Tiago Mota Saraiva – CR͍TICA AO III VOLUME DA BIOGRAFIA DE CUNHAL

No Random Blog02:

NOTA PRVIA

Pelo Natal, recebi o ltimo volume editado da Biografia de lvaro Cunhal escrita por Jos Pacheco Pereira (JPP). O historiador do Abrupto, tem vindo ao longo dos anos a recolher inmera informao para a construo da biografia de lvaro Cunhal e da histria do PCP, o que fica patente nos seus dois blogues lvaro Cunhal uma Biografia Poltica – o blog do livro e Ensaios sobre o comunismo, e outros livros publicados. Embora me tenha lanado ao livro com alguma avidez, o final do ano apenas me foi permitindo ler uma centena das 748 pginas. Contudo nestas primeiras cem pginas o PCP j foi responsvel pela morte de umas quantas pessoas, e sobre isso que quero escrever:

A parcialidade e o rigor cientfico no so conceitos que se aniquilem em textos como o deste livro – com o cariz de ensaio acadmico. Quero com isto dizer que, o investigador quando inicia uma pesquisa sobre um determinado tema at pode partir (e s vezes ajuda) com uma ideia preconcebida daquilo que se quer provar. Ou seja, no me choca que JPP, quando se lhe ps o problema da justificao de alguns desaparecimentos/mortes de militantes comunistas, tenha partido do pressuposto que teria sido o prprio partido a cometer os homicdios.
Neste aspecto a tese de JPP clara e est patente numa das primeiras pginas do livro: “Algures, durante o ano que se seguiu priso de Cunhal, o ncleo restritssimo de dirigentes que controlavam o PCP tomou a deciso de executar os militantes envolvidos nos casos que lhes pareciam mais graves de “traio” – pp. 60. A partir da enunciao da tese, JPP passa a descrever algumas mortes que atribui a decises dos dirigentes do PCP ento no activo, enunciando detalhadamente um conjunto de fontes e documentos que corroboram a sua tese.
No me interessa questionar a veracidade da tese de JPP, pois estas no so as minhas reas privilegiadas de investigao. O que quero questionar so as fontes que o historiador utiliza para a suportar. Um factor determinante para se chegar a uma tese com algum rigor cientfico no campo da histria contempornea, e o JPP sab-lo- melhor do que eu, a capacidade de cruzar informao, fontes, testemmunhos e documentos de diferentes provenincias, para que a premissa da qual se partiu passe de “possibilidade” a “certeza”. Na minha opinio esta tese no se encontra bem defendida.
JPP diz: “Uma anlise mais rigorosa do que se conhece sobre os assassinatos e as tentativas de assassinato, ocorridos de 1950 a 1974, baseada nos documentos e nos testemunhos da poca no permite dvidas sobre a responsabilidade do PCP nesse actos.”- pp. 63.
A fonte primria de JPP, so os documentos dos arquivos da PIDE que justificam plenamente a sua tese, na qual tem especial importncia as “Memrias de um Inspector da PIDE” de Fernando Gouveia – que nas palavras do autor era um especialista a lidar com comunistas pela forma expedita e violenta como levava os interrogatrios. No interior do PCP o historiador encontrou documentos da poca que revelavam preocupaes relativamente a possveis elementos afectos ao regime infiltrados nas clulas e na direco do partido, mas nenhum documento em que se possa extrapolar para ter existido uma deciso por parte da direco de assassinato de um qualquer suspeito de “traio”.
Relativamente a ex-militantes do PCP, s os que aparecem citados em interrogatrios pela PIDE, que assumem a responsabilidade do partido nos assassinatos. Outros ex-militantes, como Rui Perdigo, defendem a no veracidade da tese que JPP defende.
Ora de uma leitura atenta das fontes temos que, apenas nos documentos e testemunhos que passaram pelo crivo da polcia do antigo regime se pode encontrar referncias responsabilidade do PCP nas mortes enunciadas. Desta forma a tese de JPP, e mais uma vez refiro que o meu propsito no contrapor com outra tese, aparece-nos documentada com fontes que, para alm de serem pouco fidedignas (pois sabe-se que muitos documentos da PIDE eram apenas propaganda) no se conseguem cruzar com todos os outros testemunhos que o autor registou.

NOTA PRÉVIA

Pelo Natal, recebi o último volume editado da Biografia de Álvaro Cunhal escrita por José Pacheco Pereira (JPP). O historiador do Abrupto, tem vindo ao longo dos anos a recolher inúmera informação para a construção da biografia de Álvaro Cunhal e da história do PCP, o que fica patente nos seus dois blogues Álvaro Cunhal uma Biografia Política – o blog do livro e Ensaios sobre o comunismo, e outros livros publicados. Embora me tenha lançado ao livro com alguma avidez, o final do ano apenas me foi permitindo ler uma centena das 748 páginas. Contudo nestas primeiras cem páginas o PCP já foi responsável pela morte de umas quantas pessoas, e é sobre isso que quero escrever:

A parcialidade e o rigor científico não são conceitos que se aniquilem em textos como o deste livro – com o cariz de ensaio académico. Quero com isto dizer que, o investigador quando inicia uma pesquisa sobre um determinado tema até pode partir (e s vezes ajuda) com uma ideia preconcebida daquilo que se quer provar. Ou seja, não me choca que JPP, quando se lhe pôs o problema da justificação de alguns desaparecimentos/mortes de militantes comunistas, tenha partido do pressuposto que teria sido o próprio partido a cometer os homicídios.
Neste aspecto a tese de JPP é clara e está patente numa das primeiras páginas do livro: “Algures, durante o ano que se seguiu prisão de Cunhal, o núcleo restritíssimo de dirigentes que controlavam o PCP tomou a decisão de executar os militantes envolvidos nos casos que lhes pareciam mais graves de “traição” – pp. 60. A partir da enunciação da tese, JPP passa a descrever algumas mortes que atribui a decisões dos dirigentes do PCP então no activo, enunciando detalhadamente um conjunto de fontes e documentos que corroboram a sua tese.
Não me interessa questionar a veracidade da tese de JPP, pois estas não são as minhas áreas privilegiadas de investigação. O que quero questionar são as fontes que o historiador utiliza para a suportar. Um factor determinante para se chegar a uma tese com algum rigor científico no campo da história contemporânea, e o JPP sabê-lo-á melhor do que eu, é a capacidade de cruzar informação, fontes, testemmunhos e documentos de diferentes proveniências, para que a premissa da qual se partiu passe de “possibilidade” a “certeza”. Na minha opinião esta tese não se encontra bem defendida.
JPP diz: “Uma análise mais rigorosa do que se conhece sobre os assassinatos e as tentativas de assassinato, ocorridos de 1950 a 1974, baseada nos documentos e nos testemunhos da época não permite dúvidas sobre a responsabilidade do PCP nesse actos.”- pp. 63.
A fonte primária de JPP, são os documentos dos arquivos da PIDE que justificam plenamente a sua tese, na qual tem especial importância as “Memórias de um Inspector da PIDE” de Fernando Gouveia – que nas palavras do autor era um especialista a lidar com comunistas pela forma expedita e violenta como levava os interrogatórios. No interior do PCP o historiador encontrou documentos da época que revelavam preocupações relativamente a possíveis elementos afectos ao regime infiltrados nas células e na direcção do partido, mas nenhum documento em que se possa extrapolar para ter existido uma decisão por parte da direcção de assassinato de um qualquer suspeito de “traição”.
Relativamente a ex-militantes do PCP, só os que aparecem citados em interrogatórios pela PIDE, é que assumem a responsabilidade do partido nos assassinatos. Outros ex-militantes, como Rui Perdigão, defendem a não veracidade da tese que JPP defende.
Ora de uma leitura atenta das fontes temos que, apenas nos documentos e testemunhos que passaram pelo crivo da polícia do antigo regime se pode encontrar referências responsabilidade do PCP nas mortes enunciadas. Desta forma a tese de JPP, e mais uma vez refiro que o meu propósito não é contrapor com outra tese, aparece-nos documentada com fontes que, para além de serem pouco fidedignas (pois sabe-se que muitos documentos da PIDE eram apenas propaganda) não se conseguem cruzar com todos os outros testemunhos que o autor registou.

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2 pensamentos sobre “Tiago Mota Saraiva – CR͍TICA AO III VOLUME DA BIOGRAFIA DE CUNHAL

  1. O blogue chama-se Randomblog02 e não “Ramdomblog02”.
    Cumprimentos
    Tiago Mota Saraiva

  2. Parece-me absolutamente delirante pensar que os autos de declarações prestadas pelos militantes presos, sob tortura, fossem afinal forjados pela PIDE a contar que fossem usados como propaganda um dia em que viesse a haver um 25 de Abril e se pudesse vir a aceder ao arquivo desses autos!…–>

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