A partir da segunda metade da década de sessenta do século XX, uma das fontes da resistência à ditadura foi a nova geração de jovens católicos “progressistas”, que queriam levar à prática a renovação que o Concílio Vaticano II tinha trazido. Desde muito cedo que as preocupações religiosas e eclesiais ficaram submersas pelas ideias políticas circulantes à volta do Maio de 1968, mas o momento inicial da ruptura com o regime ficou sempre marcado pela pertença a um credo confrontado com o mundo. O livro de Joana Lopes Entre as Brumas da Memória editado pela Ambar acrescenta-se a uma série de outras memórias e relatos de percursos de vida, como o de João Bénard da Costa, no retrato dos católicos “progressistas” na luta contra a ditadura. No entanto, estas memórias não se sobrepõem inteiramente, o que torna o relato de Joana Lopes um testemunho original. Enquanto na memorialística de Bénard da Costa, nos livros e ensaios sobre o Tempo e o Modo a editora Moraes, o papel de António Alçada Batista, se relata o percurso de um sector que rapidamente e mais cedo se politiza em organizações que se viriam a revelar mais “moderadas” (o que tem que ser visto com um grão de sal a posteriori, porque o Movimento de Acção Revolucionária a que quase todos pertenceram pretendia-se “revolucionário”) , o livro de Joana Lopes parte mais de dentro do interior da própria Igreja e das suas crises institucionais, na Acção Católica, no Seminário dos Olivais, no abandono das suas funções eclesiais de muitos padres, até chegar a movimentos radicais como a LUAR e o PRP-BR, mais determinados na acção violenta imediata do que o movimentos seus antecessores. Vale a pena lá encontrar a complexidade dos últimos anos da ditadura e a pluralidade da oposição, já bem longe da hegemonia comunista.

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Um pensamento sobre “

  1. Jorge Nascimento Fernandes

    Entre as Brumas da Memória
    Li com muito interesse o livro de Joana Lopes, colaboradora do nosso blog, referente a “Os católicos portugueses e a ditadura”. O período abrangido, que corresponde grosso modo aos anos 60 do século passado, foi para muitos de nós, hoje sexagenários, o período de formação e de abertura para o mundo. Apesar, das vivências de cada um, estes factos constituem, no entanto, um património comum daqueles anos tão importantes para o fim do fascismo.Assim, recordaria que um exemplar da “Igreja Presente “me foi dado na Faculdade por um católico progressista da época, que hoje deve ser afim do PSD e atarefado funcionário da SONAE.
    Por outro lado, a visita de Paulo VI a Portugal foi acompanhada por mim na televisão para perceber até que ponto ela era aproveitada pelo regime. E guardo dessa visita a sessão de autógrafos, que foi dada por esses dias, pelo poeta soviético Ievtuchenko, de quem tinha sido lançado a “Autobiografia Prematura” pela Dom Quixote.Ainda hoje conservo a assinatura do poeta na foice e martelo que fazia parte de uma das suas fotografias que compunham o livro. Para quem não se recorde, Ievtuchenko foi autorizado a entrar em Portugal, conjuntamente com milhares de peregrinos que vinham de Espanha, para participar nas cerimónias de Fátima presididas por Paulo VI.
    Mas o mais inesquecível é, para mim, a cena descrita pela autora das célebres conferências subordinadas ao tema “Lusitania, Quo vadis?”, a que assisti, principalmente a última que decorreu na tal fábrica de papel situada na Avenida do Brasil, em que devido ao meu aspecto “certinho e bem comportado” pude aceder, dado que foi estabelecida uma verdadeira barreira, pois não cabiamos todos na sala. Quem na altura desempenhava o papel de porteiro, se bem me recordo, seriam o Jorge Sampaio e o Vítor Wengorovius.
    Há da parte de Joana Lopes uma recordação muito comedida sobre o papel desempenhado por “dirigentes estudantis da extrema-esquerda muito aguerridos”, que ficaram no exterior da fábrica. Na verdade, cá fora Arnaldo Matos e os seus companheiros do MRRP não faziam mais do que insultar os que estavam lá dentro, parafraseando a canção do Luís Cília,”É sempre a mesma melodia, Mário Soares e a social-democracia”, em que substituíram o Salazar da letra da canção pelo Mário Soares. Este comportamento, que era verdadeiramente provocador e que nessa conjuntura visava atrair os polícias para reprimir a sessão, verificou-se repetidas vezes a quando das eleições de Outubro de 1969, principalmente em relação aos comícios da CEUD e em que Mário Soares participava. Para o MRRP, nesse momento, Soares era o inimigo principal, como depois, ou mesmo concomitantemente, veio a ser o PCP.
    Para terminar, não deixaria de notar esta espantosa moção aprovada por 68 padres em que se propõe “denunciar os sistemas de exploração capitalista que provocam o esmagamento económico e cultural de grandes camadas da população”. Que boas ideias manifestavam esses padres em 1969. Hoje, arrancar uma condenação tão explícita do capitalismo, já nem provavelmente do PCP.
    Passados todos estes anos e conhecendo da vida pública alguns dos intervenientes desta história, penso como tanta gente se acomodou e como é possível a Igreja ainda estar pior hoje do que estava há 40 anos e que os leigos, pela amostra dos que apareceram a combater o aborto, não sintam um friozinho na alma pelos disparates que produzem.
    in http://www.dotecome.com/saltar-novidades.htm

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