Há mais de 20 anos, um pequeno grupo de amigos, todos eles fazendo política desde a adolescência no regime salazarista, o que é relevante neste caso, resolveu fazer a primeira revista dedicada ao estudo científico e histórico do comunismo português. Seguiam o exemplo da revista francesa Communisme, dirigida por Annie Kriegel e Stephane Courtois, uma antiga dirigente do PCF e um antigo maoísta, e criaram os Estudos sobre o Comunismo. Havia vários marxistas de diferentes histórias e filiações, como eu, que viera do PCP-ML, Fernando Rosas que viera do MRPP, José Alexandre Magro/”Ramiro da Costa” e António Moreira que tinham vindo dos grupos marxistas-leninistas anteriores ao 25 de Abril que se fundiram no PCP(R). De todos, eu fora o primeiro a sair daquelas andanças, oito anos antes, uma eternidade se tivermos em conta que o processo da cisão da Voz do Povo, que envolveu o Espada e o José Manuel Fernandes, tinha durado até ao início da década de 80 e, só para comparação, homens como Vital Moreira, José Magalhães e Pina Moura ainda estavam para lavar e durar no PCP.

A este grupo tinha-se juntado Rogério Rodrigues e Maria Goretti Matias, que o jornalismo e o trabalho no arquivo de Pinto Quartin, oferecido ao ICS, tinham interessado no mundo do comunismo. Havia depois o decano do grupo, com outro mundo, outra experiência, outra história, Manuel Sertório. Sertório vinha de “companheiro de estrada” do PCP nos anos 50, exilara-se para o Brasil onde trabalhara muito próximo de Delgado e era uma figura inclassificável, muito sui generis na oposição portuguesa. Na realidade, era uma espécie de trotsquista entrista, mas acima de tudo era um original e um independente, um homem muito interessante com as suas idiossincrasias e que a morte levou pouco depois, como também levou José Alexandre, que tinha escrito uma muito esquerdista história do movimento operário.

Um grupo em que os interesses e curiosidades tinham muito a ver com a biografia própria, como era normal, e ainda mais normal se tivermos em conta o “trabalho de luto” que alguns ainda faziam, unidos pela intensa curiosidade por uma história que sabíamos ser indesejada à direita e à esquerda. À direita, tudo o que envolvesse o comunismo era pestífero, à esquerda, ninguém ousava contestar a história heróica da oposição, em particular do PCP. Os Estudos sobre o Comunismo pretendiam romper com esses silêncios mútuos e o seu trabalho foi pioneiro, quer na intenção científica, quer na criação de espaço para uma área de estudos contemporâneos, contra todos os bloqueamentos.

Muitos dos nossos antigos camaradas da extrema-esquerda estavam então a começar, na década de 80, sucedidas carreiras académicas, como era (e é) o caso de António Costa Pinto, de João Carlos Espada e mais tarde de Fernando Rosas, assim como de muitos outros menos conhecidos mas geracionalmente significativos. A maioria dos que se dedicaram à história e à ciência política centraram o seu trabalho a estudar o Estado Novo (como Costa Pinto e Rosas) ou a filosofia política conservadora (como Espada). Eu fiquei ligado aos temas que sempre me interessaram, a história dos movimentos sociais, em particular, a história do movimento operário e do comunismo.

O tema era mal visto e continua a ser mal visto. Se escrevesse sobre Salazar e o fascismo, tudo seria mais simples e não teria comunicados oficiais do PCP no Avante! e artigos puramente insultuosos como o de António Vilarigues no PÚBLICO de há uns dias. Já há muito tempo que as milhares de páginas que escrevi sobre a história contemporânea de Portugal, desde 1970, seriam tidas como história reconhecida e não teria de ter alguns jornalistas ignorantes a contestar que o PÚBLICO colocasse a estrelinha em “historiador” no fundo do artigo e preferissem o “ex-eurodeputado”.

Mas não, a história do PCP é quase tão sulfurosa como há 20 anos quando fizemos os Estudos sobre o Comunismo. Cunhal atacou a revista num comício como se fosse da CIA, e hoje o Avante!, de Casanova e António Vilarigues, só falta dizer que a biografia de Cunhal por mim feita é escrita por um braço tardio da PIDE. Antes como agora, fazer a história do PCP é sempre participar numa qualquer “operação” policial contra o partido. Casanova explica na nota do Avante! que é isso mesmo, uma “operação contra o partido”, como se houvesse alguém que em 2006 ainda perdesse tempo e esforço a conduzir “operações” contra o PCP. António Vilarigues, por seu lado, repetiu pela milésima vez, a velha calúnia do PCP contra os esquerdistas que estes eram “protegidos” pela PIDE. Métodos baixos, muito baixos.

Os esgotos da história, de onde vêm estes métodos, foram muito bem descritos por Mário Dionísio numa história exemplar do preço que se pagava por discordar do PCP nos meios claustrofóbicos da oposição. Dionísio relata na sua autobiografia que estava a fazer uma série de conferências quando se apercebeu de “que, enquanto falava, naquele silêncio ávido e colaborante que é o prémio major para qualquer orador, se bichanava na sala a deitar por fora: “Um tipo bestial. É pena como se portou quando esteve preso. Meteu muita gente dentro”. Ora Dionísio nunca estivera preso, tratava-se de lançar um boato que o diminuía no seu carácter e integridade de resistente. Dionísio descreve uma das muitas campanhas de calúnias em que o PCP era useiro e vezeiro.

Estes métodos não mudaram, e quer a nota de Casanova quer o artigo de António Vilarigues não contestam um único facto do meu livro, não discutem uma única interpretação, não apontam um erro (que certamente existem), mas fazem apenas sugestões ad hominem contra o autor, tentando sugerir intenções, uma agenda “escondida” de “deturpações e falsificações”. Quer na nota, quer no artigo, nada do que é dito sobre o livro tem a ver com ele. Podiam ter sido escritos sem o ler, porque os seus autores não querem saber um átomo da história do seu próprio partido, nem lhes interessa esclarecer nada.

Só para não ir mais longe, porque não vale a pena, uma das falsidades que repetem é que toda a minha descrição, por exemplo dos assassinatos do início dos anos 50, é feita a partir de documentos da PIDE, o que basta folhear o livro para se perceber como é falso. Mais: mesmo que o fosse, nem por isso deixariam de poder ser usados, porque um historiador tem obrigação de saber como é que se analisa um documento de polícia e os cuidados exigidos nessa análise. Cuidados aliás do mesmo tipo que se necessitam para analisar um documento público do PCP, cujo valor facial como factualmente verdadeiro é também escasso.

Mas vale pouco a pena responder a insultos e processos de intenção de uma completa desonestidade intelectual. A nota de Casanova e o artigo de A. Vilarigues não tem qualquer interesse para a análise do período em questão, não tem qualquer interesse para o historiador, a não ser nas suas reais intenções actuais. Elas são fáceis de identificar: uma é instrumental, pressionar os militantes do PCP para não fazerem depoimentos sobre os eventos em que participaram ou que testemunharam. E para que vão para o túmulo quedos e calados, tendo direito a três linhas nas necrologias de Avante!, mais depressa esquecidos e desrespeitados pelo seu partido do que por mim, que lhes dou a parte da memória a que têm direito.

As intenções sobrantes são puramente políticas e reflectem a enorme resistência de uma parte do PCP à mudança, como se fosse possível manter uma história feita de ocultações e segredos, destinada a assegurar uma blindagem face à investigação e ao conhecimento. Quem faz “operações” contra o PCP são os que procedem como Casanova e A. Vilarigues, “operações” de descrédito, “operações” que geram efeitos de “revelação” como recentemente aconteceu com o “caso” da gravidez de Catarina Eufémia. Um partido que não torna acessível à investigação o seu arquivo, que responde pavlovianamente a qualquer fractura na parede da sua história “oficial”, cria o terreno para a especulação e, de cada vez que se mete num destes sarilhos, sai pior do que entrou. Em vez de compreenderem que o papel do PCP na história portuguesa só fica garantido na memória colectiva dos portugueses quando esta deixar de ser um instrumento de propaganda, insiste-se na linguagem de madeira e na destruição verbal do trabalho dos outros.

Vinte anos depois dos Estudos sobre o Comunismo, continuarei a estudar a história do PCP e da oposição, com o mesmo programa e espírito inicial: conhecer, pela história dos dias de hoje, as linhas com que nos cosemos. Pelos vistos, encontrando exactamente as mesmas dificuldades, mas é a vida.

(Público, 12/1/2006)

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3 pensamentos sobre “

  1. Continue, continue sempre, Pacheco Pereira!
    Quem não conhece a História está condenado a repeti-la.

  2. Velha guarda

    Mesmo aqueles que conheciam e conhecem a História têm caído no erro de repeti-la.

    Lobo das Estepes

  3. Pode JPP persistir, nos seus já milhares de páginas de História do Comunismo, que dificilmente alcançará as boas graças do PCP.
    O velho PCP não muda, na essência ; faz uns arremedos de aggiornamento, mas, lá no fundo, mantém os padrões antigos marcados de sectarismo, por muito que apregoe o contrário; lá vem sempre a acusação de provocação, de denegrimento, de desvirtuação, do jogo da reacção, da CIA,do Imperialismo, etc. Assim, o diálogo torna-se penoso e até inútil, perpetuando o seu isolamento. Nem toda a aparente bonomia de Jerónimo traduz a desejada mudança. Quosque tandem…

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