Não existindo em Portugal nada de semelhante ao Maitron , parecia-me interessante utilizar este meio para um primeiro esforço colectivo de recolha de elementos biográficos . Uma das maneiras por onde se poderia começar era o registo actualizado das necrologias que vão sendo publicadas na imprensa nacional e regional e que retratam a vida de tantos militantes obscuros sobre os quais essas notícias são um primeiro ponto de partida . Eu já faço isso , mas dificilmente cubro mais de 10% da imprensa regional . Este é um dos casos em que o blogue poderia ter vantagens para cobrir todo o país onde há quem siga com atenção esta forma de intervenção na Net . Gostava de saber a vossa opinião e se podemos começar a estabelecer uma rede de contactos .
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Como complemento para os estudos sobre o comunismo, sugiro a leitura de um muitíssimo interessante artigo de Ronald Fairbairn, membro da Escola Inglesa de Psicanálise (uma das mais importantes depois do aniquilamento da Escola de Viena em 1938).

A par de Melanie Klein, Donald Winnicott e Wilfred Bion, Fairbairn foi um dos mais importantes pós-freudianos. A ele se deve, em parte, a passagem de uma abordagem estrutural-pulsional para uma estrutural-relacional na (tentativa de) compreensão do funcionamento mental.

No livro Estudos Psicanalíticos da Personalidade (em Portugal, uma edição da Editorial Vega, sem ano mencionado; penso que esgotadíssima) poder-se-á encontrar um artigo de 1935 intitulado ‘O significado sociológico do comunismo considerado à luz da psicanálise’; originalmente lido numa reunião do Ramo Escocês da Sociedade Britânica de Psicanálise (1934) e publicado no The British Journal of Medical Psychology.

Existe ainda uma conferência semelhante intitulada ‘Comunismo como um fenómeno antropológico’, publicada no Edinburg Medical Journal em 1937.

Não deve ser complicado adquirir o livro numa edição inglesa. Encontra-se neste sítio.

(Nota enviada por Paulo Azevedo)

COLONIALISMO

RMP no Companhia de Moçambique chama a atenção dos Estudos para o papel do grupo de autores “existencialistas” na emergência da consciência do facto colonial. É matéria sobre a qual tenho estado a trabalhar num capítulo da III volume da biografia de Cunhal, com destaque para o período muito pouco conhecido de 1945-1957. Trarei para os Estudos alguns documentos inéditos ou muito pouco conhecidos sobre as relações entre o PCP e o sector “colonial”.

Publico aqui, com vénia, excertos dos textos da Companhia, que podem ser consultados integralmente no blogue. Como é normal nos blogues a ordem das notas é cronologicamente invertida.

“(…) Naqueles anos dourados do estalinismo, Jean-Paul Sartre, Aimé Césaire, Frantz Fanon e Albert Camus, sim, Albert Camus, comungavam na causa da afirmação dos direitos dos povos colonizados. Dir-me-á, muito justamente, que todo esse movimento intelectual anti-colonial esquecia, por exemplo, o colonialismo soviético, do mesmo modo que o movimento dos não-alinhados e o seu empenho anti-colonial, afirmado em 1955 na Conferência de Bandung, o ignorava por completo. É certo. Como sempre, também as causas justas nem sempre podem escolher os seus compagnons de route. Aliás, está por fazer um debate em torno da questão de se saber em que momento o Partido Comunista Português ganhou, de facto, uma consciência anti-colonial. Um estudo sério sobre a extensão do PCP em Moçambique, a Organização dos Comunistas Moçambicanos (O.C.M.) — estrutura que, ao que suponho, só se dissolveria, por imposição da direcção do PCP, já nos anos 60 — muito ajudaria ao esclarecimento dessa questão (…)
De todo o modo, voltando a esta nota sartriana, já nos anos 70 Léopold Sédar Senghor evocaria a importância do contributo do grupo de Sartre (incluindo aí Camus) para o reconhecimento e divulgação dos ideais da negritude e, por extensão, do anticolonialismo.”

Indígenas e Nativos

A especificidade do colonialismo contemporâneo não resulta somente do facto de afirmar sociedades que se julgam superiores, mas do facto dessas sociedades justificarem a sua superioridade na ciência e, particularmente, nas ciências sociais. A situação colonial não pode, por isso mesmo, ser encarada apenas como um modelo de gestão política, económica e social, correspondente a uma determinada fase da evolução das economias e políticas do Ocidente. Ela deverá ser perspectivada, também, na sua dialéctica de permuta de dados culturais em que o seu carácter agonístico deriva da natureza impositiva e assimétrica das culturas em confronto. Daí que a situação colonial, como realidade objectiva, constitua o fecho do ciclo da percepção da alteridade iniciada no século XVI: num extremo — e após a fase da constatação, levantamento e inventariação do exótico — o modelo iluminista do «bom selvagem», domínio de uma alteridade homogénea e auto-suficiente, objecto de um «olhar distanciado» [glosando o título de uma das últimas obras de Lévi-Strauss (1983), Le Regard Éloigné]; no outro extremo desse ciclo, a situação colonial, com toda a sua carga de intervenção, reduzindo ou amplificando os factores da alteridade, consoante as suas necessidades ideológicas (as tais «pseudojustificações e comportamentos estereotipados» a que se referia Georges Balandier na sua definição de «situação colonial»). Tal alteridade é sancionada ideologicamente pela segmentação básica da sociedade colonial entre «civilizados» e «indígenas», isto é, tal discriminação identifica a coesão do sistema colonial através da redução dos autóctones à categoria de uma criação da natureza e de um objecto:
«Toda a gente sentiu o que há de depreciativo na palavra indígena que é utilizada para designar os nativos de um país colonizado. O banqueiro, o industrial, o próprio professor da metrópole não são indígenas de nenhum país: nem sequer são nativos».[Jean-Paul Sartre (1949), «Matérialisme et Révolution»]
Esta «coisificação» do colonizado [foi Aimé Césaire (1950) quem primeiro estabeleceu a equação «colonização=coisificação» em Discours sur le colonialisme] conduz-nos a uma noção operatória muito pertinente para a Antropologia — a oposição natureza / cultura — e que para a situação colonial se demonstra perfeitamente operativa se aplicada, por exemplo, à análise da política colonial portuguesa nas suas variadas e sequenciais assunções assimilacionistas. Com efeito, mesmo nos casos de não aplicabilidade da política colonial de indirect rule [administração indirecta], as diferentes potências coloniais implementaram em África sociedades dualistas, umas dotadas de uma parte urbana, usufruída por «brancos» e «assimilados», onde as regras políticas imitavam as da metrópole e outras dotadas de uma parte de «mato», habitadas por «não civilizados», onde as regras políticas da parte urbana não se aplicavam [T. Biaya (1998), «Le Pouvoir ethnique – concept, lieux d’enonciation et pratiques contre l’État dans la modernité africaine: analyse comparé des Mourides (Sénégal) e Luba (Congo-Zaire)»]. Tornar-se-ia possível, portanto, pensar uma Antropologia do Colonialismo, sobretudo nas suas implicações simbólicas.”

Embora esta discussão tenha tido lugar em Abrupto, penso ser de interesse para os estudiosos do comunismo.

DOIS TEMPOS

Estou a escrever um livro (talvez acabe estas férias) que tem um problema complicado a resolver. É um livro sobre um homem que está preso onze anos, cuja vida no mundo carcerário é controlada ao milímetro, e cujos gestos possíveis e permitidos representam uma rotina imposta à força. Apitos, acender e apagar de luz, horários impiedosos. A prisão é, nos primeiros anos, uma materialização arquitectónica de uma ideia filosófica : o Panopticon de Bentham. Feita para tudo ser visto a partir de um olho central, o local último do poder. A “estrela de seis pontas”. Depois de quase um ano, em que não foi autorizado a fazer nada, o homem lê, estuda, escreve, desenha e pinta.
Cá fora há uma guerra, fria , mas guerra. Acontece tudo. O tempo é solto, é rápido, é o tempo da modernidade, acelerado. Como juntar num mesmo movimento tanta imobilidade e tanta rapidez?

DOIS TEMPOS 2

Os “dois tempos” da minha nota anterior eram obviamente sobre a prisão de Cunhal, em cujo terceiro volume da biografia estou a trabalhar, e que cobre os anos da prisão de 1949 a 1960. João Nogueira escreveu-me comentando os “dois tempos” na base do trabalho sociológico que nos últimos dois anos tem estado a fazer “sobre prisões e encarceramento”. Levanta a seguinte objecção à “dualidade temporal” :

“O tempo «dentro» não é «linear» (ou, se quisermos, «linearmente lento»), quando se procura fazer uma «fenomenologia da vida prisional». Com efeito, em boa parte das etnografias prisionais que li até hoje, é notória a existência de diversas fases na percepção da passagem do tempo por parte de reclusos (sobretudo, em reclusos com penas de longa duração). Veja, a título exemplificativo, o que me dizia um ex-recluso condenado a uma pena relativamente extensa (9 anos) em sede de uma «entrevista biográfica» (história de vida/ estória de vida).

Segundo a sua «experiência vivida» afirmava existirem três fases distintas na percepção da passagem do tempo:

“O tempo na cadeia tem três fases. Tem a fase inicial que custa muito… de adaptação. O tempo custa muito a passar. Depois o do meio, passa-se num instante: ‘O quê já passaram quatro anos…’ Depois no final é a ansiedade, quando se aproxima a saída. Aí o tempo volta a ser muito lento. Mas na fase do meio nem se dá por ela passar. Não se vive, vegeta-se… A entrada custa a aceitar… A adaptação áquele ambiente, os problemas, a vida cá fora, o que se deixou, os crimes, as perspectivas de vida… às vezes pensa-se na evasão. Depois pensamos: ‘Isto é uma fase de passagem… vamos lá ver se me aguento cá dentro’. É a parte mais difícil. Depois uma pessoa mentaliza-se… Passa muito rápido. Depois vem a ânsia de viver. A ânsia da liberdade.” (Ex-recluso)

Assim, no período inicial, de adaptação à prisão, de assimilação da cultura penitenciária e de internalização dos tempos institucionais, o tempo custa muito a passar [“Você não imagina como é acordar a noite inteira, olhar para o relógio e ver que só passou uma hora, às vezes meia… uma pessoa pode enlouquecer à espera do dia seguinte. É um tempo muito lento… muito lento. E custoso, obviamente.” (Ex-recluso).

Na fase que se segue, pontifica o sentimento do tempo parado e inerte, onde os rituais quotidianos são incorporados e os dias passam sem se dar conta. Na última etapa, regressa o tempo que custa muito a passar, devido à enorme ansiedade provocada pela proximidade da libertação. Ademais, esta percepção do tempo não é universal (e é, na verdade, algo teleológico argumentar que todos os reclusos passam por estas três fases) e muitos reclusos, apresentam diferentes maneiras de experienciar a passagem do tempo. As tempografias da experiência de reclusão são, por conseguinte, muito heterogéneas.

Assim questiono-me porque tentar dar uma noção de imobilidade «lá dentro». Porque não dar uma noção menos linear da evolução da percepção do tempo lá dentro, com as suas flutuações, mutações, hesitações, etc…? Fica a sugestão.”

O meu problema é que lido com o caso individual, não generalizável, de um preso político, altamente motivado, numa cadeia de presos comuns, numa situação de isolamento sui generis, que tem que ser analisado como político, mas também como homem que está preso, sujeito aos efeitos e perversões da vida carcerária. Tento fazê-lo em dois capítulos do livro, um dos quais intitulado provisoriamente “estratégias contra a solidão”. Quando li a literatura sobre o encarceramento e os seus efeitos, era para mim claro que alguns dos efeitos de interiorização do regime prisional aí descritos, alguns inclusive de identificação com a instituição prisional, não se verificavam dada a força de resistência psicológica do preso, fruto da sua personalidade e da motivação política e ideológica. Mas, nem tudo era assim tão simples.

No entanto, mesmo aqui, tive que me defrontar com a diferença entra a situação dos presos políticos numa cadeia onde só há presos políticos (Peniche ou o Tarrafal por exemplo) e em que estes se defendem da institucionalização criando uma “contra-sociedade” na prisão (aulas, estudo em comum, caixa de solidariedade, actividades partidárias, direcção política das actividades, hierarquia própria ), com o caso de Cunhal que permaneceu longos períodos de prisão isolado. Aí não há esse efeito de “contra-sociedade” limitando os efeitos da “instituição total”.

Por último, a percepção do tempo vivido, sendo psicológica é também neste caso, afectada pela importância de uma filosofia individual da acção, impregnada pela história, que corre … cá fora.

No ano em que se comemora o cinquentenário da morte de Staline é interessante lembrar alguns aspectos do que foi o estalinismo no PCP . O artigo recente de João Madeira , referido na bibliografia , acrescenta pouco ao que já se sabe do estalinismo no PCP , de que o seu livro Os Engenheiros de Almas . O Partido Comunista e os Intelectuais (dos Anos Trinta a Inicios de Sessenta) é o estudo mais completo . O poema que publicamos junto , de autoria de um “jovem português” não identificado ( “José Didopro” ) , é um exemplo típico do culto de personalidade a Staline e circulou entre funcionários e militantes do PCP entre 1954 e 1955 . Na versão que conhecemos dactilografada uma palavra é ilegível .

Adeus , camarada Staline !

Ó Sol que nos abandonas , após tantos dias nos iluminares !
Ó estrela do Kremlin que empalideces , após tanto tempo rubra !
Adeus , camarada Staline !
Milhões e milhões de homens gemeram de dor ao receber ……. [ilegível ] .
Milhões e milhões se cobriram de luto .
Adeus , camarada Staline !
O funeral passa
A vermelha praça negro se torna .
Todas as praças do mundo se tornam negras .
Adeus , camarada Staline !
Cortejo simples , grandioso , tal como o homem.
Homem ! Mais que Deus !
Vejo-te , como tantos
E como tantos choro .
As lágrimas correm-me ,
Que são gotas no largo oceano jorrado dos olhos dos povos .
Pagam-te o amor com amor
Ó mais odiado e amado dos mortais !
Adeus , camarada Staline !
Nunca serás esquecido !
O caminho que nos indicaste será seguido
Tu que foste sempre um exemplo de modéstia , da ciência !
Só tu confessaste erros ,
Mas só de ti aprendemos
Adeus , camarada Staline !
Na tua doutrina oremos
Por ela as mãos daremos
E o mundo revolveremos
Para que haja Paz !

9 de Março de 1953

José Didopro