De um leitor dos Estudos recebemos o seguinte testemunho sobre uma tentativa de fazer uma exposição sobre a guerra, organizada pela Juventude Escolar Católica, no Liceu Gil Vicente em Lisboa:

Estávamos nos idos anos de sessenta e frequentava o Liceu Nacional de Gil Vicente, em Lisboa.

Fazia parte da JEC ( Juventude Escolar Católica), núcleo do Gil Vicente.

A JEC era uma estrutura com alguma implantação no meio liceal e, se bem que vocacionada para a componente religiosa, não descurava a vivência do meio social em que se inseria.

Atentos que estávamos ao dia a dia, quer no domínio nacional ( a guerra colonial tudo sorvia), quer no domínio internacional ( o “Vietname” estava a matar, a África colonial inglesa, belga, francesa estava a ferver, a Argélia em ebulição, etc.), resolvemos fazer uma exposição sobre os malefícios das guerras, ajudados pelos padres de Religião e Moral afectados à JEC e, constando de textos da nossa autoria e de fotos que órgãos de informação nacionais e internacionais publicavam.

Naturalmente que a guerra nas colónias portuguesas era abordada, entre as outras, sem qualquer destaque especial.

A muito custo e, com muito trabalho lá foi inaugurada a exposição, na salão anexo à biblioteca, com o acordo e beneplácito do Reitor.

Não sei porquê nem porque não, os organizadores da exposição ( entre os quais eu, os meus colegas e os padres da JEC), fomos no dia seguinte chamados à presença do Reitor que, lamentando a decisão, nos pedia para retirar imediatamente a exposição, pois aquela não agradava à PIDE.

A exposição morria assim à nascença.

A PIDE era, sem dúvida, uma organização bem oleada, com olhos e ouvidos em todo o lugar.

A sua “dedicação” à coisa pública, melhor seria dizer ao Estado Novo, era absoluta.

Juntamente com o outro braço “intelectual” do Regime, a Censura, zelavam pela “Segurança e pelos Bons Costumes” da sociedade (deles).

É uma vivência pessoal, sem nenhum outro valor que não seja o de lembrar que a PIDE existiu e que fazia coisas que hoje nos fazem sorrir ( a quem a sentiu) e duvidar a quem nasceu depois da sua “morte”.

O que contei não foi protagonizado por “perigosos agitadores subversivos” ou por utópicos “pacifistas”. Eram apenas rapazes portugueses que mostravam aos colegas uma realidade, com a qual, como cristãos e católicos, não concordavam.

O nosso “erro” foi demonstrar publicamente que não concordávamos e, por isso, seríamos um mau exemplo. “

(Rui Silva)

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