O “CONTRA-AVANTE” (1942)

Do EPHEMERA

O Contra-Avante (1942) é uma publicação destinada a contrariar a crescente influência do PCP e do Avante! através de um simulacro de um jornal em tudo semelhante ao original clandestino. Nos seus primeiros números o aspecto era ainda distinto, pelo que não se pode falar de um falso Avante!, como acontece com os exemplares posteriores ao número 3 (ou incluindo o número 3, que não possuo na colecção). Os números 4 e 5 podem por isso ser considerados falsos Avante! , como outros números que vieram a ser publicados mais tarde ou pela PIDE ou pela Legião Portuguesa. O cabeçalho do Contra-Avante é uma imitação do usado pelo Avante! da “reorganização” e é distinto do usado pelo chamado “grupelho” que, na mesma altura. reivindicava a legitimidade de direcção do PCP. O facto da cópia ser feita do cabeçalho da “reorganização” pode revelar o seu maior impacto nos meios operários.

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Avante! da “reorganização!.

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Avante! do grupo Vasco de Carvalho – Sacavém.

O jornal era assinado inicialmente por “um grupo de operários” e mais tarde apresentava-se como “Órgão Central do Operariado Nacionalista Português”. Embora se desconheça quem o produziu, é possível que a sua origem esteja na Legião Portuguesa. Não conheço números posteriores a 1942.

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Acabou de ser publicado em edição conjunta da Dinossauro / Abrente Editora uma colectãnea de textos de Francisco Martins Rodrigues que inclui memórias inéditas (escritas em 2006) sobre os seus tempos de funcionário clandestino do PCP e as suas primeiras prisoes. Em anexo, republica-se o relatório que escreveu sobre a tortura de sono (1966) e a defesa em Tribunal (1970).

Num suplemento especial que lhe dedicou a revista Política Operária (115, Maio/Junho 2008 ) de que tinha sido director, há um texto inédito intitulado “Duas correntes na resistência ao fascismo” sobre a cisão com o PCP.

SOBRE O DOSSIER TARRAFAL

Para comemorar o 70º aniversário da criação do campo do Tarrafal, a editorial do PCP, as Edições Avante!, publicou um Dossier Tarrafal. Nesse volume, sem autoria a não ser a da Editora, o que quer dizer de autoria da direcção do PCP, são incluídos documentos conhecidos como também outros inéditos. Como a publicação de documentos inéditos oriundos dos arquivos do PCP não abunda, foi com muito interesse que li este volume. Infelizmente  confirmei na sua leitura que o PCP não consegue ultrapassar a sua enorme dificuldade em contrariar as versões oficiais da sua história, com fins de legitimação política, e qualquer política de publicação de documentos inéditos acaba por ser muito restritiva para não entrar em contradições com essas mesmas versões oficiais.

É o caso deste volume, aliás feito sem grandes cuidados de rigor, sem notas, e omitindo muita informação de enquadramento que podia valorizar o que de inédito lá se publica. Grande parte do volume é constituído por documentos já conhecidos ou publicamente acessíveis – artigos do Avante! e testemunhos de antigos presos do Tarrafal – a que são acrescentados dois grupos de inéditos: “diários” do Tarrafal escritos por presos não identificados, e peças da correspondência entre a Direcção da Organização Comunista do Tarrafal e a direcção do PCP, representada por Álvaro Cunhal . Sabia-se da existência destes documentos nos arquivos do PCP, como aliás de outros que continuam a ser escondidos, mas o partido não permitia o seu conhecimento á investigação histórica.

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1. Introdução

 

Este trabalho* visa o estudo do que, em nosso entender, pode ser definido como sendo uma cultura de resistência ou, se preferirmos, uma contra-cultura face ao regime do Estado Novo, assumida e praticada pelo PCP, por militantes e funcionários, evidenciada não apenas ao nível dos valores e da moral, mas também através da praxis quotidiana.[1] A clandestinidade comunista praticada pelos funcionários do PCP na década de 40, está longe da ilegalidade que havia caracterizado a actividade política na década de 30.[2] Com a reorganização dos anos 40, não serão apenas os principais dirigentes a viver em situação de clandestinidade, é toda a estrutura partidária que se clandestina, através de uma rígida compartimentação, com regras de funcionamento e comportamentos estandardizados, de modo a escapar à acção repressiva desencadeada pelo regime de Salazar[3]. Falar do PCP na clandestinidade é, em parte, falar de uma “instituição total”, na esteira do conceito avançado por Erving Goffman, o qual remete, em última instância, para a primazia da instituição (neste caso, o Partido) sobre os indivíduos que nela ingressavam[4].

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