Terminei recentemente a leitura dos três livros editados pela le cherche midi (colletion Documents), relacionados com a vida de Jacques Rossi. Os livros chamam-se Le Manuel du Goulag (1997), Qu’elle était belle cette utopie (2000) e Jacques le Français (2002) e tiveram efeitos de choque que permaneceram desde a primeira à última linha.

Jacques Rossi é uma personagem real e peculiar. Franco-polaco, filho de pais franceses, nascido em França em 1909, foi levado de tenra idade para a Polónia onde viveu com a mãe e um padrasto polaco que o perfilhou e foi educado numa casa senhorial pois o padrasto era um aristocrata latifundiário. Estudante universitário, aos 17 anos aderiu ao Partido Comunista Polaco, então na clandestinidade, acabando por ser preso pela polícia do ditador Pilsudski.

Jacques consegue fugir para a Checoslováquia e inicia uma carreira de militante comunista internacionalista. É recrutado para trabalhar nos serviços de informação do Komintern e inicia uma carreira que iria durar 10 anos de agente secreto com a tarefa de servir de correio de mensagens secretas em todo o mundo, sempre sob falsas identidades. Enquanto agente secreto, Jacques obtém vários diplomas universitários com identidades que lhe são alheias (em belas artes e civilizações orientais), torna-se poliglota (domina francês, inglês, alemão, polaco, russo, espanhol, italiano, persa e outras línguas orientais) e desempenha múltiplos papéis de disfarce. Em dado momento, apercebe-se que foi transferido (sem disso ter sido formalmente informado) dos serviços de informação do Komintern para o GRU (serviços secretos do Exército Vermelho) mas isso em nada o afecta pois a causa era a mesma.

Em 1937, em plena guerra civil espanhola, é enviado para a zona franquista (Valladolid) onde, sob o disfarce de diplomata nicaraguense, obtém informações sobre as actividades franquistas que a sua camarada Julita (de quem desconhece a identidade mas supõe tratar-se de uma austríaca devido ao sotaque com que fala o alemão) e sua esposa segundo o disfarce, transmite por rádio para os serviços secretos soviéticos instalados no lado republicano.

Num certo dia do final de 1937, chega uma mensagem rádio da Central ordenando a apresentação imediata de Jacques em Moscovo para desempenho de nova tarefa. ¿Julita¿ tenta dissuadir Jacques de viajar para Moscovo (em 1936 havia começado a Grande Purga) mas este, disciplinado militante revolucionário, cumpre a ordem e segue de imediato para a Capital do Comunismo.

Chegado a Moscovo, pleno das energias próprias dos 28 anos de idade, Jacques apresenta-se no seu serviço disposto a cumprir nova missão e novas odisseias clandestinas. Estranha o tratamento frio dos camaradas que o atendem e mais ainda o facto de lhe dizerem que o seu chefe (um comunista polaco chamado Kraietski) já não estava ao serviço (saberia mais tarde que havia sido preso e fuzilado).

Decorrem os dias e as semanas, vão-lhe indicando vários sítios para habitar e continua sem resposta quanto ao seu destino. Um dia, é finalmente recebido pelo substituto de Kraietski que acusa o seu antecessor de ser um traidor e um espião e indica a Jacques que deve acompanhar um tal camarada Ivan que o levará para o local de treino da sua nova missão. A viagem de automóvel com o camarada Ivan termina dentro da prisão de Loubianka de onde transitará para a prisão de Boutirka. Jacques espera calmamente saber de que é acusado para, como julga inevitável, desfazer o mal entendido. Para ele, o pior é então ter de partilhar as celas a abarrotar com tantos inimigos do povo.

Ao fim de nove meses de prisão, Jacques é finalmente levado à presença de um comissário-interrogador (esta figura estava integrada na estrutura policial e não de qualquer elo do aparelho judiciário). O comissário começa por propor a Jacques que indique qual o crime que cometeu. Este diz que não cometeu qualquer crime. O comissário indica-lhe que ele é acusado de ser um espião franco-polaco e tudo tem a ganhar em confessar as suas actividades de espionagem. Jacques reitera a sua inocência e segue-se um calvário de várias semanas em que apelos à confissão são entremeados com sessões de tortura de estátua e de sono (algumas durando uma semana) e de espancamentos.

Em 7 de Abril de 1939 (dezasseis meses após o início da sua prisão preventiva), Jacques é informado que tinha sido condenado pela OSSO (órgão não judiciário e pertencente à Segurança do Estado) – sem que estivesse presente durante a sessão de julgamento – a oito anos de trabalhos forçados no Gulag.

Jacques inicia a via sacra do internamento para trabalho de reeducação em vários campos de concentração na Sibéria e acima do Círculo Polar Ártico onde vai executando diversos trabalhos penosos sob miseráveis condições de alojamento e de alimentação e em condições climatéricas terríveis.

No final de 1945, chegou ao fim a pena que lhe havia sido aplicada pela OSSO. É-lhe então aplicada a circular nº 224 que permite o prolongamento de encarceramento até disposição especial.

Em 1947, é solto do campo de Norilsk mas obrigado a viver nesta cidade e apresentar-se regularmente nas instalações policiais. Jacques contacta várias Embaixadas a fim de obter visto que lhe permita sair da União Soviética. As suas cartas para as Embaixadas são interceptadas pela polícia, é preso de novo e condenado a mais vinte e cinco anos de trabalhos no Gulag.

Feitas as contas, Jacques deveria ser libertado apenas em 1972. Ou seja, preso aos 28 anos, Jacques voltaria à liberdade apenas quando contasse com 63 anos de idade!

Mas, em 1956 e na sequência do XX Congresso do PCUS, com 48 anos de idade, Jacques é libertado e é-lhe passado um certificado onde consta a sua reabilitação e isento de ter cometido qualquer crime ou falta para com a União Soviética. Para trás, ficavam 20 anos de reclusão por uma falsa acusação. E pela frente? A liberdade? Mais devagar, apesar do XX Congresso¿ Onde viver? No estrangeiro, nem pensar. Negativo. Nas principais cidades soviéticas, isso é que era bom. Negativo. Acabou por lhe ser fixada residência em Samarkand no extremo oriental da União Soviética!

Jacques não desiste de ir para o estrangeiro. Goradas todas as tentativas para lhe ser autorizado o regresso à sua Pátria (França), Jacques explora a hipótese de obter visto para voltar à Polónia de que fugira das prisões de Pilsudski com 18 anos de idade, agora uma democracia popular sob controlo soviético.

Em 1961, com 52 anos de idade, Jacques consegue sair da União Soviética e ir para a Polónia (onde foi reintegrado no Partido Comunista e nomeado membro do seu Comité Central) . Aí vive até 1985, ano em que se fixa em França e readquire a nacionalidade francesa. Até 2002, ano em que perfez a idade de 93 anos e a saúde lhe permitiu, Jacques dedicou-se a escrever as suas memórias e vários depoimentos e relatos, além de correr o mundo a dar conferências a relatar a sua experiência gulagiana.

Nas suas memórias e crónicas, Jacques faz relatos vivos e impressivos sobre a tragédia que representou a monstruosidade do Gulag e que destruiu a vida de milhões de seres humanos. E, no Gulag, pereceram (uns fisicamente, outros ficaram para sempre afectados pelo sofrimento psíquico devido a longos e duros anos de cativeiro) homens e mulheres pela simples razão de pertencerem à classe errada (a classe social que o sistema bolchevique queria destruir), a nacionalidades e etnias suspeitas de infidelidade ao sistema soviética. Ou, então, serem fiéis militantes comunistas apanhados na contabilidade das quotas dos inimigos internos a abater (na sua maior parte, bolcheviques da primeira hora e companheiros de Lenine), bem como os que tinham a má sina de serem casadas com ¿inimigos do povo¿ ou seus filhos, aqueles que tinham dificuldades na integração na disciplina e estrutura de funcionamento totalitário do sistema até aos muitos milhares de vítimas naives que eram encarceradas por razões pueris ou derivadas da estupidez burocrática de polícias todos poderosos e que tentava fazer do aumento do número de prisioneiros a demonstração da sua fé comunista e evitar que lhes calhasse a vez de serem fuzilados ou penarem no Gulag. Jacques, através dos seus relatos, dá-nos conta da monstruosidade do seu sofrimento mas traz também para a boca de cena outros (muitos) prisioneiros que foi encontrando e as suas histórias cruéis.

Para quem pertence a uma geração politizada no escalpe do horror do Holocausto e da máquina nazi de destruição e em que o Nazi-Fascismo incarnou o Mal Absoluto (papel agora transferido para a Globalização e para a América Imperial) e que gerou o paradigma do Antifascismo (e do Anti-imperialismo), segundo o qual denunciar os soviéticos (ou, hoje, denunciar a ditadura castrista) seria (é) uma forma de fazer o jogo dos fascistas, dos imperialistas e dos capitalistas, é preciso estômago e coragem para olhar o Gulag de frente devido à muita vergonha acumulada pelos silêncios em que se virou o olhar e se calou a repugnância e a denúncia.

(Transcrito, com autorização do autor, de Botaacima)

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Um pensamento sobre “

  1. Você continua a demonstrar avidamente o seu ódio irracional a tudo o que diga respeito aos comunistas ou à Grande Pátria dos Trabalhadores, JPP!
    Babuja com a sua raiva cega todas as realizações e conquistas únicas na história da humanidade, sobre as quais ninguém o ouve dizer uma palavra, como devia fazer um investigador imparcial, coisa que se ufana de ser.
    A única explicação possível é que seja vítima da psicologia do renegado, odiando ardentemente os que considerou como camaradas.
    Liberte-se disso! Na sua idade já lhe fica mal…

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