Terminei recentemente a leitura dos três livros editados pela le cherche midi (colletion Documents), relacionados com a vida de Jacques Rossi. Os livros chamam-se Le Manuel du Goulag (1997), Qu’elle était belle cette utopie (2000) e Jacques le Français (2002) e tiveram efeitos de choque que permaneceram desde a primeira à última linha.

Jacques Rossi é uma personagem real e peculiar. Franco-polaco, filho de pais franceses, nascido em França em 1909, foi levado de tenra idade para a Polónia onde viveu com a mãe e um padrasto polaco que o perfilhou e foi educado numa casa senhorial pois o padrasto era um aristocrata latifundiário. Estudante universitário, aos 17 anos aderiu ao Partido Comunista Polaco, então na clandestinidade, acabando por ser preso pela polícia do ditador Pilsudski.

Jacques consegue fugir para a Checoslováquia e inicia uma carreira de militante comunista internacionalista. É recrutado para trabalhar nos serviços de informação do Komintern e inicia uma carreira que iria durar 10 anos de agente secreto com a tarefa de servir de correio de mensagens secretas em todo o mundo, sempre sob falsas identidades. Enquanto agente secreto, Jacques obtém vários diplomas universitários com identidades que lhe são alheias (em belas artes e civilizações orientais), torna-se poliglota (domina francês, inglês, alemão, polaco, russo, espanhol, italiano, persa e outras línguas orientais) e desempenha múltiplos papéis de disfarce. Em dado momento, apercebe-se que foi transferido (sem disso ter sido formalmente informado) dos serviços de informação do Komintern para o GRU (serviços secretos do Exército Vermelho) mas isso em nada o afecta pois a causa era a mesma.

Em 1937, em plena guerra civil espanhola, é enviado para a zona franquista (Valladolid) onde, sob o disfarce de diplomata nicaraguense, obtém informações sobre as actividades franquistas que a sua camarada Julita (de quem desconhece a identidade mas supõe tratar-se de uma austríaca devido ao sotaque com que fala o alemão) e sua esposa segundo o disfarce, transmite por rádio para os serviços secretos soviéticos instalados no lado republicano.

Num certo dia do final de 1937, chega uma mensagem rádio da Central ordenando a apresentação imediata de Jacques em Moscovo para desempenho de nova tarefa. ¿Julita¿ tenta dissuadir Jacques de viajar para Moscovo (em 1936 havia começado a Grande Purga) mas este, disciplinado militante revolucionário, cumpre a ordem e segue de imediato para a Capital do Comunismo.

Chegado a Moscovo, pleno das energias próprias dos 28 anos de idade, Jacques apresenta-se no seu serviço disposto a cumprir nova missão e novas odisseias clandestinas. Estranha o tratamento frio dos camaradas que o atendem e mais ainda o facto de lhe dizerem que o seu chefe (um comunista polaco chamado Kraietski) já não estava ao serviço (saberia mais tarde que havia sido preso e fuzilado).

Decorrem os dias e as semanas, vão-lhe indicando vários sítios para habitar e continua sem resposta quanto ao seu destino. Um dia, é finalmente recebido pelo substituto de Kraietski que acusa o seu antecessor de ser um traidor e um espião e indica a Jacques que deve acompanhar um tal camarada Ivan que o levará para o local de treino da sua nova missão. A viagem de automóvel com o camarada Ivan termina dentro da prisão de Loubianka de onde transitará para a prisão de Boutirka. Jacques espera calmamente saber de que é acusado para, como julga inevitável, desfazer o mal entendido. Para ele, o pior é então ter de partilhar as celas a abarrotar com tantos inimigos do povo.

Ao fim de nove meses de prisão, Jacques é finalmente levado à presença de um comissário-interrogador (esta figura estava integrada na estrutura policial e não de qualquer elo do aparelho judiciário). O comissário começa por propor a Jacques que indique qual o crime que cometeu. Este diz que não cometeu qualquer crime. O comissário indica-lhe que ele é acusado de ser um espião franco-polaco e tudo tem a ganhar em confessar as suas actividades de espionagem. Jacques reitera a sua inocência e segue-se um calvário de várias semanas em que apelos à confissão são entremeados com sessões de tortura de estátua e de sono (algumas durando uma semana) e de espancamentos.

Em 7 de Abril de 1939 (dezasseis meses após o início da sua prisão preventiva), Jacques é informado que tinha sido condenado pela OSSO (órgão não judiciário e pertencente à Segurança do Estado) – sem que estivesse presente durante a sessão de julgamento – a oito anos de trabalhos forçados no Gulag.

Jacques inicia a via sacra do internamento para trabalho de reeducação em vários campos de concentração na Sibéria e acima do Círculo Polar Ártico onde vai executando diversos trabalhos penosos sob miseráveis condições de alojamento e de alimentação e em condições climatéricas terríveis.

No final de 1945, chegou ao fim a pena que lhe havia sido aplicada pela OSSO. É-lhe então aplicada a circular nº 224 que permite o prolongamento de encarceramento até disposição especial.

Em 1947, é solto do campo de Norilsk mas obrigado a viver nesta cidade e apresentar-se regularmente nas instalações policiais. Jacques contacta várias Embaixadas a fim de obter visto que lhe permita sair da União Soviética. As suas cartas para as Embaixadas são interceptadas pela polícia, é preso de novo e condenado a mais vinte e cinco anos de trabalhos no Gulag.

Feitas as contas, Jacques deveria ser libertado apenas em 1972. Ou seja, preso aos 28 anos, Jacques voltaria à liberdade apenas quando contasse com 63 anos de idade!

Mas, em 1956 e na sequência do XX Congresso do PCUS, com 48 anos de idade, Jacques é libertado e é-lhe passado um certificado onde consta a sua reabilitação e isento de ter cometido qualquer crime ou falta para com a União Soviética. Para trás, ficavam 20 anos de reclusão por uma falsa acusação. E pela frente? A liberdade? Mais devagar, apesar do XX Congresso¿ Onde viver? No estrangeiro, nem pensar. Negativo. Nas principais cidades soviéticas, isso é que era bom. Negativo. Acabou por lhe ser fixada residência em Samarkand no extremo oriental da União Soviética!

Jacques não desiste de ir para o estrangeiro. Goradas todas as tentativas para lhe ser autorizado o regresso à sua Pátria (França), Jacques explora a hipótese de obter visto para voltar à Polónia de que fugira das prisões de Pilsudski com 18 anos de idade, agora uma democracia popular sob controlo soviético.

Em 1961, com 52 anos de idade, Jacques consegue sair da União Soviética e ir para a Polónia (onde foi reintegrado no Partido Comunista e nomeado membro do seu Comité Central) . Aí vive até 1985, ano em que se fixa em França e readquire a nacionalidade francesa. Até 2002, ano em que perfez a idade de 93 anos e a saúde lhe permitiu, Jacques dedicou-se a escrever as suas memórias e vários depoimentos e relatos, além de correr o mundo a dar conferências a relatar a sua experiência gulagiana.

Nas suas memórias e crónicas, Jacques faz relatos vivos e impressivos sobre a tragédia que representou a monstruosidade do Gulag e que destruiu a vida de milhões de seres humanos. E, no Gulag, pereceram (uns fisicamente, outros ficaram para sempre afectados pelo sofrimento psíquico devido a longos e duros anos de cativeiro) homens e mulheres pela simples razão de pertencerem à classe errada (a classe social que o sistema bolchevique queria destruir), a nacionalidades e etnias suspeitas de infidelidade ao sistema soviética. Ou, então, serem fiéis militantes comunistas apanhados na contabilidade das quotas dos inimigos internos a abater (na sua maior parte, bolcheviques da primeira hora e companheiros de Lenine), bem como os que tinham a má sina de serem casadas com ¿inimigos do povo¿ ou seus filhos, aqueles que tinham dificuldades na integração na disciplina e estrutura de funcionamento totalitário do sistema até aos muitos milhares de vítimas naives que eram encarceradas por razões pueris ou derivadas da estupidez burocrática de polícias todos poderosos e que tentava fazer do aumento do número de prisioneiros a demonstração da sua fé comunista e evitar que lhes calhasse a vez de serem fuzilados ou penarem no Gulag. Jacques, através dos seus relatos, dá-nos conta da monstruosidade do seu sofrimento mas traz também para a boca de cena outros (muitos) prisioneiros que foi encontrando e as suas histórias cruéis.

Para quem pertence a uma geração politizada no escalpe do horror do Holocausto e da máquina nazi de destruição e em que o Nazi-Fascismo incarnou o Mal Absoluto (papel agora transferido para a Globalização e para a América Imperial) e que gerou o paradigma do Antifascismo (e do Anti-imperialismo), segundo o qual denunciar os soviéticos (ou, hoje, denunciar a ditadura castrista) seria (é) uma forma de fazer o jogo dos fascistas, dos imperialistas e dos capitalistas, é preciso estômago e coragem para olhar o Gulag de frente devido à muita vergonha acumulada pelos silêncios em que se virou o olhar e se calou a repugnância e a denúncia.

(Transcrito, com autorização do autor, de Botaacima)

Manuel Villaverde Cabral – SOBRE O II VOLUME DA BIOGRAFIA DE CUNHAL

Graças à notoriedade do autor e do biografado, o primeiro volume da biografia de Álvaro Cunhal publicado por José Pacheco Pereira (JPP) foi êxito editorial (Álvaro Cunhal: uma biografia política. “Daniel”, o jovem revolucionário (1913-1941), Temas e Debates, Lisboa, 1999). Mas a verdade é que talvez não lhe tenha sido feita toda a justiça, nomeadamente nos meios académicos. Para além das distracções habituais, há algumas razões para isso. O livro é extenso e convoca uma época e um conjunto de personagens que a maior parte dos Portugueses não conhece e muitos não querem conhecer. O período coberto pelo volume – basicamente, os anos 30 do século passado – corresponde a uma época verdadeiramente negra da nossa história e nem os próprios protagonistas do livro – Álvaro Cunhal e os seus camaradas do PCP – parecem demasiado interessados em recordá-la.

E todavia, ele merece a todos os títulos a atenção dos historiadores, para não falar de quem se interessa pela vida política e cultural do país. Trata-se, com efeito, de um grande livro. Era sabido que o autor há muito se vinha dedicando à pesquisa sobre a história do PCP e do movimento internacional em que o partido cedo se integrou. Mas podia recear-se que as múltiplas actividades públicas de JPP o tivessem desviado daquele trabalho. Não foi o caso. Depois da importante mas efémera revista Estudos sobre o Comunismo, o primeiro volume da biografia de Álvaro Cunhal confirmou o melhor que se podia esperar das anteriores pesquisas do autor.

Com a extensão e a minúcia de uma investigação universitária, o livro tem contudo o fôlego e o ritmo de um romance. E lê-se como tal. Abdicando de um elaborado enquadramento histórico e sociológico lhe teria dado, porventura, mais consistência, a opção de JPP pela narrativa biográfica de Álvaro Cunhal e dos seus camaradas permitiu-lhe, em contrapartida, reconstituir “outro Portugal” – esse Portugal virtualmente ignorado que resistiu com tenacidade e heroísmo à violência da instauração do fascismo, à propaganda triunfalista do novo regime e à sua brutal repressão, à prisão, à tortura, à deportação e ao assassinato. Neste sentido, o livro chegava a ter algo de patriótico, no melhor sentido da palavra, ao contribuir para restaurar alguma auto-estima perdida pelos Portugueses durante décadas de submissão à ditadura.

E conseguia outra coisa notável. Sem deixar de denunciar frontalmente aquilo que lhe parece criticável nas actividades do PCP, da Internacional Comunista e do próprio Cunhal, JPP mantém ao longo do livro uma exemplar corrente de empatia crítica com os seus personagens. É de prever que Álvaro Cunhal nunca se pronuncie publicamente sobre esta biografia, mas lá no íntimo ficou com certeza lisonjeado com o lugar que JPP lhe reconhece na história da sua geração e, afinal, do próprio país. E terá de admitir também o rigor com que o biógrafo se absteve de qualquer incursão desnecessária na vida privada do biografado.

Em contrapartida, apesar da finura e minúcia com que o autor tentou reconstituir o ambiente familiar e a sua influência na formação do jovem Cunhal, tenho algumas dúvidas quanto às motivações de índole psicanalítica que JPP por vezes lhe atribui. Em compensação, parece-me excelente e verosímil o perfil psicológico que ele traça do biografado: um jovem invulgarmente dotado, cuja fibra e mesmo dureza o seleccionaram, ao cabo de poucos anos de militância incondicional, para o tremendo lugar de líder de um pequeno partido clandestino e isolado não só na sociedade portuguesa da época como na própria organização internacional em que o PCP sempre pretendeu integrar-se.

JPP não deixa dúvidas quanto às excepcionais qualidades pessoais e intelectuais que projectaram Álvaro Cunhal para o lugar – complexo e mesmo ambíguo, mas absolutamente indiscutível – que acabou por ser o seu na história de Portugal no século XX. Não é nada que não se reconhecesse já ao líder comunista, mas é outra coisa vê-lo aqui documentado de forma historicamente rigorosa e, ao mesmo tempo, com lucidez e imparcialidade.

Finalmente, se houver lacunas e mesmo erros no trabalho de JPP, a responsabilidade não é dele mas sim dos vários totalitarismos – fascista e comunista – que impediram e continuam a impedir que este período sombrio da nossa história seja melhor conhecido. JPP marca pontos ao denunciar o “secretismo” que o PCP continua a manter acerca da sua história e tem certamente razão quando atribui a Álvaro Cunhal um pendor particular para o segredo, não só acerca do partido como da sua própria vida pessoal. Não será por acaso que nem o PCP nem Cunhal se queixaram, que eu saiba, das eventuais inexactidões do livro: é que não lhes convém entrar num debate verdadeiramente esclarecer sobre o assunto. E é pena.

Nesse primeiro volume, JPP descrevia o caminho percorrido por Álvaro Cunhal até se entregar definitivamente, no início desse longínquo e terrível ano de 1941, à luta clandestina contra a ditadura e conquistar o prestígio que o levaria, mais tarde, ao topo da hierarquia do PCP. Nada disso se passou, contudo, sem lutas intensas dentro e fora do partido. Já não é este o momento para os comentar. Bastará lembrar como o partido, com a Guerra de Espanha e a intensificação daquilo a que Nolte chamou, apropriadamente, a “guerra civil europeia”, se tinha afundado na maior desorientação quando Cunhal foi preso pela primeira vez, e só dela sairia, já irradiado pelo Comintern, no início dos anos 40 com a viragem na Guerra Mundial.

Entretanto, a partir de 1939, Cunhal tinha tido oportunidade de pôr todas as suas capacidades intelectuais ao serviço do PCP, desempenhando um papel decisivo no movimento frentista da nova geração de intelectuais anti-fascistas, que permitiu ao PCP exercer sobre a intelectualidade portuguesa uma influência que nunca tinha tido e lhe assegurará, durante décadas, uma inesperada hegemonia ideológica sobre a vida cultural do país.

JPP lança, pois, no 1.º volume da biografia de Álvaro Cunhal uma luz nova sobre essa década de Trinta em que o fascismo se implantou em Portugal. Este será, sem dúvida, o contributo mais duradouro desse livro de rara visão histórica. No ambiente triunfal do fascismo, o PCP e o seu punhado de militantes, embora acossados e minoritários, surgem pois, com a sua indomável resistência, como um último reduto de liberdade. Em suma, Pacheco Pereira captou como ninguém a importância real do PCP e a aura de legitimidade de que usufruiu durante décadas, sem as quais a nossa história recente não se entenderia.

Embora não o tivesse dito na altura, confesso no entanto que cheguei a pensar que não seria fácil ao autor manter, por assim dizer, as expectativas criadas pelo 1.º volume. Não tanto por dificuldades dele, mas pelo próprio conteúdo da pesquisa – o 1.º vol. lidava com os anos 30, recuperando a aura trágica e heróica que aqueles anos, associados ao próprio ardor juvenil do biografado, que me parecia difícil de manter nos períodos subsequentes, de algum modo mais complexos mas, porventura, menos auráticos.

Pois bem, nada disso aconteceu. Pelo contrário. JPP mantém neste segundo volume a sua aposta apoiada no mesmo estilo narrativo directo, entremeando com naturalidade e eficácia a acção do biografado e dos seus camaradas do PCP com um discreto comentário analítico, que não sobrecarrega a narração nem condiciona a liberdade interpretativa dos leitores, mas permite ao autor fornecer a sua própria interpretação dos dilemas e opções com que Cunhal e o partido se defrontaram ao longo da década seguinte – os anos 40!

Em compensação, o autor perdoar-me-á que não o esconda, se o 1.º volume, apesar de se ler como um romance, já me tinha parecido extenso, bem, o 2.º volume mais espesso é ainda. Trata-se pois de um livro grande. Mas não deixa de ser, como o primeiro, sem o qual não pode aliás ser lido, um grande livro. É verdade que continua a ler-se com a avidez romanesca de quem quer saber depressa o que se passou a seguir mas, devido à própria abundância crescente de documentação e informação, tanto nacional como estrangeira, torna-se às vezes difícil não saltar uma páginas para satisfazer a curiosidade, sobretudo que a maioria dos leitores, incluindo um habitué da história do PCP como eu, desconhece de facto inúmeros episódios relevantes da vida interna e externa do partido!

Em suma, o livro é comprido, leva bastante tempo a ler, mas o autor acaba sempre por nos convencer, a posteriori, que todos aqueles pormenores – por vezes um bocadinho fastidiosos, como são sobretudo os debates ideológicos e organizativos da época – são importantes e, sem eles, não seria fácil entender factos supostamente conhecidos. Enfim, acresce que JPP tinha na mão uma quantidade impressionante de informação histórica que não terá resistido à legítima tentação de pôr, pela primeira vez, ao alcance do público. Este contributo é absolutamente precioso e, por isso, lhe serão perdoadas algumas horas de leitura que, hoje em dia, temos dificuldade em conceder à maioria dos livros.

A estratégia narrativa não muda e só posso render-me ao folêgo que o JPP revela ao manter o mesmo ritmo e o mesmo tom do princípio até ao fim e, agora, já não duvido que assim será nos próximos volumes da biografia. Quando parece afastar-se um pouco do fio narrativo, é para recriar a dimensão pessoal, subjectiva, da biografia. Com efeito, por mais numerosos e extensos que sejam, e são, os desenvolvimentos sobre os seus companheiros, sobre a actividade do partido, sobre as lutas sociais e políticas, e sobre os aliados e adversários do PCP, estamos ainda e sempre perante a biografia de uma pessoa, Álvaro Cunhal, com a sua idiossincrasia.

O longo preâmbulo acerca das relações – simultaneamente, estéticas, políticas e pessoais – entre Cunhal e Abel Salazar, na aparência desligado dos capítulos seguintes, serve precisamente esse propósito biográfico de compor, por assim dizer, a personalidade de Cunhal tal como JPP a vê. Em suma, um homem inteligente, culto e corajoso, mas inteiriço e a seu modo “religioso”, para quem “o compromisso é mais importante do que a causa que serve” (p. 16). Já manifestei alguma perplexidade perante a interpretação que JPP faz da personalidade do seu biografado, mas tenho de reconhecer que ele é capaz de reconduzir muitos dos comportamentos e decisões de Cunhal a essa matriz pessoal, ao mesmo tempo que também não faz dela uma mera explicação psicológica passe-partout…

Finalmente, quando retoma de vez na narrativa, um pouco antes onde a deixara no volume anterior, quando Cunhal decidiu passar definitivamente à clandestinidade com 28 anos incompletos, JPP vai dar-nos o primeiro estudo original e consistente da famosa “reorganização do PCP”, da qual todos ouvimos falar e de cuja importância muitos tínhamos consciência, mas acerca da qual pouco sabíamos ao certo, contentando-nos geralmente com um resumo demasiado esquemático da versão oficial dos vencedores.

Aqui, JPP faz absolutamente questão em demonstrar – e até prova em contrário, que nem a abertura dos arquivos do PCP poderia, porventura, fornecer, mas o ónus dessa prova fica com o partido – que a reorganização se iniciou sem Cunhal, que aliás não tinha então estatuto nem talvez idade para tal. A verdade, porém, é que JPP mostra também que, mercê das contingências da clandestinidade, da repressão e da própria conjuntura de guerra (estamos em 1940-42), a adesão um pouco tardia de Cunhal ao grupo dos proclamados reorganizadores não só lhe permitiu rapidamente conquistar um lugar insubstituível no núcleo dirigente do PC, de início inter pares e em breve primus, como trouxe, como agora se diz, uma mais-valia indiscutível à reorganização.

Em suma, através de todas essas contingências, mais as intrincadas ramificações internacionais, o novo secretariado, cuja composição humana e social JPP descreve e analisa virtualmente pela primeira vez, conseguiu sem qq ajuda da URSS, antes pelo contrário, não só inflectir e consolidar a orientação do partido como, na realidade, construir – contra todas as probabilidades – um novo partido comunista. O papel de Cunhal é decisivo e, para bem ou para mal, nunca mais deixará de o ser. Poderíamos, se fosse caso disso, ficar já por aqui a discutir a reorganização e o novo PCP que dela sai, pois estas 200 e tal páginas (max 212 passim) constituem, por si sós, um livro que fazia falta para compreender muito da história social e política portuguesa desde os anos 40 até, pelo menos, ao 25 de Abril: basta pensar que data dessa altura o início da publicação clandestina ininterrupta do ‘Avante’! Por mim, teria um sem número de perguntas a fazer ao JPP sobre todo este processo (questão das libertações do Tarrafal e dos alegados apoios dos aliados, max GB, aos reorganizadores, max Avante: de onde vinha o ‘papel bíblia’?).

Adiante, porém. Na 2.ª parte deste volume enciclopédico, o autor volta a oferecer-nos outra première: ou seja, outro estudo virtualmente inédito nos seus pormenores sobre as grandes greves operárias do início dos anos 40 (1942-46) que permitiram ao novo PCP testar não só o seu apelo ideológico mas, sobretudo, a sua capacidade organizativa para enquadrar e se enraizar, para as próximas décadas, junto dos sectores mais combativos da classe operária portuguesa, nomeadamente em Lisboa e na Margem Sul. As greves dos anos 40 já tinham sido parcialmente estudadas (por Fátima Patriarca na sua Questão social no Salazarismo), mas tipicamente de forma corporativa, (vol. 2, p. 628), sem a visão política e partidária que lhes dá todo o seu sentido – quase mítico – não só para o PCP como para a oposição anti-fascista em geral. Com efeito, destas greves – como aliás de qualquer movimento que, obrigatoriamente, põe em causa a “ordem pública” – o que fica, politicamente, não é tanto o êxito das reivindicações pontuais nem as reacções do aparelho do estado corporativo, mas os ganhos organizativos e a memória da luta enquanto tal.

Tanto assim que é a partir deste momento que a oposição não-comunista entrega, por assim dizer, a hegemonia política da classe operária ao PCP, numa espécie de divisão do trabalho que se manterá praticamente inalterável até ao 25 de Abril. Pelo seu lado, o partido – já então sob a condução estratégica de Álvaro Cunhal – não deixou de tirar partido das greves para consolidar os seus ganhos organizativos e a sua influência ideológica no congresso de 1943 – o primeiro realizado na clandestinidade. O balanço que JPP faz deste congresso

Um partido nacional – na realidade, o único movimento de oposição minimamente organizado; uma máquina organizativa clandestina sem paralelo na época nem depois (os funcionários; a imprensa, etc.); e tudo isto sem qq apoio do movimento comunista, do qual continua isolado, e angariando todos os seus recursos internamente; uma aliança entre operários e intelectuais, que se reflecte na composição dos quadros dirigentes (importância do movimento neo-realista como ‘fonte de recrutamento e apoio logístico e financeiro)…

A questão da unidade anti-fascista e do “reviralhismo”; o fim da guerra e as imensas esperanças criadas; o congresso de 1946 e o “apogeu do PCP” (discutir!); teses e fracções partidárias em presença, divididas quanto à “política de transição”; a entrada na ‘guerra fria’ e o desvanecimento das esperanças; a adaptação às novas condições (os movimentos unitários e o conflito crescente com os sectores não-comunistas, até á campanha Norton de Matos); a exposição do aparelho clandestino às movimentações de massas e, consequente/, às polícias; a prisão de Cunhal e Militão Ribeiro.

A forma – sempre entre trágica e épica – com que JPP termina a sua longa narrativa, cheia como um ovo, com a prisão do seu herói, – “Naquela casa do Luso (dia 25 de Março de 1949), no meio do nervosismo geral, da alegria alarve dos agentes da PIDE e do estado de choque dos presos (Cunhal; Militão, que iria sucumbir na cadeia aos 53 anos, menos de um ano mais tarde; e Sofia Ferreira), acabava uma era da história da luta da oposição portuguesa e do PCP” (p872), a forma como este novo volume encerra, dizia eu, deixa-nos literalmente suspensos dos próximos volumes. De uma forma oblíqua, observando a realidade portuguesa do ponto de vista singular, minoritário e mesmo inesperado do PCP, JPP continua a dar-nos, na minha opinião, a representação mais dinâmica e, a seu modo, mais exacta da nossa sociedade ao longo dos anos da ditadura: uma espécie de contra-história que se revela, politicamente, tão autêntica, senão mais, do que a história do regime.

Paula Godinho, Memórias da Resistência Rural no Sul – Couço (1958-1962), Oeiras, Celta. 2001

Beldroegas, saramagos e cagarrinhas eram as três vias para um caldo em tempos de guerra à fome. E se, hoje e aqui, as ervas nos abrem o apetite e nos imaginam um rural “exótico”, ontem e lá – no Couço – eram apenas o que havia para a colecta de combate ao quotidiano das fomes. Se hoje e aqui são cultura porque são frutos de “contemplação”, ontem e no Couço são cultura porque objectos de “experiência”. Os próprios anos 40, se aqui e agora são o tempo da II Guerra Mundial, lá e então são o tempo das Grandes Fomes, do ir buscar pão onde ele houver.
A dissertação de doutoramento de Paula Godinho, publicada pela Celta numa letra injustificável para qualquer economia oftalmológica do leitor, tem como objecto de estudo a resistência rural no Couço. As memórias dos habitantes do Couço desenvolvidas a partir da recordação de um tempo de aceleração histórica (1958-62), recolhidas em 14 meses de trabalho de campo, são a fonte principal da tese. A história oral constitui-se assim como a arma dos fracos, permitindo ao cientista social dispor de visões do passado que a história escrita tende a subalternizar.

A metodologia de Godinho permite-lhe fragilizar algumas dicotomias clássicas (antropologia vs. história; história oral vs. história escrita). O trabalho de campo possibilita, pela participação no dia-a-dia, a penetração numa cultura que a resistência e a clandestinidade construíram como “reservada”, favorecendo a imaginação das redes sociais de outrora – das redes de vizinhança, das redes de trabalho, das redes familiares, das redes do lazer e das redes comerciais. O Couço, mitificado como a “aldeia vermelha”, é visto a partir de dentro, concluindo a autora que a militância partidária é política, mas é também social e cultural. A rede do “Partido” (do Partido Comunista Português) vive entretecida com a rede familiar (os casais que juntos passaram à clandestinidade), a rede de vizinhança (as visitas num regresso da prisão) e a rede do trabalho (as lutas pelo direito à fumaça e pelos salários). Ou seja, os comunistas coucenses não habitam e não viveram fora de um tempo e de um espaço. Trata-se aqui, pois, de rejeitar a visão das ideologias como estranhas às práticas sociais, com tudo o que isso implica ao nível da análise dos movimentos sociais: a dicotomia movimento organizado / movimento espontâneo torna-se redutora (a violência no protesto nos anos 40 é espontânea irracionalidade ou organizada estratégia?) e a dicotomia reacção/revolução equívoca (no sentido em que por reacção se pressuponha imediatismo e por revolução se pressuponha conspiração). A autora sugere linhas de análise das formas de protesto que alargam o âmbito usual do conceito de resistência. Esta não é apenas a heróica luta na prisão, o clássico abaixo-assinado ou a épica greve; é também o boicote económico à introdução de maquinaria nos anos 60. O ritmo lento do trabalho não é a “preguiça” anedotizada para além do Tejo, mas a inércia activa de quem não trabalha mais e melhor porque se sente explorado. A procura de um registo escondido nas práticas sociais, um registo escondido de resistência, de valorização de certas práticas, tempos e disciplinas próprias e, portanto, a percepção de uma cultura de resistência que é não só uma resistência política mas acima de tudo uma resistência cultural, norteia toda a investigação.

Esta complexificação das dicotomias referidas inserir-se-á, em certa medida, numa renovação no estudo dos movimentos sociais que se inicia a partir da década de 60, com a emergência de revoltas não enquadradas, tanto nas instituições existentes no campo da produção e no da reprodução, no campo do sistema e no campo da alternativa, como nos próprios quadros teóricos das ciências sociais. Procurou-se a partir de então desviar o estudo das lutas de classes de uma direcção única, a direcção estatocêntrica.

Os movimentos sociais rurais, naquele processo de renovação dos quadros de estudo dos movimentos sociais, foram, se assim se poderá dizer, dos mais “beneficiados”. A visão marxiana dos camponeses como batatas no saco foi sendo desafiada ao mesmo tempo que se começava a afirmar o estudo de outros tempos sociais para lá do tempo histórico. No caso do Couço, Paula Godinho não hesita em rejeitar a utilidade do conceito de comunidade no sentido corporativo do termo (uma aldeia “pacífica” de proprietários e trabalhadores). Ela afirma que esse conceito é claramente destruído por uma lógica de nós vs. eles. A linha que traça o versus, por sua vez, assenta na questão da terra – quem a tem e quem a não tem – e na questão do trabalho (quem a não tem e portanto trabalha). Mas, refere Paula Godinho, no Couço não se deve propriamente falar de camponeses, mas sim de assalariados rurais cujo tempo não é tão marcado pela rotina anual da colheita (o facto de não decidirem sobre o processo de produção e a precariedade do emprego a tal conduz) e cujos lugares sócio-económicos não são tão diversos quanto os de um mundo rural de camponeses. Tais diferenças implicar-se-ão na construção de uma cultura de classe de forma decisiva. Assim, se é certo que há uma consciência da repartição injusta da terra como o “mal fundador”, a reivindicação da sua posse não é central. A reivindicação central acaba por ser quase sempre a de mais salário e/ou de regulação de direitos de trabalho, reivindicação que afirma uma ética do trabalho muito característica do mundo operário e que, de certa forma, secundariza a especificidade da relação com a terra (vai também neste sentido a evocação pelo PCP dos trabalhadores dos campos como operários agrícolas).

Mas seria errado limitar a linha entre o nós e o eles a uma questão de lugar económico-social. Godinho mostra-nos a heterogeneidade dos lugares sociais no Couço: vendedores ambulantes, artífices e comerciantes persistem e surgem. Por outro lado, há distância entre o proprietário odiado e aquele outro considerado democrata devido a posições mais afastadas do regime e/ou à prática de melhores salários. Assim, é uma cultura de resistência que se edifica sobre aqueles lugares económicos, mas uma cultura que se edifica já com uma autonomia assinalável demarcando os campos.
O mapa da sociabilidade da aldeia, mapa esse que nos permite perceber esse travar do conflito, é traçado. A Igreja, a escola e a Casa do Povo (lugares emblemáticos da hegemonia estatal); o cinema, os bailes de domingo onde o trabalho coloniza o lazer («Nos bailes do Couço, quando as raparigas envergavam as suas melhores roupas, devia ser sempre por elas fornecido um lenço ao dançador que as acompanhasse, para ser interposto nas suas mãos, impedindo que o suor que delas brotasse manchasse com a tinta do sobreiro as blusas claras dos dias de festa», pp.105), os piqueniques e as pescarias onde a política coloniza o lazer, os postos do comércio (a barbaria, o mercado, a taberna, etc.). A autora mostra-nos a promiscuidade entre os campos do lazer, do trabalho e da política e identifica uma cultura de resistência que contamina e se contamina em todos eles.

Na parte final do livro analisam-se ainda os universos da vida clandestina, da prisão e da tortura, onde se conclui da criação de uma identidade local em contexto de prisão (os pinhões torrados do Couço distribuídos pelos presos, as inscrições da palavra Couço nos pratos da prisão) e onde se conclui da prisão como cruzamento de lugares sociais (onde uma trabalhadora do Couço encontra uma estudante de Lisboa).

Notas finais: algumas linhas de análise ficaram por explorar. No que se refere ao mapeamento das sociabilidades do Couço seria interessante perceber algumas dinâmicas que, não pondo em causa o antagonismo nós/eles, serviriam para aferir de consensos que por aí perpassem. Isto é, a quase imunidade entre os campos em conflito sugerida pela autora mereceria ser mais testada, aferindo-se da “convivência” entre, por um lado, possíveis consensos que perpassem os universos culturais, e, por outro lado, a evidência do conflito e de um antagonismo central. Concretizando: a autora refere que no cinema do Couço existia um balcão e uma plateia; de um lado ficavam os trabalhadores e do outro os proprietários (isto é, os campos não se “misturam”); ora, seria também interessante perceber quais os filmes e espectáculos que ambos – nós e eles – assistiram nesse mesmo cinema. De igual modo, parece sugerir-se que a construção do género no seio do nós resultava de um conflito entre uma ideologia igualitária (do partido) e uma cultura “tradicional” discriminatória; mas não se chega a questionar até que ponto, em parte, o partido não se constitui como um agente ambíguo, ou seja, um agente quer da exclamação da igualdade, quer da “organização” da discriminação (pp.6 e 233). Talvez uma consideração maior destas perspectivas favorecesse a compreensão, por exemplo, dos motivos porque nós e eles igualmente comemoraram – ainda que diferentemente – o 1º de Dezembro.

José Neves / Bolseiro da Fundação para a Ciência e a Tecnologia / Centro de Estudos de Antropologia Social