
Mulheres dos presos do 18 de Janeiro de 1934 na Marinha Grande a pedir a libertação dos seus familiares junto do Governo Civil de Leiria.

Mulheres dos presos do 18 de Janeiro de 1934 na Marinha Grande a pedir a libertação dos seus familiares junto do Governo Civil de Leiria.
O jornal Público de 12/4/2004 publica uma série de textos e depoimentos sobre o papel dos médicos ligados à PIDE nas torturas. Inclui um artigo de António Melo e um depoimento de Urbano Tavares Rodrigues sobre os médicos da PIDE.
Posteriormente, o Público de 17/4/2004 publicou sobre a mesma matéria novos depoimentos de Afonso de Albuquerque e Júlio Lopes Freire .
Numa nota publicada em 25 de Janeiro de 2004 no Abrupto e nos Estudos sobre o Comunismo, publiquei esta crítica:
“Num artigo de hoje do Público São José Almeida escreve o seguinte sobre as torturas utilizadas pela PIDE:
“Os métodos [de tortura] usados passavam, por exemplo, por queimar os presos com cigarros. Era também usual interrogar os presos despidos, sobretudo quando se tratava de mulheres.”
Nenhuma destas coisas é verdade, a não ser excepcionalmente. A PIDE torturava e torturava por sistema, não é isso que está em causa. Mas não utilizava queimaduras que deixavam marcas e muito menos despia as mulheres “usualmente”. Há um ou outro relato , muito raro, de queimaduras de cigarro, e ,a não ser num caso de mulheres presas do Couço em que humilhações directas de carácter sexual foram utilizadas, desconhecem-se testemunhos nesse sentido. A PIDE insultava as “companheiras” de tudo quanto havia, mas não as despia.
Afirmar isto é não compreender de todo os quadros de mentalidade que presidiam ao regime A lei não chegava à PIDE, como os PIDEs se gabavam, mas chegava a mentalidade e a “moral” sexual (ou a falta dela). É completamente inverosímil o que se diz no artigo.”
Esta nota motivou uma reacção indignada de São José Almeida e de outros jornalistas do Público no Glória Fácil, reafirmando a veracidade e o fundamento do que se escrevera no artigo. Entendi nada dizer porque todas as pessoas que conhecem a história da repressão em Portugal sabem do completo infundado das afirmações de São José Almeida e não valia a pena qualquer comentário pelo que era uma manifestação de ignorância solidária.
Agora, no mesmo jornal, Irene Pimentel , que se prepara para terminar o estudo mais completo sobre a PIDE, vem dizer exactamente o mesmo. Há apenas um caso conhecido e nenhuma prática “habitual” como dissera São José Almeida:
“Nos anos 60, a ideia da emancipação das mulheres também chega à PIDE e começaram as torturas às mulheres. As do Couço foram as primeiras”, conta Irene Pimentel.. (…) A historiadora apenas tem conhecimento de um caso de tortura sexual a uma mulher. “É um caso conhecido, foi Conceição Matos, que foi submetida à tortura da estátua, estando menstruada, obrigada a despir-se e a limpar-se com a roupa, diante dos agente. Entre eles estava uma mulher, a célebre agente Madalena, que tinha fama de muito violenta com os presos”.
Ficava bem, até pelo tom habitual de arrogância moral que foi usado, que se reconhecesse o erro.
Foi publicada no Público de 2 de Abril de 2004, uma extensa entrevista a Irene Pimentel, (investigadora do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa) que está a terminar a sua tese de douturamento sobre a PIDE-DGS de 1945 a 1974. Na entrevista, para além de uma análise genérica do funcionamento da polícia política, refere em detalhe a utilização de informadores, a tortura e as relações com serviços de informação estrangeiros.

Foto tirada na Fortaleza de S. João Batista em Angra do Heroísmo, Açores , provavelmente em 1936. O preso à direita é Manuel João da Palma Carlos, a quem pertencia o original da foto, que pode ter sido destruído no incêndio que o vitimou. Os outros dois presos não estão identificados.
No Abrupto:
“Há dias, em conversa com um antigo colega de curso, este contou-me uma história que lhe foi contada pelo professor José Morgado (um excelente professor, de quem fui aluno em cinco cadeiras) que imediatamente me fez lembrar o seu texto «PORTUGAL NO SEU MELHOR – OS PIDES FILATELISTAS». Por diversas vezes, agentes da PIDE que fizeram rusgas em casa do professor Morgado roubaram-lhe livros (e realço que estou a falar realmente de roubos e não de apreensões) que depois venderam a livrarias. Por mais que uma vez o professor Morgado teve que fazer uma ronda pelas livrarias para os recuperar, pagando-os, naturalmente. Chegou a haver livros que teve que comprar por três vezes: uma em condições normais e duas voltando a comprá-los a livreiros.”
(José Carlos Santos)
Num artigo de hoje do Público São José Almeida escreve o seguinte sobre as torturas utilizadas pela PIDE:
“Os métodos [de tortura] usados passavam, por exemplo, por queimar os presos com cigarros. Era também usual interrogar os presos despidos, sobretudo quando se tratava de mulheres.”
Nenhuma destas coisas é verdade, a não ser excepcionalmente. A PIDE torturava e torturava por sistema, não é isso que está em causa. Mas não utilizava queimaduras que deixavam marcas e muito menos despia as mulheres “usualmente”. Há um ou outro relato , muito raro, de queimaduras de cigarro, e ,a não ser num caso de mulheres presas do Couço em que humilhações directas de carácter sexual foram utilizadas, desconhecem-se testemunhos nesse sentido. A PIDE insultava as “companheiras” de tudo quanto havia, mas não as despia.
Afirmar isto é não compreender de todo os quadros de mentalidade que presidiam ao regime A lei não chegava à PIDE, como os PIDEs se gabavam, mas chegava a mentalidade e a “moral” sexual (ou a falta dela). É completamente inverosímil o que se diz no artigo.