(Parte adaptada do texto inédito do volume III da biografia de Cunhal, sem as notas.)

João Pulido Valente, então militante do PCP, teve um papel muito importante nas tentativas de levar Cunha Leal a candidatar-se à Presidência da República em 1958. Por ironia da história, Cunha Leal, um dos poucos anticomunistas consistentes da oposição portuguesa, era então o candidato desejado pelo PCP. O partido fazia, através de uma organização de frente, a Comissão Cívica Eleitoral (CCE) , tudo para o convencer a candidatar-se. Cunha Leal avançava e recuava, dizia que sim, não e talvez, gerando uma processo muito tumultuoso. João Pulido Valente, que era um dos médicos de Cunha Leal, funcionava como um dos intermediários entre o PCP (via “cívica”) com Cunha Leal. Embora Cunha Leal estivesse a atravessar um período de doença e tivesse feito uma intervenção cirúrgica, tornava-se obvio que usava a doença como pretexto.

No dia 15 de Abril de 1958 , Cunha Leal anuncia o “não” definitivo , deixando os comunistas sem candidato face à candidatura “independente” de Delgado que se avolumava. Os elementos da CCE reunidos na Seara Nova são informados pelo filho de Cunha Leal que este estava “impossibilitado” por doença de aceitar a candidatura. João Pulido Valente, ficou furioso e saiu da reunião e foi a casa de Cunha Leal de surpresa. Chegado lá viu que ele estava de boa saúde e que a doença servia de pretexto para a recusa . Volta à Seara Nova e , ainda mais furioso, diz que é tudo mentira e Cunha Leal estava a engana-los . Três dias depois , Cunha Leal mandou comunicar à República que o seu estado de saúde se agravara e que o médico proibira-o de receber visitas ao mesmo tempo que o aconselhara a desistência da candidatura senão “podia por em risco a sua vida”

Jogando uma última cartada, a CCE insiste que “não tendo conhecimento oficial da desistência” (…) vai diligenciar obter daquele ilustre homem público a sua opinião definitiva sobre este ponto fundamental“. Cunha Leal ficou furioso, porque percebeu que a CCE punha publicamente em dúvida a veracidade dos seus motivos e escreveu à República

Acho a nota de um atrevimento extraordinário, porque tendo o meu médico afirmado que o meu estado de saúde não me permitia empenhar-me na luta eleitoral e, em face disso, tendo o meu filho transmitido a minha disposição de não me candidatar, haja pessoas que tenham a ousadia de, apesar da minha doença, pretenderem a minha afirmação pessoal, o que significa pôr em dúvida as afirmações de um médico e de meu filho, e é um atrevimento de que não julgava que houvesse pessoas em Portugal capazes de o cometer.”

Acabou aqui a candidatura de Cunha Leal que veio a apoiar Delgado. O PCP vai apoiar Arlindo Vicente, o “candidato de recurso“, para depois , no último minuto, apoiar Delgado.

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