobre a Rússia, o título de “No Vulcão Russo” (12, 13, 14, 16, 30/Nov e 6 e 16/Dez). Quanto ao resto, cruzavam-se interrogações sobre o futuro da Rússia e dos seus principais dirigentes, do presente e dum passado mais ou menos proximo:

“Para Onde Vai a Russia ?” (14/Nov, 3)

“KERENSKY ? LENINE ? NICOLAU II ?” (16/Nov, 1)

“Na Russia
A GUERRA CIVIL
Quem vence ?” (17/Nov, 1)

“DUKHONINE ? LENINE ?
Quem Ganhar a Nova Partida ?” (6/Dez, 3)

A Lucta, por seu lado, optaria por ignorar praticamente por completo nos seus títulos mais destacados a reviravolta do poder a Leste, enquanto O Mundo também evitava títulos particularmente dramáticos. Pelo lado dos Democráticos, só A Manhã se pronunciaria com maior detalhe, expressando as dúvidas gerais:

“Da Russia, [é] ponto claro, que o maximalismo derrubou o governo e obrigou o Parlamento a pôr ponto final. O Soviet Central põs-se ao lado da nova revolução. Houve pouco sangue e, em facil triunfo, o Soviet cantou vitoria em toda a Russia. Isto é simples. Que é feito do governo ? Está preso. Que é feito de Kerensky ? Não está ainda bem patente se conseguiu evadir-se. Incontestavel é que a vitoria dos maximalistas foi em Petrogrado, Moscou e Cronstad. Que pensa o resto da grande Russia do triunfo das esquerdas ? Vamos para a paz em separado ? – Tudo o leva a crer…” (A Manhã, 12/Nov/17, 1)

Os acontecimentos eram negativos, havia que os combater, mas não parecia ser medida muito acertada publicitá-los exageradamente. Os jornais mais informativos mostravam-se, desta forma, bastante mais expressivos do que os periódicos com uma conotação política mais claramente definida. Na província, os títulos tambem eram menos lestos a surgir do que em Fevereiro e os artigos de opinião em quantidade bem menor. Do lado dos monárquicos, a previsão também ese mostrava pouco animadora quanto à resistência dos novos líderes revolucionários:

“Temos, pois, os Soviets no poleiro e manda Lenine ! Mais um heroe de barro, que a multidão, eterna criança, amanhã ha de rachar de meio a meio e atirar para o caixote do lixo.
São favas contadas !” (O Liberal, 10/Nov/17, 2)

O Mundo não andaria muito afastado desta leitura. Quanto à transitoriedade do poder maximalista, por uma rara ocasião, os monárquicos tradicionalistas e os republicanos democráticos, coincidiam nas suas análises e previsões.

“E desta crise provocada pelos que não se contentavam com a Republica democratica, que iria realizando gradualmente as reformas sociais, sairá por certo o ditador que sufocar em sangue as manifestações e organizar violentamente o Estado, com os meios liberticidas constuindo um edificio novo, que ser necessario destruir outra vez.” (O Mundo, 22/Nov/17, 1)

Para Brito Camacho, era a própria Rússia que via a sua desarticulação consumada, sendo duvidoso que qualquer poder que, eventualmente, viesse a substituir os maximalistas, pudesse reconstituir a unidade perdida.

“Se ao menos a Russia conservasse a sua unidade nacional; aquela violenta, despotica e arbitraria, que o czarismo mantinha, tornou-se culpad[a] dos maiores crimes politicos !
Mas não; a Russia é um grande, imenso organismo que se desarticulou, e quer-nos parecer que não será possivel, já agora, restitui-lo á primitiva forma, isto é, dar-lhe a unidade que tinha, embora essa unidade fosse de todo o ponto artificial.” (A Lucta, 27/Nov/17, 1)

O único factor positivo da revolução bolchevique para a imprensa republicana parecia ser a recomposição, forçada pelas circunstâncias, das fileiras que se opunham à acção dos bolcheviques, principalmente na questão da guerra e da paz. Passam a ser comuns, de novo, as associações entre os nomes de Kerensky e Korniloff, agora, em algumas situações, também relacionados com Kaledine, o novo etman dos Cossacos.

Embora a verdade dos factos não fosse propriamente essa, os boatos espalhados na imprensa internacional chegavam a Portugal, em segunda ou terceira via, mesmo através do respeitado Diário de Noticias:

“Londres, 14 – Dizem de Stockolmo, em data de ontem, ás 16 horas, que a agencia telegrafica da Finlandia noticia que o sr. Kerenski é actualmente senhor de Petrogrado que está quase toda em seu poder.
Moscow é a sede do governo provisorio.
Os jornais russos e finlandeses anunciam o proximo fim do movimento «bolchevik».
Toda a Russia, à excepção duma pequena parte de Petrogrado, está agora nas mãos do governo.
O general Kaledine, «etman» dos cosacos, é ditador no sul da Russia e as ordens do governo são assinadas por Kerenski, Kornilof e Kaledine.” (Diário de Notícias, 15/Nov/17;1)

Esta união, que no plano da acção concreta nunca chegou verdadeiramentwe a existir, parecia assegurar que o sucesso bolchevique seria um fenómeno efémero. Mesmo Rosa Luxemburgo, em carta à sua amiga Martha Rosenbaum, apesar do seu entusiamo, não acalentava muitas expectativas quanto à duração da experiência que se vivia na Rússia:

“Há mais ou menos uma semana que todos os meus pensamentos estão, naturalmente, em Petersburgo. Todas as manhãs e todas as noites agarro com impaciência os jornais que me chegam, mas as notícias que trazem são infelizmente escassas e contraditorias. Convém não contar com um êxito duradouro [dos revolucionários russos], mas em todo o caso a tentativa de tomar o poder na Rússia é, já em si, uma bofetada em plena face dos nossos sociais-democratas e de toda a sonolenta Internacional.” (Luxemburgo, 1976, 267)

Mas, ao defenderem princípios pacifistas e ao serem normalmente considerados como agentes ao serviço dos alemães, os chefes maximalistas tinham outro perigo a recear e com o qual a imprensa acenava insistentemente: a intervenção dos Aliados no seu território como forma de pressão sobre o novo executivo russo.
O Japão, a Inglaterra e os Estados Unidos perfilavam-se como os agentes de tal intervenção. Em 30 de Novembro, no Republica, à pergunta se “A ENTENTE VAI INTERVIR” no vulcão russo, “Diz-se que sim”. Vladivostock parecia ser um dos pontos preferidos para a intervenção. Em 13 de Dezembro, o Diário de Noticias afirma que serão os japoneses a entrar em acção, enquanto a 16, na opinião do Seculo, parecem ser os norte-americanos os protagonistas. Ao mesmo tempo, as notícias sobre a guerra civil alastram, com o anúncio do separatismo da Ucrânia, da Crimeia e a revolta armada dos Cossacos. A Rússia parecia entregue a uma desordem sem fim. Não faltava mesmo quem atribuisse aos maximalistas intenções de restauração da Monarquia, sublinhando as semelhanças entre os extremos aparentemente opostos (O Mundo, 23/Nov/17, 1) e chamando contra-revolucionárias às intenções de Lenine:

“Produziram-se nas ultimas semanas graves acontecimentos susceptiveis de modificar a situação internacional, quer sob o ponto de vista militar, quer sob o ponto de vista politico.
Na Russia, um movimento contra-revolucionario chefiado por Lenine, o «patriota» ao serviço da Alemanha, veiu lançar uma pertubação ainda mais profunda na grave anarquia que já reinava em todo o territorio moscovita.” (Distrito d’Aveiro, 25/Nov/17, 1)

Nas páginas d’ O Trafaria, as palavras eram semelhantes. Lenine, agente alemão, encabeçava um movimento contra-revolucionário que se destinava a vender os interesses russos às potências centrais. Em virtude disso, e perante a permanência dos bolcheviques no poder, aparentemente em condições de resistir às oposições internas e externas, restava, em Março de 1918, utilizar o exemplo russo da única maneira em que ainda podia ser algo útil para consumo interno: como forma de exemplificar o que o pacifismo e as excessivas pretensões sociais dos revolucionários mais exaltados podiam provocar. Seria essa, afinal, a lição a extrair da evolução do que fora o “cataclysmo russo” (A Verdade, 12/Dez/17, 1):

“Operarios de Portugal olhai a lição russa ! Cautela ! Não é a primeira vez que o inimigo faz dos grandes principios um uso, pelos seus efeitos, análogo ao dos gases asfixiantes das granadas peçonhentas. Cautela ! Ha sugestões que matam e a russa é uma delas ! (…) Operários de Portugal, olhai a lição russa ! Há sugestões que matam e a maximalista é uma delas.” (A Fronteira, 3/Mar/18, 1)

José Manuel Lopes Cordeiro , “As Origens do PCP no Porto” , Público , 11 de Março de 2001

Como foi amplamente noticiado, comemorou-se na semana passada o octogésimo aniversário da fundação do Partido Comunista Português, ocorrida em Lisboa, a 6 de Março de 1921. O maior ou menor desenvolvimento que essas abordagens históricas registaram não contemplou, tanto quanto tivemos oportunidade de constatar, o processo que conduziu à formação do PCP no Porto, razão pela
qual a iremos abordar nesta “Memória da Cidade”.
Uma das raras fontes disponíveis para se conhecer um pouco da história do PCP no Porto deve-se a José da Silva, operário sapateiro, que foi um dos protagonistas desse processo. Esse relato autobiográfico deu origem a um livro, em dois volumes, publicado no início dos anos 70 por uma das mais curiosas editoras portuguesas, a Livraria Júlio Brandão, de V. N. de Famalicão. As origens do PCP no Porto remontam a meados de 1920 quando, numa agitada reunião efectuada no Centro Comunista Libertário – com sede na Rua de Entreparedes, nº 33 -, vários dos presentes abandonaram a sala, no seguimento de uma acalorada discussão em que os dois grupos em que, entretanto, os presentes se tinham dividido se injuriavam mutuamente. À frente do grupo que abandonara a reunião encontrava-se o operário Manuel Ferreira Torres, manufactor de calçado, um ex-simpatizante anarquista que se tinha entusiasmado com a revolução russa de 1917, e que, no Porto, era o mais entusiasta difusor do jornal “Bandeira Vermelha”, publicado em Lisboa pela Federação Maximalista Portuguesa.
No seguimento dessa reunião, constituiu-se nesse ano de 1920, e em torno de Manuel Ferreira Torres, um núcleo de operários que formou o primeiro agrupamento de carácter marxista, o qual adoptou a denominação de Centro Comunista do Porto. Dois anos mais tarde, em Dezembro de 1922, alguns sindicalistas do Porto, que, no III Congresso Operário Nacional, realizado em Outubro desse ano na Covilhã, se tinham manifestado a favor da Internacional Sindical Vermelha (ISV), foram contactados por Abílio A. Lima, do sindicato dos arsenalistas de marinha, de Lisboa, informando-os de que os simpatizantes da ISV da capital se tinham associado num agrupamento denominado “Núcleo Sindicalista Revolucionário” (NSR), cujos objectivos eram os de levar os seus membros a constituírem “fracções sindicais” de partidários da ISV dentro dos sindicatos onde dominassem os libertários.
Abílio A. Lima trazia também como missão encontrar no Porto, no seio dos “sindicalistas revolucionários”, alguém que se dispusesse a desempenhar as funções de correspondente de um novo jornal, denominado “A Internacional”, que se iria publicar em Lisboa -cujo primeiro número sairá a 3 de Novembro de 1923 -, com o objectivo de divulgar os princípios sindicalistas da ISV. A tarefa irá recair sobre José da Silva, que, em simultâneo, passou a desempenhar também o cargo de secretário-geral do NSR, entretanto constituído, com sede na Rua do Bonjardim.

A PRIMEIRA ORGANIZAÇÃO PARTIDÁRIA

Entretanto, em meados de 1921, no seguimento da dissolução da Federação Maximalista em Dezembro de 1920 e da posterior fundação do PCP, Manuel Ferreira Torres iniciará um processo que desembocará na criação da primeira organização partidária comunista na Cidade Invicta, a qual substituirá o Centro Comunista do Porto. Entre os elementos que a constituíam, para além de Manuel Ferreira Torres e José da Silva, contavam-se Salvaterra Júnior, cinzelador de profissão e “apreciado poeta” (de acordo com José da Silva), que, no I Congresso do PCP, em Novembro de 1923, será eleito para o Comité Central, Henrique Fernandes, alfaiate, Aurélio da Cunha Guimarães, comerciante, Domingos Ferreira Fontes, pintor, Aníbal Barbosa Cardoso, empregado comercial, e Apolino Aragão, entre outros.
Este primeiro núcleo de comunistas portuenses irá revelar-se, contudo, incapaz de manter entre si a necessária unidade e coesão, pelo que, ainda de acordo com José da Silva, a breve prazo surgem insanáveis divergências, motivadas por diferentes interpretações sobre a orientação a seguir. Estas diziam respeito à aplicação das resoluções adoptadas no IV Congresso da Internacional Comunista (IC), onde uma delegação do PCP tinha participado, e do qual tinha regressado com fortes intuitos “depuradores”. Aliás, uma situação idêntica registou-se em Lisboa, pelo que foi necessário convocar uma conferência de militantes, realizada em 4 de Março de 1923, da qual saiu um novo Comité Central, que, de depuração em depuração, acabou por suspender a actividade do PCP até à intervenção da IC. Entretanto, os militantes que tinham sido “depurados”, dirigidos por José Carlos Rates, darão continuidade ao trabalho, reconstituindo o partido.
Em Agosto de 1923, perante esta situação, Jules Humbert-Droz – o delegado que a IC tinha enviado a Portugal para resolver os problemas da sua Secção Portuguesa – decide apoiar o grupo de Rates e convocar um congresso constitutivo do PCP para Novembro desse ano. A influência de Droz irá ser decisiva, nomeadamente no apoio a Rates, o que, mais tarde, mereceu a Bento Gonçalves a apreciação de que formavam um “duo irresponsável e grotesco”, e que, “com uma acertada vigilância de classe, não era difícil fixá-los como oportunistas sem vergonha”. Nesse congresso, em que os militantes do Porto foram representados por Salvaterra Júnior e Aurélio da Cunha Guimarães, são aplicadas várias sanções – desde a suspensão até à irradiação -, sendo particularmente afectada a Comuna do Porto, dado que a Américo Antelo, António Sales, Apolino Aragão, Domingos Ferreira Fontes e Aníbal Barbosa Cardoso irá ser aplicada a pena de suspensão, e a Henrique Fernandes a irradiação do partido.
Após o I Congresso, a organização do PCP no Porto ficou sob a responsabilidade de Manuel Ferreira Torres, embora extremamente debilitada. Como refere José da Silva, sua simpatia e prestígio “não eram o bastante para fazer andar para a frente a organização comunista do Porto”, salientando, entre outros aspectos, que “nunca se tentou dar ao partido uma sede”, sendo “quase sempre o local escolhido para troca de impressões o café ‘Águia d’Ouro’, e era mesmo aí que, de vez em quando, se redigia uma notícia para os jornais destinada aos seus filiados”. Valerá ao PCP o prestígio e a influência entretanto adquiridos por José da Silva – que, em Dezembro de 1923, tinha sido eleito secretário-geral do Sindicato dos Manufactores de Calçado, que, assim, foi conquistado para a orientação do sindicalismo revolucionário. Em meados de 1924, numa reunião dos filiados no NSR, José da Silva propõe a sua integração nas fileiras do PCP, que é aceite, ao mesmo tempo que aquele era dissolvido. “E foi assim que o PCP, de uma assentada, foi reforçado com cerca de setenta novos membros, 95 por cento dos quais eram operários”, ressalta José da Silva.

PAREDES-MEIAS COM O CAPITAL

A primeira consequência da entrada dos sindicalistas revolucionários para o PCP foi a debandada de Manuel Ferreira Torres e do seu grupo de amigos, que José da Silva explica pelo facto de, verdadeiramente, nunca terem sido comunistas, e estarem “ainda muito presos à cepa de que eram oriundos – o anarquismo”. À frente do PCP no Porto, José da Silva irá imprimir-lhe uma nova orientação, mais actuante, tanto no domínio sindical como no político. A direcção era agora composta por António de Carvalho, operário alfaiate, Anastácio Gonçalves Ramos, metalúrgico, António Nunes, chefe de armazém, e José Moutinho, empregado de escritório.
No entanto, dispunha ainda de um número reduzido de membros que pagavam uma quota mensal de um escudo – o que impossibilitava a resolução de um velho problema, o da inexistência de uma sede, dado não haver receitas suficientes para assegurar o respectivo aluguer. Só existia uma solução, o de aumentar o número de filiados, tarefa que foi resolutamente levada a efeito, e, em menos de dois meses, o PCP portuense contava com 400 militantes, possibilitando o aluguer de uma sala para a primeira sede do partido, nas traseiras do segundo andar do nº 69 da Avenida dos Aliados, num prédio cuja frontaria era ocupada pelo Banco Espírito Santo. A reorganização do PCP portuense contou ainda com um outro momento alto, na Primavera de 1925, com a criação do seu primeiro órgão regional, o mensário “A Bandeira Vermelha”.
Não obstante ter registado inúmeras dificuldades nos anos de 1925 e de 1926, a organização portuense do PCP conheceu um razoável desenvolvimento. Em breve, a sede da Avenida dos Aliados mostrou-se insuficiente para as necessidades partidárias, pelo que foi necessário alugar novas instalações, um segundo andar do nº 196 da Rua de Trás, onde se situava a entrada, mas cuja frente dava para a Torre dos Clérigos.
O 2º Congresso do PCP, realizado em 29 e 30 de Maio de 1926 – nos dias seguintes à revolta militar que abrirá caminho ao regime do Estado Novo -, contou com a participação de sete delegados portuenses – José da Silva, António de Carvalho, Anastácio Ramos, Manuel João, Moreira Gomes, Saint Martin e José Moutinho – e, entre várias resoluções, louvou o trabalho político e sindical realizado pelo Comité Regional do Norte, tendo José da Silva presidido à Segunda Sessão dos trabalhos. No entanto, o PCP saiu desse congresso sem uma clara orientação para fazer face à situação resultante do golpe militar do 28 de Maio, o que conduziu à sua participação em várias tentativas de “putshs” contra a ditadura militar que se tinha instalado no país, organizados pelos diversos sectores republicanos.
É o caso do frustrado golpe do 3 de Fevereiro de 1927, no Porto, que contou com a contribuição de 200 militantes do PCP, no seguimento do qual a sua sede foi encerrada, parte dos seus membros foi presa, tendo os dirigentes locais sido obrigados a dispersarem-se pela província ou forçados a emigrar. A partir de então, a actividade do PCP no Porto e no país praticamente desaparece. Será necessário aguardar por 1929, para Bento Gonçalves encetar uma profunda reorganização. Mas essa é já uma outra história.

(Reproduzido com autorização do autor )