Orlando Fernandes – TESTEMUNHO DOS ACONTECIMENTOS DE 12 DE JULHO DE 1973 NA TAP

Como a revisão do Acordo Colectivo de Trabalho Tap/Sindicatos se arrastava sem fim à vista e sem resultados visíveis, os sindicatos maioritários (Metalúrgicos e Administrativos da Aeronavegação e Pescas) convocaram um Plenário Geral de Trabalhadores, para a sede da Voz do Operário para 11 de Julho às 18 horas. Quando chegámos ao Largo da Graça já havia aglomeração porque a polícia tinha cortado o trânsito pedestre em volta da Voz do Operário. Como me deslocava numa pequena vespa 50, fui incumbido de ir ver o que se passava do outro lado. A polícia em frente à sede, identificava moradores e todos os peões. De regresso ao Largo da Graça, em presença da situação, foi decidido fazer de imediato, uma manifestação na aerogare. Dado que os trabalhadores se deslocavam em transportes diversos, a manifestação ia engrossando na aerogare. Quando atingia perto da centena, foi corrida à bastonada, houve vidros partidos e a consequente dispersão.

Ficou lançado o rastilho, que no dia seguinte passou de boca em boca, até à hora do almoço, findo o qual se faria uma concentração em frente ao edifício da administração. É claro que os primeiros a almoçar foram os operários da ganga azul e como tal foram os primeiros a tomar lugar na concentração, que não teve grande enchente, porque passados 20 minutos a meia hora, já tinha a companhia dum pelotão da polícia de choque, como demonstram as fotografias.

Eles não atacaram de imediato, formaram em diversas posições para medir forças, tanto que se vêem trabalhadores descontraídos em volta pensando que não era nada com eles, (mas levaram bastonadas). Quando dum megafone suou a ordem de 3 minutos para dispersarmos, caiu-lhes em cima uma chuva de pedras e inclusivamente uma máquina de escrever vinda do edifício 25. Dispararam vários tiros, mesmo dentro da oficina de motores, onde um colega ficou bastante mal tratado.

Muitos de nós tínhamos vindo da guerra colonial e não nos amedrontávamos facilmente, por isso reorganizámo-nos em pequenos grupos e provocávamos-los, chamando-os nomeadamente para o hangar 4, onde tínhamos um carro de pressão de skydrol (líquido altamente corrosivo) para lhes dar banho, mas os esbirros deviam estar avisados. Convém esclarecer que a polícia envolvida, não era somente os que se vêem na fotografia, havia polícia de mota que fazia incursões contra resistentes e disparavam tiros, que deixaram marcas por cima da porta do grupo desportivo, por onde os trabalhadores se escapavam.

Com a entrada do turno das 4 da tarde, a luta física acabou, mas a presença da polícia manteve-se mais dois dias, discretamente, atrás duns armazéns.

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