(No fim do texto reprodução do programa integral.)

“Os franceses foram os últimos a perceber que o Maio dos outros era mais poderoso que o seu. Subterraneamente, o francês estava a declinar como língua franca de tudo, mesmo da revolução. O grafismo vinha de Londres e de Haight-Ashbury, a música de Londres e de Woodstock, a moda de Londres e de São Francisco, os Beatles varriam o mundo e escreviam uma canção chamada Lucy In The Sky With Diamonds:

Imagina-te num barco num rio

Com árvores de tangerina e um céu feito de marmelada

Alguém te chama e tu respondes muito devagar

A rapariga com olhos de caleidoscópio.”

(José Pacheco Pereira, 2008 )

A asserção de Pacheco Pereira não poderia ser mais certeira. Sendo certo que Portugal vivia então sob forte colonialismo cultural gaulês – os nossos exilados escolhiam Paris como local de refúgio, como fizeram Sérgio Godinho, José Mário Branco, Luís Cília e outros – entre muros as energias já pretendiam sacudir a hegemonia francesa.

Há 40 anos, um punhado de jovens estudantes de Direito abraçou a estética da nova contra-cultura pop anglo-saxónica, desapertou as amarras e afoitamente organizou o ciclo de conferências “Popologia – Mitologias Do Mundo Contemporâneo”, num claro desafio aos poderes instituídos e às próprias convicções juvenis muitas delas congeminadas pelo PCP.

”Imprensa de grande circulação, Rádio, Televisão, Cinema, publicidade, música e romances populares. Através de todos estes meios massivos de informação e de sonho, cujo desenvolvimento espantoso caracteriza o mundo moderno, o homem da civilização técnica está elaborando uma nova cultura. Qual o seu conteúdo? A sua linguagem? A sua função, os seus valores e o seu alcance? Como é que ela se define em relação à sabedoria tradicional e às outras culturas?”.

Grupos de trabalho foram escalados para “analisar actividades artísticas, produto característico de certo tipo de sociedade capitalista altamente industrializada”.

O simples alinhamento destas questões já deixava antever que a Secção Cultural da Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, coordenada pelo esteta Manuel Castilho – autor do surpreendente cartaz pop, premonitório, – liderava a contestação pela esquerda, recusando as premissas dominantes na “cultura associativa”.

Além da exibição de filmes dos Beatles (“A Hard Day’s Night”), de Joseph Losey (“Modesty Blaise”) ou de Nick Nostro (“Superargo Contro Diabolick”), no Cinema Europa, o ciclo “Popologia” incluiu debates sobre Música, Artes Plásticas e Cinema, concluindo-se com um debate público, amplo e livre, moderado por Pedro Vieira de Almeida e José Ferreira de Almeida.

Por proibição das autoridades universitárias, o ciclo realizou-se não na Faculdade de Direito, como seria suposto, mas na Sociedade Nacional de Belas-Artes, em Lisboa, entre os dias 19 e 29 de Março de 1968, coincidentemente com os primeiros incidentes em Nanterre que deram origem ao Maio de 68.

Amordaçada pela Censura, a Comunicação Social não relevou o assunto, com excepção de um apontamento de Júlio Moreira no “Diário de Lisboa”, de 04 de Abril, e de uma reportagem de João Paulo Guerra na revista “Antena”, de 15 de Abril.

No que à Música diz respeito, participaram activamente nas discussões João Manuel Alexandre, ex-dirigente associativo de Direito e um dos principais responsáveis pelo qualificado programa radiofónico “Em Órbita”, e um jovem Ruben de Carvalho, além dos especialistas de jazz Manuel Jorge Veloso e José Duarte.

”O facto de nós limitarmos as nossa palavras à música popular anglo-americana tem uma razão de ser. Nós entendemos que só nos Estados Unidos e na Inglaterra existem as condições que dão à moderna música pop as suas facetas mais válidas e mais importantes”, opinaram os quatro em uníssono.

Nada foi deixado ao acaso na organização exemplar da iniciativa, toda ela, igualmente impregnada pelo espírito pop.

Textos em papel A4, a cores, o que era uma novidade foram distribuídos para discussão pela assistência, bem como as letras das canções em análise: “Semi-Detached Suburban Mr. James” (Manfred Mann), “Dedicated Follower Of Fashion” e “Dead End Street” (Kinks), “Eleanor Rigby”, “She’s Leaving Home”, “Paperback Writer”, “A Day In The Life” e “Dr. Robert” (Beatles), “I’m Gonna get Me A Gun” e “Matthew And Son” (Cat Stevens), “Somebody To Love” (Jefferson Airplane), “At The Zoo” (Simon and Garfunkel), “With God On Our Side” e “The Times They Are A-Changin’” (Bob Dylan), única e exclusivamente canções anglo-saxónicas.

Em Portugal, lutando contra o nacional-cançonetismo, a música pop portuguesa dava os primeiros passos com “A Lenda De El Rei D. Sebastião”, uma “tentativa honesta e inédita de lançamento das bases de uma música popular portuguesa” (“Em Órbita”, 1967).

LUÍS PINHEIRO DE ALMEIDA no Notícias Magazine

Sobre Popologia ver

ORIGENS DE UMA CONTRA CULTURA – O CICLO “POPOLOGIA” REALIZAÇÃO “AUTÓNOMA” DE COLABORADORES DA SECÇÃO CULTURAL DA AAFDL (1968 )

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