Por indicação do seu autor, João Tunes no blogue Botaacima, reproduzo este “EM MEMÓRIA DO ANTÓNIO GRAÇA “. João Tines lenbra António Graça, “antigo funcionário clandestino do PCP, membro da Comissão de Extinção da ex-Pide/DGS, reponsável pelos serviços de informações da direcção do PCP após o 25 de abril e membro (“clandestino”) do Comité Central durante largos anos. Foi um dos íntimos de Cunhal e depois um dos seus rivais políticos. Foi dissidente na “Terceira Via” e faleceu há alguns anos.” Faz um apelo que secundamos

Não sei mais sobre o António Graça do que aquilo que testemunhei no meu blog. Mas acho que era uma figura de interesse para descobrir as várias facetas do seu passado de antes e de depois do 25 de Abri. Sempre foi um dos heróis do PCP…!!!

Transcrevo o texto , com agradecimentos ao seu autor:

Estatura baixa, aspecto frágil, cabelos muito encaracolados e completamente brancos, lentes muito grossas por trás dos óculos que dominavam o rosto. Carregou, no corpo e na alma, os traços de muitos anos de clandestinidade, porrada brava dada pela Pide em inumeráveis sessões de tortura sem o conseguirem rachar e muito tempo de cativeiro em Caxias e em Peniche. A dureza da vida de clandestino e de preso político não lhe tiraram a curiosidade pela vida, a frescura e a ânsia dos afectos. Amou as mulheres que foi tendo e as filhas que foi fazendo. Adorava ter amigos à sua volta, com comes e bebes para alimentarem a fraternidade e as rodas intermináveis de cavaqueiras e de procuras incessante dos caminhos que evitassem os becos sem saída. No meio de tudo e de tanto que o que o António era, até nos esquecíamos que ela era um Dirigente. Porque o António Graça era membro do Comité Central.

A vizinhança e a empatia permitiram o convívio a miúdo e o melhor conhecimento, cruzando famílias, amigos e cumplicidades.

Muitas foram as noites desfiadas até perto da alvorada a ouvir o António. Com uma memória prodigiosa e uma experiência riquíssima, ouvi-lo era como que ouvir uma parte importante da história da resistência à ditadura. Desfiava factos e pessoas mas só referia aspectos precisos, tudo aquilo que tivesse sido confirmado, provado e fosse inquestionável. Para mais, o António parecia que conhecia toda a gente. Em grande parte, aqueles ficheiros imensos e armazenados tinham a ver com a sua tarefa de responsável pelos serviços de informação do PCP.

Foi clandestino antes do 25 de Abril, depois, pela natureza da sua missão partidária, o António foi uma espécie de semi-clandestino. Reconduzido como membro do Comité Central após vários congressos, para o retirar da ribalta pública e não se assumir que o Partido tinha um serviço de informações, o António nunca era eleito durante os congressos, era sempre cooptado segundo uma quota criada internamente para o efeito. Estratagema criado para ele e para outros (aqueles que controlavam os militares, dirigentes da CGTP e alguns outros). Foi através do caso dele que soube que nem os militantes nem o povo conheciam a composição total do Comité Central. Os cooptados, durante as reuniões oficiais, eram mantidos à parte noutra sala durante o tempo em que os jornalistas entravam no consistório para olharem os dirigentes e lhes tirarem as fotografias da praxe. E os membros cooptados nunca eram referidos publicamente como dirigentes do Partido. Fazia parte das regras conspiratórias cumpridas mesmo em democracia.

Durante a clandestinidade, tinha sido responsável pela margem sul. Quantas vezes, o António não me apontava para este ou aquele prédio surgido na febre do betão e me dizia: olha, aqui havia um pinheiro onde eu costumava pregar um aviso para a confirmação da realização de um encontro clandestino. A seguir a 1962, teve problemas pois advogou a passagem a formas superiores de luta contra o fascismo (luta armada) e foi integrado no rol dos que se tiveram de se autocriticarem por desvio de esquerda. E foi, por um triz, que a Pide não o apanhou numa casa cheia, até ao teto, com rolos de dinamite.

Tornou-se crítico da direcção e sobretudo do despotismo magestático e estalinista de Cunhal. Foi a alma inspiradora da Terceira Via que agregou muita gente, o máximo de gente que uma dissidência no PCP jamais aglutinou. Teve os seus passos e a sua casa, vigiados por fiéis da direcção. Outros vigilantes tinham sucedido aos pides para vigiarem os movimentos e as relações do António. Acompanhei-o nesse projecto. Criticou-me quando abandonei as hostes partidárias por não estar para aturar insultos e suspeições sempre que defendia a liberdade de se apresentarem teses alternativas ao Congresso ou o voto secreto contra o sagrado voto de mão levantada, sobretudo não aguentei mais a companhia de dirigentes que me convocavam à Sede para inquéritos policiais sobre as minhas relações e informações. Ele achava que o património do PCP não podia ficar entregue aos estalinistas, eu entendia que aquele estalinismo era congénito. Mas, embora mais tarde que eu, também acabou por lhe chegar a hora de dizer basta e bater com a porta.

Não quis acompanhar a caminhada da maior parte dos terceiras vias que foram até ao PS. Idem quanto aos grupos que levaram até ao Bloco de Esquerda. Nisso, mantivemo-nos sempre no mesmo barco.

Fora do PCP, recusando apoios de novos mandarins no PS, aos 55 anos de idade, o António meteu-se no mercado de trabalho para sobreviver. Passei a vê-lo menos vezes. Trabalhava que nem desalmado numa agência de composição gráfica para ganhar a bucha. As vezes que o via, perguntava-lhe quando passava a escrito o muito que aquela memória tinha armazenado. Ria-se e dizia que não tinha tempo.

Um lamentável equívoco não me permitiu acompanhar o António à sua última morada. Uma notícia de jornal dizia que o corpo sairia de Benfica e afinal o funeral partiu de Belém.

Resta-me a memória do António Graça e a saudade de o ouvir e de lhe dar um abraço. “

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