COLONIALISMO

RMP no Companhia de Moçambique chama a atenção dos Estudos para o papel do grupo de autores “existencialistas” na emergência da consciência do facto colonial. É matéria sobre a qual tenho estado a trabalhar num capítulo da III volume da biografia de Cunhal, com destaque para o período muito pouco conhecido de 1945-1957. Trarei para os Estudos alguns documentos inéditos ou muito pouco conhecidos sobre as relações entre o PCP e o sector “colonial”.

Publico aqui, com vénia, excertos dos textos da Companhia, que podem ser consultados integralmente no blogue. Como é normal nos blogues a ordem das notas é cronologicamente invertida.

“(…) Naqueles anos dourados do estalinismo, Jean-Paul Sartre, Aimé Césaire, Frantz Fanon e Albert Camus, sim, Albert Camus, comungavam na causa da afirmação dos direitos dos povos colonizados. Dir-me-á, muito justamente, que todo esse movimento intelectual anti-colonial esquecia, por exemplo, o colonialismo soviético, do mesmo modo que o movimento dos não-alinhados e o seu empenho anti-colonial, afirmado em 1955 na Conferência de Bandung, o ignorava por completo. É certo. Como sempre, também as causas justas nem sempre podem escolher os seus compagnons de route. Aliás, está por fazer um debate em torno da questão de se saber em que momento o Partido Comunista Português ganhou, de facto, uma consciência anti-colonial. Um estudo sério sobre a extensão do PCP em Moçambique, a Organização dos Comunistas Moçambicanos (O.C.M.) — estrutura que, ao que suponho, só se dissolveria, por imposição da direcção do PCP, já nos anos 60 — muito ajudaria ao esclarecimento dessa questão (…)
De todo o modo, voltando a esta nota sartriana, já nos anos 70 Léopold Sédar Senghor evocaria a importância do contributo do grupo de Sartre (incluindo aí Camus) para o reconhecimento e divulgação dos ideais da negritude e, por extensão, do anticolonialismo.”

Indígenas e Nativos

A especificidade do colonialismo contemporâneo não resulta somente do facto de afirmar sociedades que se julgam superiores, mas do facto dessas sociedades justificarem a sua superioridade na ciência e, particularmente, nas ciências sociais. A situação colonial não pode, por isso mesmo, ser encarada apenas como um modelo de gestão política, económica e social, correspondente a uma determinada fase da evolução das economias e políticas do Ocidente. Ela deverá ser perspectivada, também, na sua dialéctica de permuta de dados culturais em que o seu carácter agonístico deriva da natureza impositiva e assimétrica das culturas em confronto. Daí que a situação colonial, como realidade objectiva, constitua o fecho do ciclo da percepção da alteridade iniciada no século XVI: num extremo — e após a fase da constatação, levantamento e inventariação do exótico — o modelo iluminista do «bom selvagem», domínio de uma alteridade homogénea e auto-suficiente, objecto de um «olhar distanciado» [glosando o título de uma das últimas obras de Lévi-Strauss (1983), Le Regard Éloigné]; no outro extremo desse ciclo, a situação colonial, com toda a sua carga de intervenção, reduzindo ou amplificando os factores da alteridade, consoante as suas necessidades ideológicas (as tais «pseudojustificações e comportamentos estereotipados» a que se referia Georges Balandier na sua definição de «situação colonial»). Tal alteridade é sancionada ideologicamente pela segmentação básica da sociedade colonial entre «civilizados» e «indígenas», isto é, tal discriminação identifica a coesão do sistema colonial através da redução dos autóctones à categoria de uma criação da natureza e de um objecto:
«Toda a gente sentiu o que há de depreciativo na palavra indígena que é utilizada para designar os nativos de um país colonizado. O banqueiro, o industrial, o próprio professor da metrópole não são indígenas de nenhum país: nem sequer são nativos».[Jean-Paul Sartre (1949), «Matérialisme et Révolution»]
Esta «coisificação» do colonizado [foi Aimé Césaire (1950) quem primeiro estabeleceu a equação «colonização=coisificação» em Discours sur le colonialisme] conduz-nos a uma noção operatória muito pertinente para a Antropologia — a oposição natureza / cultura — e que para a situação colonial se demonstra perfeitamente operativa se aplicada, por exemplo, à análise da política colonial portuguesa nas suas variadas e sequenciais assunções assimilacionistas. Com efeito, mesmo nos casos de não aplicabilidade da política colonial de indirect rule [administração indirecta], as diferentes potências coloniais implementaram em África sociedades dualistas, umas dotadas de uma parte urbana, usufruída por «brancos» e «assimilados», onde as regras políticas imitavam as da metrópole e outras dotadas de uma parte de «mato», habitadas por «não civilizados», onde as regras políticas da parte urbana não se aplicavam [T. Biaya (1998), «Le Pouvoir ethnique – concept, lieux d’enonciation et pratiques contre l’État dans la modernité africaine: analyse comparé des Mourides (Sénégal) e Luba (Congo-Zaire)»]. Tornar-se-ia possível, portanto, pensar uma Antropologia do Colonialismo, sobretudo nas suas implicações simbólicas.”

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2 pensamentos sobre “COLONIALISMO

  1. Gostei bues do saite………

  2. Excelente página !!!

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