MORTE DE MANUEL FIRMO, SINDICALISTA, ANARQUISTA E ESPERANTISTA

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Transcrevo do Jornal do Barreiro a notícia da morte em Barcelona de Manuel Firmo (1909-2005)

Faleceu Manuel Firmo (1909-2005)
Figura de barreirense ímpar

Jornal do Barreiro | 03-02-2005
Com 95 anos, faleceu Manuel Firmo em Barcelona, em 29 de Janeiro, ficando sepultado naquela metrópole. Uma queda sofrida em casa, há meses, apressou o triste desenlace. Até ao fim patenteou invejável memória, manifestando já, porém, grandes dificuldades de locução.

Manuel Firmo foi homem de cultura livre, discípulo do ídolo anarquista catalão, fundador da “Escuela Moderna”, Francisco Ferrer, que tantos admiradores teve no Barreiro. O nosso conterrâneo, que procurava ler tudo o que houvesse de melhor na sua época, destacou-se como bibliotecário de agremiações locais, e foi um pilar da LESPA, do Barreiro, a conhecida Sociedade Esperantista, onde chegou a ser professor dessa língua.

Sindicalista dos antigos, do tempo do anarquismo da I República, princípio da II, Manuel Firmo nunca abdicou da sua ideologia de veras liberdades sindicais. No Barreiro foi do grupo “Terra e Liberdade”, que aqui editou o jornal com o mesmo nome entre 1930 e 1931.

Desde logo se posicionou contra os sindicatos corporativos, institucionalizados por Salazar em 1933 e viu-se obrigado a deixar o País “a salto”, no rescaldo do episódio do barco Évora (Maio 1936).

Chegou a Madrid semanas antes da eclosão da sangrenta guerra civil e aí foi secretário da delegação da CGT portuguesa. Passando depois a Barcelona, pertenceu a um batalhão de milícias da CNT/FAI. Ferido por estilhaço de granada, trabalhou depois numa base aérea.

No final da República espanhola (1939), Manuel Firmo e Pepita (que seria a sua companheira de vida) chegaram a pé à fronteira da França (como milhares e milhares de outros fugitivos) onde passaram depois por vários campos de refugiados.

Por temer a transferência para os campos de trabalho forçado na Alemanha nazi, regressou (legalmente) a Portugal. Preso na fronteira da Beirã, em 6 de Agosto de 1941. Foi mais tarde enviado, sem julgamento, para o campo do Tarrafal, em Cabo Verde, em Junho 1942.

De lá regressou após fadário de 3 anos e 7 meses. Ainda residiu por pouco tempo no Barreiro. Rumou depois para Nova Lisboa/Angola, exercendo a antiga profissão de serralheiro ferroviário, depois monitor de segurança. De volta à Europa (1964), radicou-se na Catalunha.

E para os que se interessam pela história do desporto local, há que dizer que Manuel Firmo era desde há anos o decano dos futebolistas barreirenses. Representara, em tempos bem heróicos, o seu querido “Barreirensezinho” (em segundas e terceiras categorias).

Expressamos aqui os nossos mais profundos sentimentos de mágoa a Doña Josefina (Pepita), a esposa adorada que, desde os recuados tempos da Guerra de Espanha, sempre esteve ao lado de Manuel, ou sempre esperou por ele. Também as nossas condolências aos seus familiares que vivem no Barreiro.

Nós, em Barcelona, também registámos lembranças suas, da terra natal e suas gentes. Tinha nascido no Barreiro em 9.9.1909, data que não podíamos esquecer desde que há 6 anos entrámos em contacto com ele. Tencionamos publicar aqui algo bem mais abrangente sobre o currículo ímpar deste barreirense bom, um democrata dos verdadeiros, um autodidacta da velha escola. Vivia já há décadas em Barcelona, mas o Barreiro fica agora mais pobre.

Não tive a oportunidade de conhecer pessoalmente Manuel Firmo, embora tivesse falado com ele várias vezes para Barcelona, durante a preparação de alguns textos seus que, em 2002, tivemos o prazer de publicar no nosso Jornal do Barreiro, a meu convite, e que o deixou muito sensibilizado. Ficam esses artigos a fazer parte da sua bibliografia, e serão incontornáveis, quando, algum dia, a sua obra seja re-editada.

De algumas longas conversas que com ele mantive, fica-me a memória de um democrata indefectível, e de um amante da liberdade sem sombras. Constantemente lhe saiam palavras de amor pelo Barreiro, e recordações do maior interesse para a história da nossa terra, nos seus tempos de juventude, das opressões e das lutas desta gente, que tentava defender a sua dignidade humana.

Deixa-nos para sempre um dos derradeiros tarrafalistas, de que nos legou preciosa memória no seu livro “Nas Trevas da Longa Noite – da Guerra de Espanha ao Campo de Tarrafal”, editado pelas Publicações Europa-América em 1978, e hoje completamente esgotado e a merecer re-edição.

Esta obra ficou como um grande testemunho dessa época e das seguintes, em que ainda teve contacto com a sociedade portuguesa, antes de se fixar definitivamente em Barcelona, junto do amor da sua vida, D. Pepita, que o acompanharia até ao seu último momento.

A sua Esposa e o Barreiro foram as suas grandes paixões.

Ambos ficam de luto, e a ambos dedicamos um período de recolhimento, em meditação pela memória deste infatigável lutador, que, em momento algum, abdicou também do seu profundo amor pela Liberdade, que sempre foi o mais distintivo traço dos Barreirenses.

Miguel de Sousa

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