Do Avante! de 5/1/2006:

«Cruzada de Revelações» – EsclarecimentoAo abrigo da Lei de Imprensa solicito o seguinte esclarecimento:

No Avante! de 7/12/2005 o meu nome aparece referido no parágrafo final de um artigo intitulado «Cruzada de Revelações». O parágrafo é o seguinte: «Da mesma família, para pior, neste caso entrando já pelos enlameados caminhos da abjecção, é a prova de Luís Filipe Rocha, que leva ao pico a cruzada de revelações ao citar uma pessoa que já não o pode desmentir… Que tristeza! Que lástima!»

Pretendendo refutar a veracidade de uma citação, o colunista baseia-se numa afirmação falsa, não revela a citação e desfere um grosseiro insulto que indignadamente rejeito.
No passado dia 29 de Novembro, apresentei na Penitenciária de Lisboa, e com muita honra, o 3.º volume da «Biografia Política» de Álvaro Cunhal, da autoria de José Pacheco Pereira. Fi-lo, a convite do autor, na qualidade de cineasta, autor do filme «A FUGA» e autor do Argumento e Diálogos, integralmente aprovados pelo dr. Álvaro Cunhal, da série «ATÉ AMANHÃ, CAMARADAS» .

Como toda a gente na sala ouviu, a começar pelos militantes do PCP que estavam presentes (de que destaco Jaime Serra e João Arsénio Nunes, com os quais no final estive a conversar), eu não apresentei prova nenhuma de coisa nenhuma, muito menos de possíveis execuções praticadas nos anos 50 por funcionários ou militantes do PCP. Referi apenas o que sobre o tema me foi dito pelo Dr. Álvaro Cunhal, e o contexto em que isso aconteceu: durante um encontro profissional e não pessoal. Acrescento agora que o fiz porque, em primeiro lugar, essa conversa não decorreu apenas a dois, e porque, em segundo lugar, o que foi dito pelo dr. Álvaro Cunhal confirma rigorosamente a posição «oficiosa» que, ao longo dos anos, foi defendida pelo PCP. Disse o dr. Álvaro Cunhal: que à época dos crimes estava preso e incomunicável, que nunca teve conhecimento nem considerava possível alguma decisão política de qualquer órgão do partido no sentido de matar fosse quem fosse, que não podia excluir que algum camarada mais impulsivo, em momento de grave perigo e grande tensão para o partido, pudesse ter decidido fazer justiça por suas próprias mãos.

Ou seja, a verdade é que a minha intervenção, citando as palavras proferidas pelo dr. Álvaro Cunhal numa conversa não apenas a dois, reiterou, mal ou bem, a posição «oficiosa» do vosso Partido. O que transforma o parágrafo que me é dirigido num puro e gratuito acto de terrorismo intelectual e moral, que eu julgava não fazer parte do actual ideário do PCP.

Luís Filipe Rocha

Três observações ( poderiam ser trezentas) à carta de Luís Filipe Rocha (LFR):

1 – Três dias antes do lançamento do livro de Pacheco Pereira, que LFR apresentou «com muita honra», um jornal de grande tiragem, gritava na sua primeira página: «Pacheco Pereira revela assassínio no Comité Central». Tratava-se da primeira etapa de mais uma operação provocatória contra o PCP, a juntar a muitas outras que, ao longo de quase 85 anos, assumiram formas diversas – desde a mentira, a calúnia, a intriga, a infâmia, até a actos de terrorismo intelectual, moral, político, bombista.

2 – A utilização por LFR, na apresentação do livro, de uma «conversa» com Álvaro Cunhal («conversa» na carta citada a itálico e sem aspas e duas vezes referida como «não apenas a dois») coloca, tão-somente, a questão de saber se, na abordagem de um tema com a gravidade do que estava em causa – e no contexto de mais uma operação provocatória contra o PCP – era legítimo tornar pública uma «conversa» tida com uma pessoa que já não é viva – Álvaro Cunhal, sublinhe-se – e que, utilizada como foi, se inseriu, objectivamente, quer LFR o quisesse quer não, na referida operação. A meu ver tratou-se de um acto inadmissível, inaceitável, eticamente condenável. LFR pensa que não. Paciência.

3 – LFR saberá, melhor do que ninguém, se, no contexto referido, teria trazido essa «conversa» a público caso Álvaro Cunhal fosse vivo. Se o fizesse, tenho para mim como coisa certa que Álvaro Cunhal teria alguma coisa a dizer. Porque não duvido (e não creio que alguém duvide) que Álvaro Cunhal não permitiria ver o seu nome envolvido numa campanha provocatória contra o PCP, como foi, de facto, todo o processo de lançamento do livro de Pacheco Pereira – que LFR apresentou «com muita honra».

José Casanova

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