(Informação da editora)

«Saudação, Flausinas, Moedas e Simones»
Ser jovem no tempo do fascismo

Está nas livrarias o livro de Helena Pato «Saudação, Flausinas, Moedas e Simones». Com recurso à memória de tempos que viveu, a autora reconstrói, em 26 curtas narrativas, a época em que ser jovem era sinónimo de luta política e construção de ideais que, todavia, esperavam inquietos, pois vivia-se «como os dependentes anónimos: um dia de cada vez.».

Helena diz que «o livro foi escrito para os jovens e outras pessoas menos jovens, que já cresceram em democracia, mas que poderão gostar de conhecer alguns episódios da resistência ao fascismo em Portugal». Humoradas, e cheias de episódios rocambolescos, as histórias – que não têm «pretensões literárias», como diz a autora – são um testemunho vibrante, na primeira pessoa, de como se vivia com muita sede de ser.

Helena Pato foi, juntamente com Maria Lamas, uma das fundadoras do Movimento Democrático de Mulheres em 1969, em Portugal. Esteve presa e foi torturada pela PIDE.

No texto «Cinco segundos», que dedica ao pai, dá-nos conta de um desses episódios:

 

Aquela sala de interrogatório onde me encontrava, na Sede da PIDE, era pequena. (…) Logo na terceira noite sem dormir, tiraram-me a cadeira. Para eu ficar de pé. Disseram que eu estava a cabecear de sono. (E estava). (…) Comecei então a andar, a contar passos na diagonal: eram quatro. Pouco tempo depois, eu tinha “descoberto” um esquema divino. Andava lentamente, na diagonal da sala, entre a secretária e o canto oposto. De olhos bem abertos, quando ia em direcção à “pide” que garantia zelosamente o cumprimento da tortura, mas adormecendo logo que virava costas, enquanto caminhava cinco segundos no sentido contrário, juro que dormia de facto, e que acordava no momento certo de dar a volta. Lembro-me de sentir, de pensar que daria um ano de vida por cada cinco segundos daqueles. Assim mesmo troca por troca. Nesse estado de delírio, nem nos ocorria se haveria um interlocutor para fechar o tal negócio. Cinco segundos.

No prefácio, sobre os presentes textos e a geração vencedora dos anos sessenta, Mário de Carvalho refere que «com muita delicadeza, em apontamentos breves, mais postos em situação que ficcionados, Helena Pato dá-nos notícias desses tempos, com indignação, com ternura ou com humor. Assistimos à candura de amores juvenis, em tempo de luta, às memórias de tempos de humilhação e brutalidade, à greve da fome na cantina da Cidade Universitária, ao início da repressão, em grande escala, contra o movimento associativo estudantil, aos percursos e percalços do exílio.».

Se os textos nos dão o colorido da rebeldia e insurreição de jovens, apresentam-nos também a cumplicidade ciciante de outros desobedientes à saudação salazarista. No texto «Um bife na Brasileira do Chiado», a autora conta-nos a surpresa que a esperava depois de sair de um interrogatório, na Rua António Maria Cardoso, num processo narrativo dúctil, marca de todos os textos. Faminta, mas sem dinheiro, engendra um plano para comer um bife naquele célebre café de Lisboa, onde pensava ser menos conhecida, espaço de tertúlias de insubmissos de outros tempos:

 

Sensação única. O bife era, desde Junho, a minha primeira refeição que tinha cheiro à comida das nossas casas; o prato era em loiça e o copo em vidro – estranha vivência. E, supremo o luxo, um objecto que desde há meio ano eu não via: uma faca.(…) ao primeiro golo da cerveja, receei não vir a ter sequer energia para levar a cabo a minha estratégia. O álcool não entrava, obviamente, na cadeia e eu ficara logo “zonza”. Poucos minutos depois, tinha dado por terminada a minha refeição. Agora era ir em frente…

 

Nesse momento, com pressa de ver a família, mas receosa da reacção do empregado, ainda hesitei. (…) fiz-lhe um sinal, de longe, para que me trouxesse a conta. Ainda ele vinha a caminho (…)quando eu me pus de pé, encenando uma expressão de grande aflição, lhe dirigi com a devida ênfase a “fala”: que horror, com tanto movimento no café e eu(…) deixei despreocupadamente o porta-moedas em cima da mesa. Veja lá: roubaram-mo! O senhor faz-me um favor? Importa-se de ir ali comigo ao telefone, para eu ligar para casa e pedir que me venham trazer o dinheiro? (…) “Por amor de Deus, menina, ia agora deixá-la telefonar… Fica a dever e paga para a próxima. (…) Ainda por cima, logo hoje que estou tão contente de a ver (…) Quando a vi à porta até comentei com o meu colega: olha a menina que costumava vir cá com o senhor doutor A. E com a esposa, aquela menina que estava presa, já saiu…”

 

Tinha mesmo um olhar de alegria, o velhote. A seguir, inclinando-se sobre mim, e mais sussurrante, acrescentou: “Se calhar, quem lhe roubou o porta-moedas foi um tipo deles que tem estado aí, na mesa ao lado. Um bufo… Cuidado, menina, eles continuam muito por aqui!”

A autora diz que os textos serão «pontos de partida para um serão de memórias» dos mais velhos, e, para os mais novos, serão um olhar sobre um tempo, afinal, acrescentamos, não tão distante deles. Acresce que, mesmo sem estes argumentos de verdade histórica, a leitura rejubilará por 139 páginas de verdadeira aventura.

Saudação, Flausinas, Moedas e Simones, Helena Pato; Editorial Campo das Letras, Porto, Abril 2006

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