MORTE DE FRANCISCO LYON DE CASTRO

Morreu Francisco Lyon de Castro, antigo tipografo, depois empresário da edição, militante comunista nos anos trinta, activista da oposição, criador de jornais, homem de uma enorme actividade em todas as áreas que tocava.

Era meu amigo há muitos anos, foi editor de um livro meu sobre as lutas sociais nos campos do sul de Portugal, e os seus depoimentos exaustivos sobre o PCP nos anos trinta, sobre os exilados portugueses em Espanha, sobre personalidades do partido que conhecera, sobre Manuel Domingues, sobre o combate do PCP à Ler, etc., etc., contribuíram para a elaboração dos volumes sobre Cunhal. Muitos materiais e notas das suas conversas permanecem inéditos, uma parte dos quais fará parte de um capítulo já escrito do III volume da biografia de Cunhal sobre o papel da Ler e de Piteira Santos.

A foto junta foi tirada em 2001 junto das instalações da Europa-América, obra de que tinha imenso orgulho.
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No jornal Público de 12/4/2004 encontra-se uma biografia feita por António Melo

Francisco Lyon de Castro
Por POR ANTÓNIO MELO

A morte do velho leão

Tinha 89 anos, mas só os médicos diziam que estava mal. Quem com ele falava, depois de uma sessão hospitalar e uma noite de repouso, duvidava do saber da medicina – aquele pequeno homem chamuscava dos olhos, deitava energia por todos os poros. Afinal, a ciência tinha razão. Mas até quase ao último dia, Francisco Lyon de Castro opinou, comentou, subiu perigosamente ao escadote para retirar da estante um livro, um documento único, que ele sabiamente arquivara e fundamentava o parecer político que acabara de expor. Desapareceu ontem um dos derradeiros expoentes da cultura operária do início do século XX. O velório tem lugar hoje na sede das Publicações Europa-América, em Mem Martins, o funeral realiza-se amanhã, seguindo para o cemitério de Rio de Mouro.

Nascida em berço proudhoniano, embalada no socialismo utópico nos braços de Antero de Quental, a classe operária portuguesa forjou-se, na passagem do século, no anarco-sindicalismo e foi nesse cadinho que o jovem Lyon de Castro, aos 14 anos, fez a sua entrada numa das “universidades” operárias: a Imprensa Nacional.

Se bem que nas suas origens se misturasse sangue da mais distinta nobreza britânica, desde cedo a vida deste benjamim de uma família de nove filhos se fez nas andanças da rua, mas sempre no espartilho de uma vigilante educação materna. Francisco Lyon de Castro nasceu no dia 24 de Outubro de 1914, ao Largo da Estrela, em Lisboa, e cresceu a jogar à bola no terreiro frente ao cemitério dos Prazeres. Uma das mais fortes imagens que lhe ficou dessa mocidade de bairro popular foi a dos mortos da intentona do 7 de Fevereiro (1927), a serem levados para aquela sepultura.

O pai, Adelino de Castro, viera de Óbidos para Lisboa à procura de melhor sustento para a numerosa família. A mãe, Rosalina Lyon de Castro, era filha de um escocês, Edouard Lyon, que arribara a Óbidos na administração dos trabalhos de construção da via férrea.

O aprendiz que aos 14 anos entrou para a Imprensa Nacional passou a jornalista e tipógrafo aos 18 – “jornalista operário”, fazia questão de sublinhar. A cultura operária da Imprensa Nacional era de raiz anarco-sindicalista, mas, alto centro de discussão ideológica, já fazia furor nessa altura a corrente marxista-leninista. Em 1932, ao mesmo tempo que entra no “jornalismo operário”, Lyon de Castro filia-se no Partido Comunista.

No jardim do Príncipe Real, onde se reunia com camaradas da Imprensa Nacional, mas onde apareciam também operários do Arsenal da Marinha e do Exército, principiou a estruturar uma célula de rua, para a qual recrutou, um ano mais tarde, Júlio Fogaça, figura central na “reorganização” do Partido Comunista, no início dos anos 40. Precisamente na altura em que Lyon de Castro rompia com a disciplina estalinista, incapaz de aceitar o pacto germano-soviético.

Em 1934, para escapar às perseguições que se seguiram ao levantamento sindical do 18 de Janeiro, exilou-se em Madrid, primeiro, e em Paris. A intenção era seguir para a União Soviética, mas a direcção do PCP opôs-se ao seu pedido e no final do ano de 1935 regressa ao país, em clandestinidade.

Foi enviado para Peniche e, a seguir, para a fortaleza de Angra do Heroísmo, condenado a uma pena de quatro anos de prisão. Foi em Angra que estalou a discussão, seca e curta, que o levou ao afastamento do PCP. Na origem do corte esteve a discordância, “inultrapassável” do pacto germano-soviético [Agosto 1939]. “Como é possível que a União Soviética, país da revolução, possa entender-se com um criminoso confesso, chamado Hitler? Se os camaradas acham que é natural uma aliança com o regime nazi, então passem bem. A partir daí ocupei-me em perceber as razões intrenas que levaram àquela aliança contra-natura e não mais tive recaídas. Fiquei vacinado em relação a estruturas partidárias”, dizia.

Uma editora no fio da lâmina

Em 1940, quando regressou a Lisboa, foi-lhe recusada a readmissão na Imprensa Nacional. Acolheu-se então à asa paterna e durante cinco anos trabalhou na pequena empresa familiar.

Mas o cheiro que lhe ficara de tinta fresca impressa no papel nunca mais o deixou e aos 29 anos lançou as bases daquele que viria a ser, ainda hoje, um dos mais fortes empreendimentos editoriais portugueses – as Publicações Europa-América. O primeiro livro a sair do prelo foi “Centelha da Vida”, de Erich Maria Remarque, que tinha por tema a vida clandestina e foi bem aceite pelo público. Pouco depois, do mesmo autor, saiu “A Oeste Nada de Novo”, um dos primeiros êxitos editoriais da Europa-América, que durante os primeiros anos viveu no fio da lâmina, as vendas de um livro sustentando a publicação do seguinte. Antes do 25 de Abril editou autores “proibidos” como Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol, García Márquez e Jorge Amado, de quem era amigo.

O seu orgulho pessoal, porém, foi a revista “Ler”, projecto de jornal literário e de ideias que fundou, dirigiu e subvencionou de Abril de 1952 a Outubro de 1953. O modelo era o suplemento literário do “Times”, referência de um jornalismo conservador mas isento de influências políticas e pressões económicas. O naipe de colaboradores fixos eram, ou tinham sido, próximos do PCP, mas eram, antes de mais, espíritos independentes: Piteira Santos, João José Cochofel, Cardoso Pires, Maria Lamas, Mário Dionísio. Havia outros, de outras essências filosóficas, mas todos conhecidos pela sua capacidade intelectual e crítica: António Quadros, Delfim Santos, José Régio, Orlando Ribeiro, Tomás Ribas.

A “Ler” passou a ser a referência da elite intelectual e criou em torno de si um cenáculo de reflexão política. Foi por isso combatida, desde logo, quer pelas instituições do regime, quer pelo PCP, que detestavam, cada um a seu modo, os espíritos independentes.

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2 pensamentos sobre “MORTE DE FRANCISCO LYON DE CASTRO

  1. Há pessoas cuja presença é exclamação: na adolescência “vou trabalhar,deve-se trabalhar!”,para na juventude gritar “amigos,colegas na vida, meus camaradas,existamos dignamente,digamo-lo bem alto falando na primeira pessoa NÓS!”.Adulto-jovem: “caramba,a tirania daquele homem arrepia-me!”,para mais maduro,pouco depois,horrorizado exclamar “como é que eles foram capazes de se juntar àquele criminoso !”.Já o havia dito, quando por fim,adulto,o disse de vez “saiam da minha vista, desapareçam, já nem lamento,mas vão passear!”.Declarou então “Sei enfim o que tenho a fazer:fui,quiz permanecer operário,aquele que transforma a matéria prima em coisa útil. Pois bem,escolho alguns textos para que os leiam e deixem de encarar tudo como até então!”.Voltou ao entusiasmo algo mlitante da juventude e Exclamou não sei como:”deu resultado!vou continuar.” Fê-lo.
    Exclamou há dias.
    Ignoro porém se nessa altura,olhando à sua volta,tenha ainda exclamado ao achar que a sua obra era boa, mas duvido.

  2. Há pessoas cuja presença é exclamação: na adolescência “vou trabalhar,deve-se trabalhar!”,para na juventude gritar “amigos,colegas na vida, meus camaradas,existamos dignamente,digamo-lo bem alto falando na primeira pessoa NÓS!”.Adulto-jovem: “caramba,a tirania daquele homem arrepia-me!”,para mais maduro,pouco depois,horrorizado exclamar “como é que eles foram capazes de se juntar àquele criminoso !”.Já o havia dito, quando por fim,adulto,o disse de vez “saiam da minha vista, desapareçam, já nem lamento,mas vão passear!”.Declarou então “Sei enfim o que tenho a fazer:fui,quiz permanecer operário,aquele que transforma a matéria prima em coisa útil. Pois bem,escolho alguns textos para que os leiam e deixem de encarar tudo como até então!”.Voltou ao entusiasmo algo mlitante da juventude e Exclamou não sei como:”deu resultado!vou continuar.” Fê-lo.
    Exclamou há dias.
    Ignoro porém se nessa altura,olhando à sua volta,tenha ainda exclamado ao achar que a sua obra era boa, mas duvido.

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