MORTE DE JOAQUIM CALDEIRA RODRIGUES (1925-2004)

Morreu Joaquim Caldeira Rodrigues, militante do MUDJ e dos “movimentos da Paz”, preso político e , em vésperas do 25 de Abril , militante do MDP.

Junto se transcreve uma biografia publicada no Público, de 31 de Dezembro de 2004, de autoria de São José Almeida:

Caldeira Rodrigues, Um Engenheiro da liberdade
Por SÃO JOSÉ ALMEIDA

Joaquim Ângelo Caldeira Rodrigues, engenheiro, oposicionista ao fascismo e primeiro presidente da Câmara de Lisboa, recebe hoje uma última homenagem, às 11 horas, no Centro Funerário Santa Joana Princesa, em Lisboa, seguindo o corpo para Torres Vedras. Caldeira Rodrigues, falecido anteontem, na sequência de cancro, é pai de Maria João Rodrigues, catedrática do ISCTE, ministro do Emprego no primeiro Governo de Guterres, responsável pela elaboração da Estratégia de Lisboa e consultora do ex-presidente da Comissão Europeia.

Prestigiado activista da oposição à ditadura, Caldeira Rodrigues nasceu a 6 de Dezembro de 1925, em Torres Vedras. Revelando capacidades de activismo cívico desde cedo, concluiu o ensino secundário já em Lisboa, no Liceu Camões, tirando 20 a matemática. Ingressa no Instituto Superior Técnico, em 1942, onde desenvolve o seu pendor activista no movimento associativo. Em 1950, licenciou-se em Engenharia Civil, especializando-se em planeamento e estruturas hidráulicas, dando início à sua preparação numa área onde viria a notabilizar-se.

Uma carreira que é brindada em 1989/90 com o cargo de director da Associação Portuguesa de Projectistas e Consultores e com a sua presidência entre 1991-93. A sua carreira desenvolveu-se internacionalmente, sobretudo depois de, em 1962, ser um dos sócios fundadores da COBA – Consultores para Obras, Barragens e Planeamento, S.A., de que foi primeiro director e, depois, administrador. Este patamar de prestígio profissional foi atingido depois de ter integrado a Hidrotécnica Portuguesa no Serviço de Estruturas e a Companhia das Águas de Lisboa.

Entre as obras públicas da sua responsabilidade destacam-se várias barragens, projectos de aproveitamento hidroeléctricos, hidroagrícola e hidroenergético em Portugal, Brasil, Moçambique, Costa Rica, Grécia e Espanha, os circuitos hidráulicos de refrigeração da Central do Carregado e da Central Térmica de Setúbal, o plano geral de abastecimento de água à Região de Lisboa, o estudo de caracterização do sistema actual de exploração da EPAL.

Foi precisamente o seu prestígio como engenheiro ligado às obras públicas, para além da sua militância em prole da democracia e da liberdade, que estiveram na origem do convite que lhe foi dirigido, em Agosto de 1974, para presidir à comissão administrativa da Câmara Municipal de Lisboa, presidência que exerce até meados de Novembro de 1975 (ver caixa).

Caldeira Rodrigues, então militante do MDP, era também um conhecido oposicionista ao fascismo com créditos firmado logo em 1942 com a sua adesão ao MUNAF (Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista). Mas é no MUD Juvenil (Movimento de Unidade Democrática), a que adere em 1947 e cuja comissão central integra, que Caldeira Rodrigues se distingue. Tal como no Movimento para a Paz, em 1950, liderado por Maria Lamas e Manuel Valadares.

As suas actividades contra a ditadura levaram-no por duas vezes à prisão política. A primeira prisão, em Caxias, dá-se em 1947, na sequência da Semana da Juventude, que leva à cadeia toda a comissão central do MUD Juvenil. A segunda prisão, surge em 1951. Caldeira Rodrigues encontra-se entre a cerca de meia centena de activistas que esperavam Maria Lamas no aeroporto de Lisboa. Aliás, Caldeira Rodrigues envolveu-se de tal forma nos movimentos pela paz do pós-guerra que decidiu ir com a mulher ao Congresso da Paz, em Estocolmo, onde conheceu então figuras de quem ficaria amigo, como Jorge Amado.

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