Passou na SIC,no mês de Janeiro de 2005, a série televisiva “Até Amanhã, Camaradas” realizada por Joaquim Leitão.

No jornal Público de 28 de Janeiro Carlos Câmara Lemos e Miguel Madeira entrevistam o realizador sobre o filme e a colaboração de Álvaro Cunhal na sua feitura. Em anexo reproduzem-se quatro testemunhos de clandestinos ( Carlos Costa, Francisco Melo, Joaquim Gomes e Sofia Ferreira) sobre a série.

“Até Amanhã, Camaradas” Vista por Joaquim Leitão: “A Série Está ao Nível do Melhor Que Se Faz na Europa”
Por CARLOS CÂMARA LEME (TEXTO) E MIGUEL MADEIRA (FOTO)
Sexta-feira, 28 de Janeiro de 2005

“Até Amanhã, Camaradas”, a série a partir da obra de Manuel Tiago, pseudónimo de Álvaro Cunhal, é uma aposta de Tino Navarro. É a maior série de televisão portuguesa de sempre. O produtor da MGN optou por uma série de seis episódios de 50 minutos, num total de 300 minutos, devido à complexidade do romance que envolve 140 personagens. Numa primeira fase, a série, filmada em película, esteve nas mãos do realizador Luís Filipe Rocha, autor do argumento, mas o produtor acabou por entregar o projecto a Joaquim Leitão. O realizador de “Adão e Eva”, “Inferno” ou “Tentação” leu o romance “três, quatro vezes” e encontrou-se com Álvaro Cunhal. Hoje e amanhã a SIC vai transmitir os seis episódios da série, às 23h15 e 22h30, três em cada dia.

PÚBLICO – Quando agarrou este projecto já tinha um argumento escrito pelo realizador Luís Filipe Rocha. Isso criou-lhe obstáculos à realização da série ou não?
JOAQUIM LEITÃO – Quando aceitei fazer a série já foi no pressuposto que havia uma janela temporal possível para realizar o projecto. Mesmo que quisesse fazer alterações era impossível. Por isso segui o argumento até porque conhecia bastante bem o livro. O guião respeitava o livro no fundamental, estava perante um bom argumento.

P. – Mas não teve receio nenhum?
R. – Não, foi uma decisão ponderada, não tomei a decisão de ânimo leve nem quanto a aceitar o argumento nem quanto às condições de produção – que eu queria ter a certeza que as teria para fazer a série tal como imaginava. Mas é evidente que sou eu a realizar, e parte de mim está ali na maneira como concebo a vida e o cinema.

P. – Quantas vezes é que leu “Até Amanhã Camaradas”?
R. – Umas três, quatro vezes. Primeiro por curiosidade, depois porque à semelhança de outras pessoas li-o com a ideia de um dia talvez adaptá-lo e desde que me meti neste projecto, já com outros olhos, li-o com uma atenção aos detalhes, às pequenas coisas…

P. – Quantas vezes falou com Álvaro Cunhal sobre o que estava a fazer?
R. – Falei duas vezes por telefone e estive com ele uma vez, pessoalmente.

P. – Em que medida essas conversas foram úteis para si? Ele deu-lhe algumas indicações? Discutiram muito?
R. – Não. As conversas com ele foram muito práticas. Havia certo detalhes sobre as quais eu tinha dúvidas…

P. -… por exemplo?
R. – Logo no princípio havia uma cena em que o Vaz passava por diversos sítios e que, em certa altura, encontrava-se com uma pessoa a quem só dizia uma palavra, cujo significado eu não compreendia. Depois da conversa com Álvaro Cunhal percebi que, para que aquilo se tornasse claro, tinha que fazer muito mais coisas que ninguém, a não ser um círculo muito restrito de pessoas, é que perceberia. E ele sugeriu-me que era melhor não pôr.

P. – Foi fácil a conversa com ele?
R. – Foi, foi… E com todas com todas as pessoas ligadas ao partido. Não tenho razões de queixa: tudo o que perguntei foi-me respondido com a maior das franquezas até para captar o sentimento que as pessoas tinham na altura. Para mim, o essencial disto em termos emocionais era fazer uma opção: ou se fazia uma coisa muito sofrida ou então uma coisa que era a ideia que eu tinha – a vida daquelas pessoas era difícil, dura, mas era uma vida entusiasmante.

P. – Perdura um mistério quanto ao livro ou melhor quanto a uma personagem do livro. O Vaz, o homem da bicicleta, é o próprio Álvaro Cunhal ou não? O escritor Urbano Tavares Rodrigues disse que era uma mistura de Vaz e Ramos…
R. – A essa questão, não posso responder e nem eu sequer a pus nunca até porque isso só me condicionava… Se isso não é evidente da leitura do livro porquê forçar essa via? O que toda a gente me dizia é que as personagens são inspiradas em combinações de várias pessoas. É óbvio que a primeira intuição é ligar o Vaz a Álvaro Cunhal, mas isso é pegar nas coisas muito pela rama…

P. -… e não só a um herói, é um livro muito coral…
R. – Exactamente! Há personagens que vão ganhando força e presença num determinado momento, outras aparecem outras. A única pessoa que podia responder ao mistério era Álvaro Cunhal, mas é uma coisa que não tem grande interesse.

P. – Quais foram os momentos mais difíceis de dar? Os intimistas, as reuniões clandestinas, os encontros, a escolha das paisagens, ou, por exemplo a greve que exige uma maior movimentação mas também mais cuidados para não se cair no fácil?
R. – Havia duas coisas que a leitura do argumento punha como dificuldades: uma é que há muitas reuniões de clandestinidade em que em que as pessoas falam numa linguagem cifrada – e os actores ultrapassaram esse problema com paixão – enquanto que, na questão da greve, a dificuldade era reconstituir um entusiasmo que não é muito bem controlado por cada um de nós. E acho que se conseguiu fazer passar bem para o espectador as duas coisas.

P. – À escala portuguesa, esta é a maior série de sempre. Acha que pode ser uma mudança no audiovisual português ou é apenas um caso isolado?
R. – Também não sei responder a essa pergunta. Só espero que não seja um caso isolado mas um exemplo para que apareceram mais séries feitas por outros realizadores. Mas acho que esta série se for passada daqui a dez anos continuará a funcionar, independentemente da opinião que se tenha dela. Esta série está ao nível do melhor que se faz na produção europeia.

P. – O facto da série ir para o ar em plena campanha eleitoral não terá consequências políticas ao nível no voto no PCP?
R. – É outra pergunta que não sei responder. Até porque a decisão de passar nesta altura não foi minha. O que não dizer que não haja um lado empolgante desta série que tem a ver com a luta do PCP. Agora se isso passará para a actualidade não sei. Veremos… [risos]

Quatro Testemunhos
Sexta-feira, 28 de Janeiro de 2005

Estão umbilicalmente ligados à clandestinidade e viveram de perto algumas das situações descritas em “Até Amanhã Camaradas” (ed. Avante!). Visionaram a série e deram os seus testemunhos ao PÚBLICO.

Carlos Costa

Militante do PCP, participou na fuga de Peniche e esteve na clandestinidade, 76 anos

O livro reflecte de uma forma muito especial a história do país e até a derrota que se estava a reflectir na Europa do Nazismo pelo Exército Vermelho. A série apanha muito bem essa atmosfera. É muito rigorosa e cuidadosa, em particular no olhar que dá do esforço físico e moral dos funcionários clandestinos do partido. Os problemas que o livro podia pôr – sobretudo os pormenores de síntese – são bem ultrapassados. Quanto à vida na clandestinidade e o ar de chumbo que se vivia então é, também, muito bem dado. A escolha dos sítios deve igualmente ter dado um trabalho monstruoso – encontrar uma fábrica de juta, ainda a funcionar, é uma coisa magnífica.

Francisco Melo

Primeiro editor de “Até Amanhã Camaradas” (Edições Avante!), militante do PCP desde 1963, 60 anos

Como editor penso que a adaptação de “Até Amanhã Camaradas”, obra publicada em finais de 1974, segue com fidelidade o argumento e os diálogos devidos a Luís Filipe Rocha com aprovação do autor do romance. Não ignorando a especificidade das linguagens literária e fílmico-televisiva, a minha opinião é que o realizador Joaquim leitão e a sua equipa souberam utilizar de maneira criativa esta última para nos darem uma nova obra de arte que não trai, muito pelo contrário, as características essenciais daquela que lhe deu origem. E isto aplica-se à reconstituição quer política quer humana dos personagens desta gesta histórica dos comunistas portugueses de meados dos anos 40 do século XIX.

Joaquim Gomes

Militante do PCP desde 1932, esteve na clandestinidade desde 1953 até ao 25 de Abril, 87 anos

Quem viveu na clandestinidade, quem esteve preso nas prisões fascistas, quem participou ou dirigiu lutas por melhores condições de vida dos trabalhadores ou dos camponeses, a série surpreendeu-me pelo realismo que dá. As lutas do Ribatejo, descritas na série, são dadas de uma forma fantástica. Não ficando tudo elucidado do que foi o fascismo, a série dá bem o que era a repressão da polícia política mas também a luta do PCP durante todo o tempo em que fascismo existiu.

Sofia Ferreira

Militante do PCP, desde 1944, e na clandestinidade desde 1946 (eleita para o Comité Central em 1957) 82 anos

Não sendo uma personagem parte do romance, é um período muito difícil para o partido. A vida dos funcionários, os seus meios de transporte eram adequados àquela época até porque os meios financeiros eram poucos. O ambiente de conjunto está bem dado pelas reuniões de clandestinidade, pelas relações entre os funcionários e os comités locais. O filme para mim está muito fiel num aspecto, que é o espírito de sacrifício dos camaradas – o Vaz punha até em segundo lugar o seu estado de saúde pelas actividades do partido. Gostei muito da série e sobretudo como é dada a parte repressiva das prisões, o comportamento dos quadros, uns mais duros outros mais fracos, como da reorganização depois da greve. Apreciei, também, muito o papel das mulheres.

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3 pensamentos sobre “

  1. Caro José Pacheco Pereira,

    Felicito-o por destacar este verdadeiro acontecimento televisivo. Gostei imenso de ver o filme de Joaquim Leitão, baseado no livro de Álvaro Cunhal «Até Amanhã, Camaradas», raro momento de bom cinema português, com bons actores, bons enquadramentos de lugares, casas, roupas e com excelente música de fundo, igualmente bem enquadrada. Afinal, a SIC quando quer é capaz de fazer coisas interessantes, para além dos “Malucos do Riso” e das desconchavadas ordinarices do Herman, um astro há muito em queda, no nosso empobrecido meio artístico-humorístico. Com a série apresentada, veio-me à memória um livro que li, vai, talvez, para mais de 20 anos, intitulado «A Sombra», que não encontrei entre a minha desorganizada livraria, mas lembro-me bem de que nele o autor narrava a dureza da vida na clandestinidade dos militantes comunistas, nos anos negros da Ditadura. Pergunto-me por que não se reedita este livro. Espero que não paire sobre ele o mesmo anátema que parece ter caído sobre outros livros importantes para a documentação de períodos e factos da nossa história recente. Refiro-me aos casos estranhos de : «Portugal Amordaçado», de Mário Soares e «Contos Proibidos», de Rui Mateus. Interrogo-me também por que nunca ninguém fala neste assunto, nem mesmo entre a nossa imprensa mais vocacionada para o jornalismo de investigação, como o Expresso, o Público, a Visão e outras publicações com pretensões a certos pergaminhos.
    Usando da sua notável influência mediática, por que não aproveita o Companheiro José Pacheco Pereira o seu «Abrupto» para levantar um pouco o véu a estes casos intrigantes da nossa vida editorial ? Presumo que muitos lhe ficariam gratos pela iniciativa.

  2. Corrijo um pormenor no comentário anterior : A Sombra é de 1993 e, portanto, não tem a antiguidade referida. Devo ter feito confusão com o ano de edição de «Conflitos Sociais nos Campos do Sul», também do mesmo autor, José Pacheco Pereira.

    Mas a questão principal não sofre reformulação : por que não se reeditam os livros mencionados ?

    Há tempos, numa entrevista ao Expresso, Nelson de Matos, já afastado da D.Quixote, confessou ter recebido pressões, quando era seu responsável editorial, para não editar a obra «Contos Proibidos» de Rui Mateus. Na altura, salvo erro em 1995 ou 96, não cedeu e editou mesmo o livro. Entretanto, não mais ele se reeditou, apesar do interesse do tema : a vida interna do PS, descrita por um dos seus fundadores. Como se explica esta lacuna editorial ? E o que se passa com o «Portugal Amordaçado» ? Mistérios por desvendar…
    Esperemos que o mesmo não vá acontecer com «A Sombra – Estudo sobre a clandestinidade comunista».

  3. Rabin Martinie Elodie

    “Cher” José Pacheco Pereira,

    Hà tanto tempo que queria agradecê-lo por me ter ajudado nas minhas pesquisas sobre o PCP ! “Como?!”, deve pensar. Já lhe explico … Francesa (de mãe portuguesa) estudei Português na univ. de letras de Montpellier onde fiz “un mémoire de Maîtrise” em 2001 que se intitula “le PCP pendant la dictature salazariste (1933-1974)” e “un mémoire de DEA” em 2003 intitulado “la presse clandestine communiste de 1960 à 1964: un regard sur la société portugaise du début des années 60″ … Meses de pesquisas complicados (não existe quase nada sobre o PCP cá em França, foi indespensável ir a Portugal)”aliviadas”, “facilitadas” pelos seus livros, pelo seu trabalho !! A biografia sobre o Álvaro Cunhal, “A Sombra” (que felizmente achei na Fnac) permitiram-me de encontrar uma quantidade de dados essenciais (acrescentados aos arquivos da PIDE-DGS, aos arquivos da Fundação Mário Soares, aos livros das edições Avante! e ao “testemunho” de manuel tiago, etc) Muito obrigada !!! Hoje, queria saber se será possível de arranjar os episódios da série baseada no livro “até amanhã camaradas” em DVD ? Não vivendo em Portugal, seria óptimo ter a esperança de poder ver este “evento” tão especial … Mille “merci” pour tout.

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