Esclarecimento a António Vilarigues

Tendo sido referido o meu nome, num artigo de António Vilarigues no passado dia 2, venho solicitar-lhe a publicação deste breve lembrar que em Janeiro de 2000, numa conferência de imprensa muito concorrida, foi publicamente anunciada a adaptação para a televisão do romance Até Amanhã, Camaradas. Nessa apresentação pública, entre outros materiais de promoção e divulgação do projecto, foi incluído um texto de minha autoria, assinado, e redigido na qualidade de argumentista e (na altura) de realizador convidado para dirigir a série. Esse texto foi, e continua a ser, público e não sofreu, quer então, quer posteriormente, qualquer crítica ou ressalva, por parte do autor de Até amanhã, Camaradas, ou por parte de qualquer outra pessoa, incluindo os hagiógrafos mais sensíveis. Desse texto, permito-me apresentar o seguinte excerto:

“A História da Resistência à Ditadura Salazarista é quase sempre hagiográfica, incerta e muito nebulosa quanto às histórias individuais: os critérios e os pontos de vista de natureza política, ideológica e partidária, condicionaram, deturparam, mutilaram ou mitificaram até hoje factos, relatos e até documentos a partir dos quais seria possível tentar contar as estórias dessa resistência.
Colectivamente, o colaboracionismo não é mais que humano resultado da sobrevivência individual. Como em França, durante a resistência ao nazismo, ou nos antigos países do Leste, durante o terror estalinista, não foram muitos os homens e as mulheres que, em Portugal, comprometeram as suas vidas no combate contra a ditadura. Nesse combate, é inegável que os comunistas portugueses ocuparam quase sempre um lugar destacado.”

O que disse, e mantenho, na apresentação do 3º volume da biografia política de Álvaro Cunhal, da autoria de José Pacheco Pereira, é portanto a simples reafirmação de uma opinião, que tendo sido expressa publicamente em 2000, não sofreu, fosse de quem fosse, qualquer objecção ou reparo, como já foi referido. Espanta-me, por consequência, o parentético remoque do articulista do PÚBLICO, que, à semelhança de alguns insignes hagiógrafos, parece querer caçar bruxas onde não existem vassouras. A não ser que o simples facto de, agora, a minha opinião “coincidir” com a de José Pacheco Pereira passe a constituir suficiente matéria de anátema.

Luís Filipe Rocha, Cineasta, Lisboa

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