“Da música à dança nos 100 anos de Fernando Lopes-Graça”, no Público.

Teatro, dança, documentários, edição de partituras e livros nas comemorações. São muitas as propostas

Os cem anos do nascimento do compositor Fernando Lopes-Graça, que se cumprem a 17 de Dezembro de 2006, vão ser comemorados ao longo do próximo ano com iniciativas que se estendem às mais variadas áreas, desde a música ao teatro e à dança.
“Uma grande diversidade que se destina a responder à dimensão plural e multifacetada de Lopes-Graça”, disse ontem a ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, na sessão de apresentação à imprensa do programa de comemorações, onde esteve também o ministro dos Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva, e o secretário de Estado da Cultura. Mário Vieira de Carvalho qualificou Lopes-Graça como “uma figura nacional que marcou o século XX”.
No programa, a música tem um papel preponderante. O Teatro São Carlos, em colaboração com a Orquestra Sinfónica Portuguesa, realiza cerca de uma dezena de concertos com a obra de Lopes-Graça, destacando-se o concerto de 22 de Julho (Concertino para piano, cordas, metais e percussão e Poema de Dezembro) e 12 de Outubro, que contará com os solistas Ana Bela Chaves (viola) e Salvatore Accardo (violino).
A Casa da Música também se associa às comemorações, com a Orquestra Nacional do Porto a dedicar-lhe o concerto do Dia Mundial da Música (1 Outubro), onde se inclui a primeira audição mundial de Prelúdio, Pastoral e Dança. Em Dezembro, dias 16 e 17, realiza-se a Maratona Lopes-Graça, em que participará o pianista António Rosado com Integral de Sonatas para Piano.
A Companhia Nacional de Bailado vai criar uma produção baseada em obras musicais de Lopes-Graça destinadas à dança para apresentar no início de 2007. Na Comuna, João Mota encenará a peça Lopes-Graça e Amigos, com texto de António Torrado.
A produção de um documentário sobre o compositor pela RTP e a edição de oito CD a partir de 300 registos fonográficos encontrados nos arquivos sonoros da RDP são outras das iniciativas agendadas. Augusto Santos Silva (ministro responsável pelo serviço público de rádio e televisão) referiu que as pesquisas efectuadas para o centenário serviram para “valorizar e preservar o riquíssimo manancial que tem a RDP”, “mais um passo na constituição do arquivo fonográfico português”.
A nível editorial, o Ministério da Cultura vai publicar algumas partituras do compositor, uma vez que muitas delas ainda estão em manuscrito, o que dificulta a interpretação das obras. A edição de uma fotobiografia é outro dos projectos, assim como de volumes da sua correspondência, nomeadamente com o poeta João José Cochofel. A Editorial Caminho está a preparar In Memoriam, uma biografia do compositor com depoimentos de gente que o conheceu e a Cosmos vai compilar textos de Lopes-Graça no livro Reflexões sobre Música.
A inauguração em Abril de um site destinado a divulgar a vida e obra de Fernando Lopes-Graça, que integrará uma rádio on-line onde será possível ouvir a obra gravada é outra das propostas, estando também prevista uma exposição itinerante com vários painéis ilustrativos do seu papel na vida cultural do país. Há ainda iniciativas em Tomar (onde nasceu), Matosinhos e Cascais.
Compositor, maestro e pianista (estudou com Tomás Borba e Vianna da Motta), Lopes-Graça teve vasta produção literária, filosófica e política, tendo publicado ensaios de crítica musical, teatral e de bailado em vários periódicos, como a revista Seara Nova ou o jornal O Diabo. Textos que denotavam a sua militância na oposição ao Estado Novo, contra quem fundou em 1928 o jornal A Acção, em Tomar. Por causa das suas posições, a sua música esteve vários anos interdita e só pôde voltar a ser ouvida no Teatro São Carlos na década de 70. Lopes-Graça morre a 27 de Novembro de 1994 na Parede, Cascais.

Entre a vontade e a timidez
Manuel Pedro Ferreira

O programa comemorativo do centenário de Fernando Lopes-Graça, hoje anunciado pelo Ministério da Cultura, tem muito de bom, sobretudo no plano das intenções, e muito de insuficiente, sobretudo no envolvimento das instituições tuteladas pelo Estado – precisamente um dos aspectos que parece ter merecido mais esforço por parte dos governantes.
A televisão pública limita-se a prometer um documentário e um “ciclo temático”, quando tem em seu poder importantes gravações históricas e toda a série de programas sobre música rural portuguesa em que Lopes-Graça, com Michel Giacometti, devolveu à consciência nacional o seu património musical de tradição oral. Não basta mandar a Antena 2 organizar concertos; deve ser a RTP a dar a conhecer a música, especialmente a portuguesa, como em tempos já fez. O centenário de Lopes-Graça poderia ser a ocasião da retoma desta vertente do serviço público; mas tudo indica que tudo ficará na mesma como a lesma.
Na Casa da Música, a Orquestra Nacional do Porto investe com dignidade nas partituras do homenageado, mas o Remix Ensemble, ou por desconhecimento do valor e da extensão da sua obra de câmara, ou por pruridos relativamente ao conservadorismo da sua escrita, evita comprometer-se com mais do que a inclusão de algumas peças. No Teatro Nacional de São Carlos a Orquestra Sinfónica Portuguesa é envolvida nas comemorações, mas não se prevê participação do Coro (excepto no requiem), nem algo que possa vagamente atrapalhar a programação de ópera (de onde continuam ausentes os compositores portugueses contemporâneos).
A Biblioteca Nacional faz a sua obrigação, com uma mostra documental. Do Centro Cultural de Belém não se ouve nem falar. Ao Instituto das Artes é reservado um papel central, mas a maior parte das iniciativas anunciadas parecem estar numa fase preliminar, e o envolvimento de entidades externas em edições de textos, partituras ou discos aparece com contornos demasiado indefinidos. Sobretudo, desejar-se-ia que o plano das comemorações fosse a face visível de uma estratégia cultural sustentada de divulgação da arte musical e dos seus criadores nacionais, e não uma bolha que rebenta, sem deixar por rasto mais que uma aguadilha. Cabe ao ministério provar, ao longo de 2006, que é nessa estratégia que está empenhado, e não numa episódica homenagem. Afinal seria isso que Lopes-Graça teria desejado.

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