No Público de 2/1/2006

“A contestação da classe operária como a única classe verdadeiramente revolucionária, a contestação da sua missão histórica como coveira do capitalismo e criadora da sociedade socialista, a contestação do partido do proletariado de tipo leninista, tornam-se pontos centrais da ideologia e da actividade do radicalismo pequeno burguês de “opção socialista””.

(…) “No plano político, em vez do estudo objectivo e científico dos fenómenos sociais (possível somente na base do marxismo-leninismo), manifesta-se o subjectivismo, a tomada da parte como todo, a tomada de aspectos superficiais, derivados, acidentais e episódicos do desenvolvimento social como se fosse a raiz dos acontecimentos ou a força motora dos processos”.

Estas palavras foram escritas por Álvaro Cunhal em Novembro de 1970. E publicadas clandestinamente em 1971 no livro Radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista. Dirigiam-se, entre outros, ao então “revolucionário” marxista-leninista-estalinista-maoísta José Pacheco Pereira. Assentam que nem uma luva ao actual “historiador”, militante do PPD/PSD e defensor do capitalismo, JPP.
Não cabe no âmbito deste artigo a resposta, ponto por ponto, ao que PP tem vindo a publicar sobre Álvaro Cunhal e o PCP. Por um lado, porque partilho a tese do Álvaro que “Deturpações e falsificações não merecem em geral desmentido.” (in ob. cit.). Por outro, porque entendo que os escritos de PP não são o fim da história. Outros virão…
Os três volumes até agora publicados de Álvaro Cunhal: Uma Biografia Política, têm dado origem a numerosos elogios, nalguns casos desmedidos. São José Almeida e Miguel Portas, para não citar outros, conhecem da história do PCP e da dialéctica da história o suficiente para não serem tão categóricos quanto aos méritos em causa.
Não está em causa a qualidade literária. É sabido que algumas das maiores falsificações da história foram servidas em belas prosas. Veja-se, p. ex., Plutarco sobre Cleópatra.
Não está em causa a capacidade de trabalho. Não me consta que os ideólogos mais retrógrados e reaccionários fossem preguiçosos ou pouco diligentes.
Não está em causa o acesso a arquivos. Que aliás o episódio Suslov bem demonstra. Nos arquivos soviéticos não figuram as suas deslocações ao estrangeiro. E no entanto elas tiveram lugar!
Não estão em causa as fontes. Privilegia-se Vasco Carvalho e a PIDE? É uma opção que nem sequer é virgem.
O que está então em causa? Não é certamente a forma, que é de elevada qualidade.
A questão é de conteúdo. PP não utiliza o método dialéctico, mas sim o silogístico. Não parte da análise concreta da realidade concreta para as conclusões. Não distingue o essencial do secundário. O seu percurso é precisamente o inverso.
Para PP há uma série de teses por ele criadas de antemão que há que demonstrar obrigatoriamente:
– A História do PCP está por fazer. Por parte do PCP, o que existe é sobretudo hagiografia, pontuada por algumas histórias de santos, mártires e vitórias, e por isso mesmo cheia de ensurdecedoras lacunas (Luís Filipe Rocha dixit, mas podia ser PP).
– No PCP houve sempre luta pelo poder. Ela teria sido mesmo o fio condutor da sua actividade política.
– Dirigentes com capacidade só os de origem intelectual (Cunhal e Fogaça). Os outros eram meros tarefeiros.
– O papel da PIDE e da repressão durante o fascismo, nomeadamente no dia a dia dos comunistas, são questões secundárias. Ou quase.
– A verdade é só uma: o PCP não fala verdade. PP sim!
Os factos não correspondem, no essencial, a este esquema? Citemos de novo Álvaro Cunhal:
“Os teorizadores pequeno-burgueses fazem afinal como o maledicente da fábula, que, criticando o projecto de uma casa e pretendendo “provar” que a casa era par toupeiras e não para homens, escondeu que no projecto estavam indicadas largas janelas; e logo afirmou que os arquitectos eram uns utopistas ao indicarem janelas no projecto, pois as toupeiras jamais construiriam casa semelhante. Contra tais argumentos batatas!”.
Como o biografado é Álvaro Cunhal deixemo-lo desmontar algumas das teses queridas a PP e que perpassam linearmente pelos 3 volumes:
Em Junho de 1971 a Revista Internacional publicou um artigo de AC “Algumas experiências de 50 anos de luta do PCP”. PP certamente que o leu.
Nele se apontam as razões do êxito do PCP: partido operário; marxista-leninista; capacidade para se colocar à frente das lutas dos trabalhadores e das massas populares; criação e consolidação da organização clandestina; recurso a formas legais e semi-legais de organização e acção; ter forjado sucessivas gerações de militantes revolucionários; defensor do socialismo e da causa internacional da classe operária.
Mas em relação a todos estes pontos e a cada um deles Álvaro Cunhal aponta os erros cometidos. “Ilude-se e ilude os trabalhadores, qualquer partido que pretenda que nunca erra ou pretenda esconder os próprios erros.”. E mais adiante “Na vida do nosso Partido pagámos caro alguns erros”.
Segue-se uma extensa lista de erros de análise política, de trabalho conspirativo, de métodos de acção e de organização. Ao longo de 50 anos.
O texto escolhido foi este. Mas podia ter sido o Rumo à Vitória, A tendência anarco-liberal no trabalho de organização, os relatórios da actividade do CC ao III, ao IV ou ao VI Congresso. Neles se encontra sempre a mesma análise dialéctica: sucessos e erros, vitórias e derrotas, avanços e recuos, heróis e traidores. Hagiografia? Só para rir!
Das duas uma. Ou o retrato resumido de 50 anos de PCP elaborado por Álvaro Cunhal é uma falácia completa e uma mentira pegada, ou as coisas não se poderiam ter passado como PP nos que fazer crer. Ou ainda, dirão alguns, algures no meio é que está a verdade.
Luta pelo poder para quê?
O PCP era um partido clandestino. Perseguido pelo regime fascista e pela PIDE. Os seus dirigentes e militantes eram assassinados. Ou presos, torturados e condenados a longos anos de prisão. Quanto maior a responsabilidade maior a pena de prisão.
A alternativa era desistir da luta, denunciar camaradas, passar-se para o inimigo. Houve, obviamente, quem o fizesse.
Lê-se PP e fica sem se perceber onde ficava espaço, mesmo temporal, para organizar o PCP, a luta dos trabalhadores, as greves, as manifestações, a distribuição da imprensa clandestina, o derrube do fascismo. Seria apesar de? Especialista em sistemas de comunicação

NOTA: desconhecia a novel capacidade de Miguel Portas para o chavão fácil. Chamar estalinista à nota do Gabinete de Imprensa do PCP é tão anacrónico e redutor como chamar provocador a Pacheco Pereira por nas reuniões estudantis da Academia do Porto fazer discursos inflamados sem ir parar aos calabouços da PIDE.

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2 pensamentos sobre “

  1. Espantoso, este comentário de Vilarigues (atenção: do António, não do Sérgio)! A crer no que nele se lê, os comunistas dos primeiros anos 50 eram uns pacifistas que em caso algum advogavam a violência como arma política, muito menos como “parteira da história”, e as pistolas com que os funcionários andavam armados eram só por que eles eram coleccionadores de objectos exóticos!…

  2. Estes comunistas pensam ser todos uns santinhos, querem fazer crer que todos os portuguêses são parvos. Não percebo porque porque não assumem a sua própia história.

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