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Numa entrevista dada a Maria João Seixas e publicada na Pública de 28 de Maio de 2006, Maria Barroso fala da sua formação política e das actividades culturais da oposição no final da década de quarenta:

MJS – Mas, entretanto, aconteceu que a política acabou com a sua carreira no D. Maria II.

MB – Pois foi. Na faculdade tinha dois ou três grupos distintos de amigos – os da política eram os que mais me entusiasmavam, até pelo exemplo do meu pai, que já tinha estado preso e deportado nos Açores, mas havia também o grupo ligado ao teatro e à poesia, do Luís Filipe Lindley Cintra, da Maria de Lourdes Belchior, do Eurico Lisboa, do Sebastião da Gama (que estava sempre a tentar afastar-me dos políticos!).

No D. Maria evitei sempre integrar-me em qualquer grupo e o facto de me pôr a estudar nos tempos mortos defendeu-me muito. Enquanto estive no teatro e na faculdade, continuei a dizer poesia e, dado o meu interesse pela política, dediquei-me mais ao Novo Cancioneiro, não abdicando naturalmente dos outros, dos clássicos, dos do Orpheu e dos da Presença. A poesia do Novo Cancioneiro motivava-me mais, por ser uma poesia de combate. Dizia versos do Sidónio Muralha, do Joaquim Namorado… A partir de certa altura, comecei a acompanhar o Coro do Fernando Lopes-Graça. Íamos muito à Margem Sul, a Sociedades Operárias de Recreio – na primeira parte das sessões cantava o coro, a seguir entrava eu a dizer poemas e o coro regressava para fechar o espectáculo. A assistência ia ao rubro, com as canções e os poemas revolucionários. Um dia fui a Santarém fazer um recital, convidada pelo Grupo de Coordenação Cultural, constituído só por pessoas da oposição – o Eduardo Figueiredo, o Eurico Ferreira, o Humberto Lopes, entre outros. Estávamos, salvo erro, em 1948. A sessão teve lugar no Teatro Rosa Damasceno e o programa incluía uma conferência, pelo professor Vieira de Almeida, meu professor de Lógica na Faculdade e um orador brilhante, eu entrava a seguir a dizer poesia e, depois, o Coro Escalabitano encerrava. O governador civil de Santarém estava na sala e, quando acabei de dizer os poetas que tinha escolhido, o senhor saiu da sala, furioso. No dia seguinte, recebi em casa dos meus pais uma convocatória da polícia política para me apresentar na António Maria Cardoso. Interrogaram-me durante três dias, sem me prenderem. No fundo, o que eles queriam era que eu me descartasse da minha responsabilidade na escolha dos poemas, coisa que não fiz, e que denunciasse alguém do Grupo de Coordenação Cultural, associação que, logo a seguir àquela sessão, foi dissolvida pelo tal governador civil. Fiquei marcada. Quando, no teatro, estreámos "A Casa de Bernarda Alba", de Lorca, fiz o papel da Adela, a filha rebelde. Durante as férias de Carnaval levámos a peça a Setúbal, Santarém e Coimbra. As pessoas ligadas ao Grupo de Coordenação Cultural foram proibidas pela polícia de me fazerem qualquer manifestação e limitaram-se a entrar no meu camarim, com uma criancinha pela mão, que me entregou uma caixa de chocolates com uma enorme fita encarnada. Em Coimbra, aconteceu o inesperado – como não tinha ajuda para uma mudança de vestido no primeiro acto, pedi ao estudante que dirigia o TEUC que me arranjasse uma colega da faculdade para, nos bastidores, fazer comigo a passagem do vestido preto para o verde. Vieram duas, uma de Germânicas e outra de Direito. Quando chegámos ao final do segundo acto, cena em que eu acabava gritando contra a injustiça (e a tirania da casa e da mãe), porque me impressionara com a perseguição que na rua estava a ser feita a uma rapariga grávida, a sala ia vindo abaixo. Começaram a chamar por mim, mas eu com a minha timidez não avançava, até que a Palmira Bastos, que fazia de Bernarda, agarrou-me na mão e levou-me para a frente. A um dado momento atiraram uma pasta com as fitas da Faculdade de Letras e uma capa. Uma das raparigas que me tinham ajudado a vestir entrou nessa altura no palco e pôs-me a capa aos ombros. Devia estar tudo combinado, mas eu não sabia de nada. O teatro estava cheio de gente da oposição (o Carlos de Oliveira, o director do TEUC, o Tóssan…) e foi o delírio, seguramente a noite mais linda da minha carreira no teatro. No fim da temporada era hábito levarmos ao Porto as peças estreadas em Lisboa, no D. Maria II, mas… "A Casa de Bernarda Alba" já não foi, proibiram-na de ser incluída no programa. No fim das férias desse Verão, em princípios de Outubro, como era costume, telefonei para o D. Maria para saber quando é que começavam os ensaios da nova temporada e o Robles Monteiro disse-me para ir imediatamente ao teatro. Lá fui, e a Amélia Rey Colaço informou-me que tinham recebido uma ordem para eu não continuar na companhia. Soube depois que ela tinha feito todos os esforços para anular aquela decisão, mas nada conseguiu. Tive um grande desgosto.


MJS – Continuou a estudar até ao fim do curso sem mais problemas?


MB – Continuei, sempre envolvida em actividades políticas, no MUD juvenil, nos recitais de poesia. Acabei o curso e casei, em 1949, no início da campanha do Norton de Matos para as eleições presidenciais. Passei a representar outros papéis – para além da mulher militante, agora era a mulher de um homem com grande intervenção política. Só muito mais tarde, já nos anos 60, é que voltei aos palcos, no Villaret, com uma peça de Henry James – "Aspern Papers", traduzida pelo Luís de Stau Monteiro e encenada pelo Jacinto Ramos. Fiz ainda a "Antígona" de Jean Anouih, mas depois desisti, tirava-me muito tempo, eu já tinha os meus filhos e era complicado conciliar tudo. O Paulo Rocha viu essas duas peças encenadas pelo Jacinto e convidou-me para entrar no seu segundo filme – "Mudar de Vida", rodado em Ovar. Já em filmagens, o Mário foi preso. As visitas eram só uma vez por semana. Não falhei uma. No dia certo, metia-me no meu carro e lá vinha até ao Aljube, para desespero do director de fotografia, que achava que o cansaço daquelas idas e vindas se reflectia depois na minha cara. Paciência, mas às visitas é que eu não podia faltar. Mais tarde, logo a seguir ao 25 de Abril, voltei ao cinema, com o Manoel de Oliveira a dirigir "Benilde ou a Virgem-Mãe", de José Régio, que em 1947 eu já tinha representado no D. Maria II.


MJS – Pelo interior desses anos há ainda o tempo de condenação do dr. Mário Soares em S. Tomé e, depois, o exílio em Paris. Como é que acompanhou o marido, os filhos e o Colégio Moderno que já dirigia?


MB – Foi duro, mas possível. Oficialmente eu não podia dirigir o Moderno e estava mesmo impedida de dar aulas, foram uns primos do meu marido que, por não estarem envolvidos em política, assumiram a direcção, mas eu ocupava-me da gestão de tudo. Como ainda tínhamos internato e as dificuldades económicas eram grandes, trabalhava que nem uma moura. Lembro-me que ia três dias por semana às cinco da manhã para a Ribeira fazer as compras de peixe, hortaliças e frutas… Quando o Mário esteve exilado em Paris, fazia regularmente a "navette" entre as duas cidades.
MJS – Na sua formação política, para além da influência recebida do seu pai e do tal grupo de amigos da faculdade, onde conheceu o seu marido, a leitura dos textos marxistas desempenhou também um papel importante?
MB – Importantíssimo. Lia tudo o que podia e acreditava, acreditávamos, nessas teorias todas, porque desejávamos uma sociedade mais justa, mais igualitária, mais fraterna, e pensávamos, convictamente, que o comunismo garantiria a existência de uma sociedade melhor. Havia também a aura de a União Soviética fazer parte dos vencedores da Grande Guerra, do Estaline ter decidido, a um dado momento, ficar do lado dos Aliados contra o nazismo. A desilusão começou a instalar-se com o conhecimento dos célebres "Processos de Moscovo". A cisão com vários amigos e companheiros de luta, que passaram a julgar-nos como traidores, deu-se aí. Foi doloroso, mas a razão, como a História veio a provar, estava do nosso lado.

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