José Pacheco Pereira (J.P.P.) não convive bem com as críticas vindas de comunistas. Não lhe fica bem. Faz mal. E faz-lhe mal. O “descodificador” dos documentos da PIDE e do PCP ficou afectado na sua capacidade interpretativa da língua pátria. Mas eu explico-lhe!

1ª Parte da frase: Pacheco Pereira, nas reuniões estudantis da Academia do Porto, fez discursos inflamados sem ir parar aos calabouços da PIDE. É um facto histórico. Não implica nenhum juízo de valor.
Como sabe o historiador P.P., vários militantes do PCP estavam identificados como tal pela PIDE. E não eram presos. É conhecido de P.P. que casas clandestinas estiveram cercadas pela PIDE um, dois, três e mais meses. É público que houve responsáveis da PIDE que foram despromovidos por não terem paciência suficiente. E actuarem antes de tempo. Faz parte do manual de qualquer polícia, em particular das polícias políticas. Objectivo: prender apenas os mais responsáveis.
Mas regressemos à minha frase. 2ª Parte: é anacrónico e redutor chamar (por isso) provocador a P.P. Ou seja, escrevi exactamente o contrário do que P.P. diz. Ataque súbito de iletracia? Leu o artigo na oblíqua? Convinha-lhe à sua argumentação de vítima? Desonestidade intelectual pura e dura? Ou outra razão qualquer que não descortino? Ao leitor de escolher…

Leitura

Leio o que P.P. escreve desde 1972. Ouço-o e vejo-o sempre que tenho disponibilidade temporal. Este caso não foge à regra. P.P. errou o alvo e lançou uma insinuação sobre a minha “não leitura” que não colhe.
Se, por sua vez, me lesse com alguma atenção, perceberia que só escrevo ou falo daquilo que sei, conheço ou estudo. E que para todas as afirmações são apresentados os respectivos fundamentos. Ou existe o devido suporte.

História

Como o historiador P.P. sabe, nasci na clandestinidade filho de dois funcionários e dirigentes do PCP. Fui dela “expulso” por razões de segurança conspirativa. A ela regressei aos 17 anos. Durante 20 anos foi funcionário do PCP. Desde 1975 desempenhando tarefas numa comissão a funcionar junto dos organismos executivos do comité central. Tudo isto é público.
Por razões meramente casuais durante um ano inteiro não fiz, a nível político, praticamente mais nada senão ler, analisar e estudar quase tudo o que estava publicitado pelo PCP. As “integrais” do Avante! e de O Militante, outras publicações, relatórios aos congressos, reuniões do CC. Múltiplos e variegados documentos de e sobre o PCP. A eles regressei quando da exposição do 60º aniversário (1981). E de novo, durante alguns meses, em 1991 (Festa do Avante! exposição dos 70 anos).
A isto acresce o convívio, durante duas dezenas de anos quase diário, com diferentes dirigentes e militantes. Para além da minha apetência sobre este tema. P.P. dar-me-á o benefício da dúvida de alguma “coisinha” saber sobre a história do PCP. E de me preocupar sobre o assunto.
E há outra questão. Ele há histórias e estórias. E há histórias que merecem mais credibilidade do que outras. Entre José Hermano Saraiva e José Mattoso, por exemplo, escolho o segundo. O que não me impede de ler o primeiro. Entre a história universal de Karl Grinberg ou a da UNESCO a decisão é óbvia.

Ideologia

A nível político e ideológico estou nos antípodas de P.P. Ou vice-versa.
Sou daqueles que defendem e lutam por uma sociedade diferente desta. Sem exploradores nem explorados. Que utilizam o materialismo dialéctico e histórico como método de análise da realidade económica, política, social e cultural. Que procuram que nada do que é humano lhes seja estranho. Que entendem que o estudo objectivo e científico dos fenómenos sociais só é possível na base do marxismo-leninismo.
“O objectivo político principal no plano teórico do livro era o de combater a história e os historiadores burgueses da chamada “”oposição democrática”, opondo-lhe uma tentativa de aplicação do materialismo histórico ao campo da história do Portugal contemporâneo.”
Ou: “Já o mesmo não se passa com os erros de conteúdo de que se torna necessário fazer autocrítica. Esses erros representavam o resultado de uma deficiente compreensão e aplicação do materialismo histórico e a concepções políticas erradas” (in As Lutas Operárias contra a Carestia de Vida em Portugal, 2ª edição, José Pacheco Pereira). Os sublinhados são meus.
Isto dizia P.P. em 1976…

Confronto ideológico

No seu Enxofre de 8561 caracteres P.P. “aos costumes diz nada”. Ou quase nada.
Certamente pela mesma razão que o levou a não compreender uma simples frase de português, P.P. arrumou as minhas críticas e discordâncias com um sonoro “puramente insultuoso”.
Mas eu explico-lhe! Nos três volumes até agora publicados de Álvaro Cunhal: Uma Biografia Política, manifesta-se por parte de P.P. (e recorro de novo às palavras de Álvaro Cunhal) “(…) o subjectivismo, a tomada da parte como todo, a tomada de aspectos superficiais, derivados, acidentais e episódicos do desenvolvimento social como se fosse a raiz dos acontecimentos ou a força motora dos processos”.
A isto P.P. diz zero.
Afirmei que para P.P. há uma série de teses por ele criadas de antemão que há que demonstrar obrigatoriamente. E enumerei-as uma a uma.
– A História do PCP está por fazer. Por parte do PCP, o que existe é sobretudo hagiografia, pontuada por algumas histórias de santos, mártires e vitórias, e por isso mesmo cheia de ensurdecedoras lacunas.
– No PCP houve sempre luta pelo poder. Teria sido mesmo o fio condutor da sua actividade política.
– Dirigentes com capacidade só os de origem intelectual (Cunhal e Fogaça). Os outros eram meros tarefeiros.
– O papel da PIDE e da repressão durante o fascismo, nomeadamente no dia-a-dia dos comunistas, são questões secundárias. Ou quase.
– A verdade é só uma: o PCP não fala verdade.
E podia acrescentar mais uma: a da “simetria” PCP-PIDE. Como se pudesse haver simetria entre torturador e torturado, assassino e assassinado.
A isto P.P. diz rien de rien.
Escrevi que não cabia no âmbito do artigo a resposta, ponto por ponto, ao que P.P. tem vindo a publicar sobre Álvaro Cunhal e o PCP. Por um lado, porque partilho a tese do Álvaro que “deturpações e falsificações não merecem em geral desmentido”. Por outro, porque entendo que os escritos de P.P. não são o fim da história. Outros virão…
A isto P.P. diz niente.
E o pouco que diz só vem confirmar o que acima está escrito. Afirma peremptório que os documentos públicos do PCP têm um valor facial como factualmente verdadeiro escasso. Estamos conversados. Fica sem se perceber a obsessão de P.P. pelo acesso aos arquivos do PCP. E o seu interesse pela contestação aos factos, às interpretações, aos erros dos seus livros.
Pelos vistos polémica para P.P.é só nas condições definidas e aceites por ele. P.P. pode dizer de Álvaro Cunhal, do PCP e dos comunistas o que lhe der na real gana que estes só têm é que ficar calados. É a tese do come e cala. P.P. disse, está dito.
No que ao autor destas linhas respeita está redondamente enganado. Pela minha parte assunto encerrado.

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