Muitas vezes digo aos meus amigos que as peripécias que passei e passo para escrever a biografia de Álvaro Cunhal davam um livro à parte, com todos os ingredientes de um romance entre o Le Carré e uma coisa mais pícara, ou seja, uma combinação quase impossível e muito improvável. Desde início que sabia que a iniciativa seria dificultada pelo próprio Álvaro Cunhal e que este colocaria todos os obstáculos possíveis, ele e o PCP. Sabia também que escrevia no fio de uma navalha muito especial, a de estar a biografar alguém que estava vivo, que era muito hostil à iniciativa (e ao autor) e que podia com muita facilidade desclassificar a seriedade do trabalho. No fundo, a vida era dele e bastava Cunhal dizer que meia dúzia de afirmações eram erradas ou “falsas” para criar uma imagem de falta de rigor. Esta possibilidade era tanto mais real quanto eu escrevia sobre uma história em grande parte por contar, sem fontes secundárias, com fontes primárias de muito complexa interpretação (como as fontes de polícia, ou os arquivos soviéticos), mas em muitos casos sem fontes nenhumas e com escassíssimos testemunhos. Cunhal nunca o fez e soube mais tarde por testemunhos de pessoas que o contactaram nos últimos anos da sua vida, que ele elogiou a biografia que nunca desejara que fosse escrita.

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F: Museu do Neo-realismo

04-12-2008-4 MÁRIO BRAGA – UM ESCRITOR NO REINO CIRCULAR
Exposição biobibliográfica

Curadoria: David Santos e António Mota Redol
15 de Novembro de 2008 a 26 de Abril de 2009

Por várias razões, o escritor Mário Braga (Coimbra, 1921) é um caso singular no universo literário neo-realista. Autor de uma obra expressa em diversos géneros, é ainda hoje sobretudo reconhecido como contista de mérito inquestionável. Na verdade, o romance, o teatro e o ensaio são esporádicos na sua obra, tendo o conto assumido maior e decisivo protagonismo no seu exercício ficcional. Ao longo do seu percurso literário foi apurando uma forma de escrever simples, directa e incisiva, que introduziu alguma novidade na tradição do conto rústico português. O ruralismo da Beira Interior converte-se rapidamente no ambiente privilegiado da 1ª fase da sua carreira, dando aos seus textos, no entanto, uma expressão de universalidade comum a outros escritores neo-realistas. Já na fase de maturidade, não só a cidade surge mais amiúde, como dedica mais atenção à designada “análise dialéctica do eu”, sem abandonar, porém, as preocupações de carácter social. A crónica e o texto político preenchem a sua última fase de produção literária, menos dedicada, por isso, à prática da ficção.

fonte: Esfera dos Livros

Biografia de um Inspector da PIDE.. Fernando Gouveia e o Partido Comunista Português

De memória invulgar, minucioso, inteligente, extremamente vaidoso, visceralmente salazarista, com uma folha de serviço «brilhante», Fernando Gouveia foi um dos investigadores da PVDE/PIDE/DGS mais temidos pelo Partido Comunista Português (PCP).

Era um homem baixo, de rosto fechado, sempre de chapéu e fato engomado, marcado pelo nascimento ilegítimo e por uma infância dura, pai de sete filhos, fruto de vários casamentos.

Este inspector do Gabinete Técnico da Polícia Política conhecia como ninguém os métodos do PCP, a forma de actuação dos seus militantes, funcionários e dirigentes clandestinos, não só a nível político como a nível pessoal. Pela sua mão foram apreendidos documentos fundamentais que Fernando Gouveia estudava minuciosamente, de forma a desmantelar o puzzle comunista, assim como foram presos centenas de comunistas, vítimas de violência e de toda a espécie de torturas, chantagens e pressões psicológicas.

Irene Flunser Pimentel, Prémio Pessoa 2007, traz-nos o retrato não de um herói ou de uma vítima, mas de um agente de repressão do Estado Novo. Com uma investigação baseada no arquivo da PIDE/DGS e na leitura das memórias publicadas, pelo próprio, em 1979, esta historiadora transporta-nos para o interior da polícia política, explica-nos os seus métodos e as suas operações, e conta-nos a história da resistência do Partido Comunista desde os anos 30.

Colecção: História do Séc. XX

fonte: F.Vieira de Sá

A morte de Branco Rodrigues exerceu em mim uma sensação que nunca tinha experimentado e que se enraíza numa profunda ideia de irmandade que vem de um tempo em que, com epicentro na Europa mas com réplicas em todo o mundo, deflagrou a I Guerra Mundial.
Branco Rodrigues nasceu em 1912. Eu nasci em 1914, tempo de gestação e eclosão do grande conflito bélico (1914-1918), donde nasceria uma sociedade que alterou organicamente o statu quo ante da vida e, seguramente, actuou sobre as famílias e todo o evolutivo pensamento de que os recentes nascituros serviram de cobaias das recém-implantadas vivências.

Acabou de ser publicado em edição conjunta da Dinossauro / Abrente Editora uma colectãnea de textos de Francisco Martins Rodrigues que inclui memórias inéditas (escritas em 2006) sobre os seus tempos de funcionário clandestino do PCP e as suas primeiras prisoes. Em anexo, republica-se o relatório que escreveu sobre a tortura de sono (1966) e a defesa em Tribunal (1970).

Num suplemento especial que lhe dedicou a revista Política Operária (115, Maio/Junho 2008 ) de que tinha sido director, há um texto inédito intitulado “Duas correntes na resistência ao fascismo” sobre a cisão com o PCP.

fonte: informações de José Carlos Santos

Os materiais do Colóquio António Aniceto Monteiro: Comemorações do centésimo aniversário do seu nascimento (Lisboa, 4 – 5 Junho 2007) serão publicados este ano num número especial do Boletim da Sociedade Portuguesa de Matemática (dirigido por José Carlos Santos) com as actas deste colóquio.

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Artigos disponíveis em linha sobre António Aniceto Monteiro:

Portugaliae Mathematica , Volume – 39, Fascículo – 1-4, 1980

Hugo Ribeiro,Actuação de António Aniceto Monteiro em Lisboa entre 1939 e 1942

Ruy Luís Gomes /Luís Neves Real, António Aniceto Monteiro e o C.E.M. do Porto (1941/1944)

Leopoldo Nachbin, The influence of António A. Ribeiro Monteiro in the development of Mathematics in Brazil

Eduardo L. Ortiz, Professor António Monteiro and contemporary mathematics in Argentina

A. Pereira Gomes, O regresso de António Monteiro a Portugal de 1977 a 1979

«Foram dois indivíduos extremamente importantes para a minha formação mental, o Zé [Dias] Coelho e o João Abel [Manta]; dois líderes naturais (…) um pela consciência política, o outro pela grande cultura»

Rolando Sá Nogueira

Falar de João Abel Manta é recordar uma geração que, no período após a Segunda Guerra, forjou um combate militante ao «Estado Novo» e aprendeu a resistência dos actos, das palavras e do silêncio. Num tempo em que a cultura subvertia e incomodava.

Fixemo-nos em 1945, ano em que finda a Segunda Guerra Mundial e surge o movimento oposicionista MUD – Movimento de Unidade Democrática, o ano lectivo (45-46) em que o futuro arquitecto ingressa na escola de Belas-Artes de Lisboa, no velho casarão de São Francisco onde o jovem de 17 anos vai encontrar um ensino obsoleto e um ambiente asfixiante, que desprezará, mas onde inicia também um ciclo de encontros, partilhas, lutas e emoções que irão consolidar o homem e o cidadão João Abel Manta.

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OUTROS MAIOS DE 1968

fonte: Baltimore Sun, 6/4/2008.

MORTE DE TOM LEWIS, UM DOS “NOVE DE CATONSVILLE”

Tom Lewis 1940-2008

Activist and artist known as one of ‘Catonsville Nine’

Protester was jailed 3 years for part in burning of draft files

(Tom Pelton, Sun reporter)

Forty years ago next month, Tom Lewis and eight other Vietnam War protesters strode into the offices of U.S. Selective Service Board 33 in Catonsville and left a mark on history.

The “Catonsville Nine” emptied file cabinets, hauled 600 draft records into the parking lot and burned them with homemade napalm. Then they prayed and waited to be arrested.

That act of civil disobedience on May 17, 1968, inspired headlines – and more than 200 protests at draft board offices across the country. The tone of Vietnam War protests changed, becoming angrier and more intense as the war dragged on for seven more years.

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Na sequência desta nota acrescentam-se mais informações sobre as comemorações do centenário do dirigente do PCP José Gregório centradas na sua terra natal da Marinha Grande:

– o PCP publicou um documento foto-biográfico sobre a vida de José Gregório que contém algumas reproduções de materiais inéditos, algumas fotografias de juventude, fotos da sua estadia na Checoslováquia (ver foto) e um original manuscrito de uma saudação do PCP a um Congresso do PC checo. No seu conjunto, o texto avança muito pouco no que já se sabe sobre o papel de Gregório, é omisso em relação a muitos aspectos da sua acção também já conhecidos, e nada nos diz sobre a sua actuação desde 1956, nas “importantes tarefas do Partido nomeadamente no quadro das suas relações internacionais“.

placa evocativa do centenário na Marinha Grande.

intervenção de João Dias Coelho, da Comissão Política do PCP, na inauguração da exposição evocativa do centénário do nascimento de José Gregório, no Museu do Vidro da Marinha Grande.