«Foram dois indivíduos extremamente importantes para a minha formação mental, o Zé [Dias] Coelho e o João Abel [Manta]; dois líderes naturais (…) um pela consciência política, o outro pela grande cultura»

Rolando Sá Nogueira

Falar de João Abel Manta é recordar uma geração que, no período após a Segunda Guerra, forjou um combate militante ao «Estado Novo» e aprendeu a resistência dos actos, das palavras e do silêncio. Num tempo em que a cultura subvertia e incomodava.

Fixemo-nos em 1945, ano em que finda a Segunda Guerra Mundial e surge o movimento oposicionista MUD – Movimento de Unidade Democrática, o ano lectivo (45-46) em que o futuro arquitecto ingressa na escola de Belas-Artes de Lisboa, no velho casarão de São Francisco onde o jovem de 17 anos vai encontrar um ensino obsoleto e um ambiente asfixiante, que desprezará, mas onde inicia também um ciclo de encontros, partilhas, lutas e emoções que irão consolidar o homem e o cidadão João Abel Manta.

Um curriculum idêntico ao primeiro ano de pintura, escultura e arquitectura aproxima-o de colegas com cadeiras em atraso[i], como Jorge Vieira, F. Castro Rodrigues, Duarte Castel-Branco, Rolando Sá Nogueira ou José Dias Coelho, criando um grupo de amigos que daria origem a “uma verdadeira tertúlia (…) onde cada indivíduo contribuía com a sua curiosidade e com o seu saber para o conhecimento do grupo inteiro”.[ii]

João Abel já então detinha, pelo berço e pelo convívio[iii], uma enorme cultura nas áreas das artes plásticas, música, cinema e literatura, pelo que a sua preponderância no grupo surge naturalmente. Como nos transmitiu Sá Nogueira, um dos seus grandes amigos: “eu costumo dizer que li o Eça de Queirós por causa do João Abel Manta (…) Em miúdo não lia, mas com os meus amigos, nas nossas tertúlias, li o Eça e muitos outros autores porque eu próprio concluí ser necessário, e passei a ter prazer na leitura (…) O mesmo com a música.” Outra particularidade o distingue: as viagens anuais a Paris e outras cidades europeias, de onde regressa com livros e revistas que os colegas devoram. Será, pois, nestas tertúlias que se vão fomentando gostos e criando hábitos culturais e de convívio, que suprirão, em parte, as lacunas familiares e escolares de alguns deles.

Assim, enquanto João Abel prevalecia pela cultura, José Dias Coelho impunha-se pela política e teve, nas palavras de Sá Nogueira, “uma importância muito grande na formação do grupo, porque estava sempre a espicaçar”, assumindo a “função de alertar os outros” e levá-los a agir enquanto cidadãos.

O MUD Juvenil surge em 46 e a sua organização logo se estende a Belas-Artes[iv], tendo início as tentativas de revitalização da sua associação académica e a participação na primeira Festa da Queima das Fitas de Lisboa, realizada nesse ano.

O ano de 1947 será paradigmático da resistência a Salazar e, para a História, ficam a repressão da Semana da Juventude (Março) e o assalto pelas polícias à Faculdade de Medicina[v] (Abril), onde os estudantes se reuniam, solidários com os colegas e amigos do MUD Juvenil presos. É neste contexto que João Abel concebe o desenho “Natal de 1947”, editado para angariação de fundos e apoio aos jovens encarcerados.

(desenho)

Ainda nesse ano, participa na II Exposição Geral de Artes Plásticas (EGAP), assistindo à violência da PIDE, que invade a SNBA e apreende doze obras de dez neo-realistas, só as devolvendo com a exigência de não voltarem a ser mostradas em público.[vi]

Hoje as EGAP´s estão esquecidas. E, no entanto, não subsistem dúvidas de que as mesmas configuraram “o primeiro combate organizado pela oposição ao Salazarismo”[vii] precisamente pela “consciência que trouxeram aos artistas da recusa de expor no SNI”[viii] e ainda pela frente cívica que constituíram e as sensibilidades que juntaram.

À distância, tendo presentes as discussões que se seguiram entre neo-realistas e surrealistas e o desespero aqui evidenciado pelo regime, é legítimo concluir que, por mais ingénua que haja sido a sua formulação, o neo-realismo era a linguagem expressiva correcta para o momento, a mais incomodativa e aquela que, pelo seu sentido pragmático, na feliz expressão de Ernesto de Sousa, melhor atingia os objectivos oposicionistas. Como o reforçou Álvaro Cunhal, num escrito elaborado na Penitenciária, sob o pseudónimo de António Vale, o conteúdo haveria de dominar a forma.

Num período propício à formação de movimentos cívico-culturais, como o campismo e o cineclubismo, é criado em Lisboa, por José Ernesto de Sousa, o Círculo de Cinema. Pelo seu imenso activismo, o clube torna-se suspeito e quando a PIDE assalta a sua sede e prende alguns membros, apreende um Boletim com o nome de todos os dirigentes, incluindo o de João Abel Manta, que co-dirigia essa publicação[ix].

Acresce que a sua morada era há muito utilizada para recepção de correspondência e o seu quarto, “que até tinha uma porta que dava directamente para o patim da entrada”, aproveitado para reuniões clandestinas, a pedido de José Dias Coelho.

Pelas 24:30 do dia 1 de Fevereiro de 1948, João Abel é preso pela PIDE na casa dos pais — na Rua Tenente Valadim (actual Infante Santo) 362-2º Esq., Lisboa — e levado para a prisão de Caxias, “por fazer parte de uma organização clandestina”.[x]

Tinha 20 anos, feitos a 29 de Janeiro desse ano.

Em Caxias, começa por ser colocado em companhia dos homens dos cineclubes “mas eles acabaram por sair primeiro e eu fiquei lá sozinho na cela”. Os interrogatórios na sede da PIDE são de extrema violência psicológica com o famigerado Fernando Gouveia a exigir nomes. Para não colocar em perigo gente ainda não assinalada pela polícia, cita membros do Juvenil que se encontram presos. Fisicamente não foi torturado: os agentes tratariam com alguma deferência uns tantos que consideravam serem filhos-família.

A Direcção [Universitária] Provisória do MUD Juvenil emite um comunicado apelando à unidade e ao protesto, afirmando que “a defesa dos nossos amigos presos é a própria defesa do Movimento”, ao mesmo tempo que um abaixo-assinado de solidariedade para com João Abel é posto a circular na Escola de Belas-Artes, tendo tido um êxito relativo porque “entre os colegas do meu curso [arquitectura] houve uma série de gente que recusou assinar com medo do «Cunha Bruto»”.

É solto a 14 de Fevereiro de 1948. Sobre a reacção familiar, recorda que o pai Manta, apesar de oposicionista, “não gostou que eu tivesse sido preso, achava um bocado inútil essas coisas (…) mas a minha mãe reagiu extraordinariamente e deu-me todo o apoio” ou não fosse Clementina Carneiro de Moura uma digna subsidiária da ética republicana.[xi]

A PIDE não mais o largaria. Mas João Abel Manta nunca deixará de intervir socialmente, sobretudo quando as causas da cultura estão em jogo.

Quando, em 1959, morre Diogo de Macedo e o regime nomeia o pintor Eduardo Malta para o substituir na direcção do Museu de Arte Contemporânea, João Abel Manta afirma publicamente: “Com Diogo de Macedo sempre trilhámos os caminhos da arte do nosso tempo, mas agora teremos certamente de lutar contra todos os preconceitos e ameaças que nos vão tolher os passos”[xii]. Essa luta contra o conhecido academismo de Malta ficou expressa numa das várias representações então dirigidas ao ministro da Educação Nacional, discordando da nomeação e sugerindo que fosse substituído.[xiii]

Várias obras suas foram censuradas. Já na época marcelista o artista seria acusado de ridicularizar a bandeira portuguesa num cartoon publicado no suplemento A Mosca do Diário de Lisboa do dia 11.11.1972 e, por isso, levado à barra do Tribunal. O desenho apresentava uma bandeira nacional sem a totalidade dos atributos e, no centro, por sobre a esfera armilar, uma cabeça de mulher, supostamente a cantar. Era óbvia a crítica aos nossos festivais da canção de onde os artistas de maior qualidade estavam arredados.

Viu-se obrigado a pagar uma fiança para aguardar julgamento em liberdade e, quando, em Junho de 73, o processo finalmente se concluiu com a sua absolvição, foi afirmado:

“Este não foi o processo de João Abel Manta – mas o processo dos seus próprios denunciantes, da censura, do fascismo (…) É portanto um processo político, que leva ao extremo do ridículo a farsa da pseudoliberalização marcelista (…) e é também um processo que felizmente chegou até este tribunal (…) cuja única sentença condenatória será, na consciência de nós todos, homens livres, para o regime que trouxe para este banco dos réus um grande artista e um cidadão como João Abel Moura.” [xiv]

O 25 de Abril de 1974 chegaria a tempo do artista João Abel Manta não ser de novo incomodado pela polícia política, desta feita pelos desenhos do livro Dinossauro Excelentíssimo, que produzira com o amigo José Cardoso Pires, e que ficaria sendo para a posteridade, com as Caricaturas Portuguesas do Tempo de Salazar, a mais lúcida e feroz denúncia dos cinquenta anos de obscurantismo vividos no nosso país.

Lisboa, 24 de Março de 2008


[i] João Abel Manta foi dos raríssimos alunos (se não o único) a fazer o curso na Escola de Belas-Artes de Lisboa sem atrasos. As razias eram em Geometria Descritiva ou em Desenho Arquitectónico (1º ano) e Construções (4º ano) de Luís Alexandre da Cunha, o “Cunha Bruto”, que também foi director. Ficaram célebres as debandadas para a Escola de Belas-Artes do Porto, para fazer as cadeiras deste professor

[ii] Rolando Sá Nogueira, entrevista à autora, em Março.2001. Todas as citações de RSN são desta fonte.

[iii] A Família Manta convivia com Aquilino Ribeiro, Manuel Mendes, Dordio Gomes, Keil do Amaral, Gualdino Gomes, Lopes-Graça, Bernardo Marques, Bento Jesus Caraça, Pulido Valente, e muitos outros.

[iv] Pertenceram à Comissão do MUD Juvenil da Escola de Belas-Artes de Lisboa, entre 1946-1952, J.Dias Coelho, J.Abel Manta, R.Sá Nogueira, Jorge Vieira, Lima de Freitas, Nuno Craveiro Lopes, Alice Jorge, F. Castro Rodrigues, M.Emília Cabrita, Raul Hestnes Ferreira, Augusto Sobral, António Alfredo, M.Cecília Ferreira Alves, Bartolomeu Cid, A. Sena da Silva, Lia Fernandes, Tomás Xavier de Figueiredo, etc.

[v] Em 29.04.1947 com prisões e agressões indiscriminadas. Na sequência, Salazar demitiu grande número de professores do ensino superior, nomeadamente o director da Faculdade de Medicina.

[vi] Foram 10 as EGAP´s, entre 1946-1956. A invasão da Pide deu-se a 13.05.1947 pelas 13 horas, e as obras apreendidas de Júlio Pomar, Avelino Cunhal, Viana Dionísio (José Viana) José Chaves (Mário Dionísio), Maria Keil, A.Louro de Almeida, Lima de Freitas, Manuel Filipe, Nuno Tavares e Rui Pimentel (Arco).

[vii] António Valdemar, “SNBA: continuidade e ruptura”, DN 18.03.2001

[viii] João Abel Manta, entrevista à autora em 22.08.2002. Todas as citações de JAM são desta fonte.

[ix] A sede funcionava na Rua B às Amoreiras 4-1º Dto – Lisboa, das 21.30 às 24 horas, em casa alugada para o efeito e inaugurada em 10.11.1947. O assalto da PIDE deu-se em 31.01.1948.

[x] Conforme Registo Geral de Presos e Processo ANTT/ PIDE/DGS 214/48 – NT 4956

[xi] Abel Manta (pai) foi muito maltratado pelo regime. Em 1932, concorre à Escola de Belas Artes de Lisboa para professor de Pintura, sendo preterido por Henrique Franco, num processo muito pouco claro, de que recorreu. Um ano depois, Henrique Franco demite-se e, em vez de ser chamado o segundo classificado no concurso, o regime nomeia Varela Aldemira que fora discípulo de Columbano. Já em 1939 Abel Manta e Dordio Gomes são chamados para decorar a escadaria principal do Palácio de S. Bento. Por questões estéticas, são dispensados quando as obras se encontram quase prontas, sendo as mesmas destruídas e ambos substituídos por Lino António.

[xii] Lista da PIDE com declarações públicas dos artistas plásticos e assinalando, de entre eles, quais os que se encontravam representados no Museu de Arte Contemporânea.

[xiii] A acção de Eduardo Malta (1900-1967) à frente do Museu de Arte Contemporânea revelar-se-ia catastrófica, a todos os níveis, como já foi publicamente admitido. Após o incêndio do Chiado seria o edifício objecto de requalificação profunda, reabrindo em 1994 como Museu do Chiado.

[xiv] J. Carlos Vasconcelos, «Cartoons» que abalaram o fascismo e fizeram sorrir a revolução», in O Jornal de 19.12.75, pp. 20-21.

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