Manuel Villaverde Cabral – SOBRE O II VOLUME DA BIOGRAFIA DE CUNHAL

Graças à notoriedade do autor e do biografado, o primeiro volume da biografia de Álvaro Cunhal publicado por José Pacheco Pereira (JPP) foi êxito editorial (Álvaro Cunhal: uma biografia política. “Daniel”, o jovem revolucionário (1913-1941), Temas e Debates, Lisboa, 1999). Mas a verdade é que talvez não lhe tenha sido feita toda a justiça, nomeadamente nos meios académicos. Para além das distracções habituais, há algumas razões para isso. O livro é extenso e convoca uma época e um conjunto de personagens que a maior parte dos Portugueses não conhece e muitos não querem conhecer. O período coberto pelo volume – basicamente, os anos 30 do século passado – corresponde a uma época verdadeiramente negra da nossa história e nem os próprios protagonistas do livro – Álvaro Cunhal e os seus camaradas do PCP – parecem demasiado interessados em recordá-la.

E todavia, ele merece a todos os títulos a atenção dos historiadores, para não falar de quem se interessa pela vida política e cultural do país. Trata-se, com efeito, de um grande livro. Era sabido que o autor há muito se vinha dedicando à pesquisa sobre a história do PCP e do movimento internacional em que o partido cedo se integrou. Mas podia recear-se que as múltiplas actividades públicas de JPP o tivessem desviado daquele trabalho. Não foi o caso. Depois da importante mas efémera revista Estudos sobre o Comunismo, o primeiro volume da biografia de Álvaro Cunhal confirmou o melhor que se podia esperar das anteriores pesquisas do autor.

Com a extensão e a minúcia de uma investigação universitária, o livro tem contudo o fôlego e o ritmo de um romance. E lê-se como tal. Abdicando de um elaborado enquadramento histórico e sociológico lhe teria dado, porventura, mais consistência, a opção de JPP pela narrativa biográfica de Álvaro Cunhal e dos seus camaradas permitiu-lhe, em contrapartida, reconstituir “outro Portugal” – esse Portugal virtualmente ignorado que resistiu com tenacidade e heroísmo à violência da instauração do fascismo, à propaganda triunfalista do novo regime e à sua brutal repressão, à prisão, à tortura, à deportação e ao assassinato. Neste sentido, o livro chegava a ter algo de patriótico, no melhor sentido da palavra, ao contribuir para restaurar alguma auto-estima perdida pelos Portugueses durante décadas de submissão à ditadura.

E conseguia outra coisa notável. Sem deixar de denunciar frontalmente aquilo que lhe parece criticável nas actividades do PCP, da Internacional Comunista e do próprio Cunhal, JPP mantém ao longo do livro uma exemplar corrente de empatia crítica com os seus personagens. É de prever que Álvaro Cunhal nunca se pronuncie publicamente sobre esta biografia, mas lá no íntimo ficou com certeza lisonjeado com o lugar que JPP lhe reconhece na história da sua geração e, afinal, do próprio país. E terá de admitir também o rigor com que o biógrafo se absteve de qualquer incursão desnecessária na vida privada do biografado.

Em contrapartida, apesar da finura e minúcia com que o autor tentou reconstituir o ambiente familiar e a sua influência na formação do jovem Cunhal, tenho algumas dúvidas quanto às motivações de índole psicanalítica que JPP por vezes lhe atribui. Em compensação, parece-me excelente e verosímil o perfil psicológico que ele traça do biografado: um jovem invulgarmente dotado, cuja fibra e mesmo dureza o seleccionaram, ao cabo de poucos anos de militância incondicional, para o tremendo lugar de líder de um pequeno partido clandestino e isolado não só na sociedade portuguesa da época como na própria organização internacional em que o PCP sempre pretendeu integrar-se.

JPP não deixa dúvidas quanto às excepcionais qualidades pessoais e intelectuais que projectaram Álvaro Cunhal para o lugar – complexo e mesmo ambíguo, mas absolutamente indiscutível – que acabou por ser o seu na história de Portugal no século XX. Não é nada que não se reconhecesse já ao líder comunista, mas é outra coisa vê-lo aqui documentado de forma historicamente rigorosa e, ao mesmo tempo, com lucidez e imparcialidade.

Finalmente, se houver lacunas e mesmo erros no trabalho de JPP, a responsabilidade não é dele mas sim dos vários totalitarismos – fascista e comunista – que impediram e continuam a impedir que este período sombrio da nossa história seja melhor conhecido. JPP marca pontos ao denunciar o “secretismo” que o PCP continua a manter acerca da sua história e tem certamente razão quando atribui a Álvaro Cunhal um pendor particular para o segredo, não só acerca do partido como da sua própria vida pessoal. Não será por acaso que nem o PCP nem Cunhal se queixaram, que eu saiba, das eventuais inexactidões do livro: é que não lhes convém entrar num debate verdadeiramente esclarecer sobre o assunto. E é pena.

Nesse primeiro volume, JPP descrevia o caminho percorrido por Álvaro Cunhal até se entregar definitivamente, no início desse longínquo e terrível ano de 1941, à luta clandestina contra a ditadura e conquistar o prestígio que o levaria, mais tarde, ao topo da hierarquia do PCP. Nada disso se passou, contudo, sem lutas intensas dentro e fora do partido. Já não é este o momento para os comentar. Bastará lembrar como o partido, com a Guerra de Espanha e a intensificação daquilo a que Nolte chamou, apropriadamente, a “guerra civil europeia”, se tinha afundado na maior desorientação quando Cunhal foi preso pela primeira vez, e só dela sairia, já irradiado pelo Comintern, no início dos anos 40 com a viragem na Guerra Mundial.

Entretanto, a partir de 1939, Cunhal tinha tido oportunidade de pôr todas as suas capacidades intelectuais ao serviço do PCP, desempenhando um papel decisivo no movimento frentista da nova geração de intelectuais anti-fascistas, que permitiu ao PCP exercer sobre a intelectualidade portuguesa uma influência que nunca tinha tido e lhe assegurará, durante décadas, uma inesperada hegemonia ideológica sobre a vida cultural do país.

JPP lança, pois, no 1.º volume da biografia de Álvaro Cunhal uma luz nova sobre essa década de Trinta em que o fascismo se implantou em Portugal. Este será, sem dúvida, o contributo mais duradouro desse livro de rara visão histórica. No ambiente triunfal do fascismo, o PCP e o seu punhado de militantes, embora acossados e minoritários, surgem pois, com a sua indomável resistência, como um último reduto de liberdade. Em suma, Pacheco Pereira captou como ninguém a importância real do PCP e a aura de legitimidade de que usufruiu durante décadas, sem as quais a nossa história recente não se entenderia.

Embora não o tivesse dito na altura, confesso no entanto que cheguei a pensar que não seria fácil ao autor manter, por assim dizer, as expectativas criadas pelo 1.º volume. Não tanto por dificuldades dele, mas pelo próprio conteúdo da pesquisa – o 1.º vol. lidava com os anos 30, recuperando a aura trágica e heróica que aqueles anos, associados ao próprio ardor juvenil do biografado, que me parecia difícil de manter nos períodos subsequentes, de algum modo mais complexos mas, porventura, menos auráticos.

Pois bem, nada disso aconteceu. Pelo contrário. JPP mantém neste segundo volume a sua aposta apoiada no mesmo estilo narrativo directo, entremeando com naturalidade e eficácia a acção do biografado e dos seus camaradas do PCP com um discreto comentário analítico, que não sobrecarrega a narração nem condiciona a liberdade interpretativa dos leitores, mas permite ao autor fornecer a sua própria interpretação dos dilemas e opções com que Cunhal e o partido se defrontaram ao longo da década seguinte – os anos 40!

Em compensação, o autor perdoar-me-á que não o esconda, se o 1.º volume, apesar de se ler como um romance, já me tinha parecido extenso, bem, o 2.º volume mais espesso é ainda. Trata-se pois de um livro grande. Mas não deixa de ser, como o primeiro, sem o qual não pode aliás ser lido, um grande livro. É verdade que continua a ler-se com a avidez romanesca de quem quer saber depressa o que se passou a seguir mas, devido à própria abundância crescente de documentação e informação, tanto nacional como estrangeira, torna-se às vezes difícil não saltar uma páginas para satisfazer a curiosidade, sobretudo que a maioria dos leitores, incluindo um habitué da história do PCP como eu, desconhece de facto inúmeros episódios relevantes da vida interna e externa do partido!

Em suma, o livro é comprido, leva bastante tempo a ler, mas o autor acaba sempre por nos convencer, a posteriori, que todos aqueles pormenores – por vezes um bocadinho fastidiosos, como são sobretudo os debates ideológicos e organizativos da época – são importantes e, sem eles, não seria fácil entender factos supostamente conhecidos. Enfim, acresce que JPP tinha na mão uma quantidade impressionante de informação histórica que não terá resistido à legítima tentação de pôr, pela primeira vez, ao alcance do público. Este contributo é absolutamente precioso e, por isso, lhe serão perdoadas algumas horas de leitura que, hoje em dia, temos dificuldade em conceder à maioria dos livros.

A estratégia narrativa não muda e só posso render-me ao folêgo que o JPP revela ao manter o mesmo ritmo e o mesmo tom do princípio até ao fim e, agora, já não duvido que assim será nos próximos volumes da biografia. Quando parece afastar-se um pouco do fio narrativo, é para recriar a dimensão pessoal, subjectiva, da biografia. Com efeito, por mais numerosos e extensos que sejam, e são, os desenvolvimentos sobre os seus companheiros, sobre a actividade do partido, sobre as lutas sociais e políticas, e sobre os aliados e adversários do PCP, estamos ainda e sempre perante a biografia de uma pessoa, Álvaro Cunhal, com a sua idiossincrasia.

O longo preâmbulo acerca das relações – simultaneamente, estéticas, políticas e pessoais – entre Cunhal e Abel Salazar, na aparência desligado dos capítulos seguintes, serve precisamente esse propósito biográfico de compor, por assim dizer, a personalidade de Cunhal tal como JPP a vê. Em suma, um homem inteligente, culto e corajoso, mas inteiriço e a seu modo “religioso”, para quem “o compromisso é mais importante do que a causa que serve” (p. 16). Já manifestei alguma perplexidade perante a interpretação que JPP faz da personalidade do seu biografado, mas tenho de reconhecer que ele é capaz de reconduzir muitos dos comportamentos e decisões de Cunhal a essa matriz pessoal, ao mesmo tempo que também não faz dela uma mera explicação psicológica passe-partout…

Finalmente, quando retoma de vez na narrativa, um pouco antes onde a deixara no volume anterior, quando Cunhal decidiu passar definitivamente à clandestinidade com 28 anos incompletos, JPP vai dar-nos o primeiro estudo original e consistente da famosa “reorganização do PCP”, da qual todos ouvimos falar e de cuja importância muitos tínhamos consciência, mas acerca da qual pouco sabíamos ao certo, contentando-nos geralmente com um resumo demasiado esquemático da versão oficial dos vencedores.

Aqui, JPP faz absolutamente questão em demonstrar – e até prova em contrário, que nem a abertura dos arquivos do PCP poderia, porventura, fornecer, mas o ónus dessa prova fica com o partido – que a reorganização se iniciou sem Cunhal, que aliás não tinha então estatuto nem talvez idade para tal. A verdade, porém, é que JPP mostra também que, mercê das contingências da clandestinidade, da repressão e da própria conjuntura de guerra (estamos em 1940-42), a adesão um pouco tardia de Cunhal ao grupo dos proclamados reorganizadores não só lhe permitiu rapidamente conquistar um lugar insubstituível no núcleo dirigente do PC, de início inter pares e em breve primus, como trouxe, como agora se diz, uma mais-valia indiscutível à reorganização.

Em suma, através de todas essas contingências, mais as intrincadas ramificações internacionais, o novo secretariado, cuja composição humana e social JPP descreve e analisa virtualmente pela primeira vez, conseguiu sem qq ajuda da URSS, antes pelo contrário, não só inflectir e consolidar a orientação do partido como, na realidade, construir – contra todas as probabilidades – um novo partido comunista. O papel de Cunhal é decisivo e, para bem ou para mal, nunca mais deixará de o ser. Poderíamos, se fosse caso disso, ficar já por aqui a discutir a reorganização e o novo PCP que dela sai, pois estas 200 e tal páginas (max 212 passim) constituem, por si sós, um livro que fazia falta para compreender muito da história social e política portuguesa desde os anos 40 até, pelo menos, ao 25 de Abril: basta pensar que data dessa altura o início da publicação clandestina ininterrupta do ‘Avante’! Por mim, teria um sem número de perguntas a fazer ao JPP sobre todo este processo (questão das libertações do Tarrafal e dos alegados apoios dos aliados, max GB, aos reorganizadores, max Avante: de onde vinha o ‘papel bíblia’?).

Adiante, porém. Na 2.ª parte deste volume enciclopédico, o autor volta a oferecer-nos outra première: ou seja, outro estudo virtualmente inédito nos seus pormenores sobre as grandes greves operárias do início dos anos 40 (1942-46) que permitiram ao novo PCP testar não só o seu apelo ideológico mas, sobretudo, a sua capacidade organizativa para enquadrar e se enraizar, para as próximas décadas, junto dos sectores mais combativos da classe operária portuguesa, nomeadamente em Lisboa e na Margem Sul. As greves dos anos 40 já tinham sido parcialmente estudadas (por Fátima Patriarca na sua Questão social no Salazarismo), mas tipicamente de forma corporativa, (vol. 2, p. 628), sem a visão política e partidária que lhes dá todo o seu sentido – quase mítico – não só para o PCP como para a oposição anti-fascista em geral. Com efeito, destas greves – como aliás de qualquer movimento que, obrigatoriamente, põe em causa a “ordem pública” – o que fica, politicamente, não é tanto o êxito das reivindicações pontuais nem as reacções do aparelho do estado corporativo, mas os ganhos organizativos e a memória da luta enquanto tal.

Tanto assim que é a partir deste momento que a oposição não-comunista entrega, por assim dizer, a hegemonia política da classe operária ao PCP, numa espécie de divisão do trabalho que se manterá praticamente inalterável até ao 25 de Abril. Pelo seu lado, o partido – já então sob a condução estratégica de Álvaro Cunhal – não deixou de tirar partido das greves para consolidar os seus ganhos organizativos e a sua influência ideológica no congresso de 1943 – o primeiro realizado na clandestinidade. O balanço que JPP faz deste congresso

Um partido nacional – na realidade, o único movimento de oposição minimamente organizado; uma máquina organizativa clandestina sem paralelo na época nem depois (os funcionários; a imprensa, etc.); e tudo isto sem qq apoio do movimento comunista, do qual continua isolado, e angariando todos os seus recursos internamente; uma aliança entre operários e intelectuais, que se reflecte na composição dos quadros dirigentes (importância do movimento neo-realista como ‘fonte de recrutamento e apoio logístico e financeiro)…

A questão da unidade anti-fascista e do “reviralhismo”; o fim da guerra e as imensas esperanças criadas; o congresso de 1946 e o “apogeu do PCP” (discutir!); teses e fracções partidárias em presença, divididas quanto à “política de transição”; a entrada na ‘guerra fria’ e o desvanecimento das esperanças; a adaptação às novas condições (os movimentos unitários e o conflito crescente com os sectores não-comunistas, até á campanha Norton de Matos); a exposição do aparelho clandestino às movimentações de massas e, consequente/, às polícias; a prisão de Cunhal e Militão Ribeiro.

A forma – sempre entre trágica e épica – com que JPP termina a sua longa narrativa, cheia como um ovo, com a prisão do seu herói, – “Naquela casa do Luso (dia 25 de Março de 1949), no meio do nervosismo geral, da alegria alarve dos agentes da PIDE e do estado de choque dos presos (Cunhal; Militão, que iria sucumbir na cadeia aos 53 anos, menos de um ano mais tarde; e Sofia Ferreira), acabava uma era da história da luta da oposição portuguesa e do PCP” (p872), a forma como este novo volume encerra, dizia eu, deixa-nos literalmente suspensos dos próximos volumes. De uma forma oblíqua, observando a realidade portuguesa do ponto de vista singular, minoritário e mesmo inesperado do PCP, JPP continua a dar-nos, na minha opinião, a representação mais dinâmica e, a seu modo, mais exacta da nossa sociedade ao longo dos anos da ditadura: uma espécie de contra-história que se revela, politicamente, tão autêntica, senão mais, do que a história do regime.

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