Embora esta discussão tenha tido lugar em Abrupto, penso ser de interesse para os estudiosos do comunismo.

DOIS TEMPOS

Estou a escrever um livro (talvez acabe estas férias) que tem um problema complicado a resolver. É um livro sobre um homem que está preso onze anos, cuja vida no mundo carcerário é controlada ao milímetro, e cujos gestos possíveis e permitidos representam uma rotina imposta à força. Apitos, acender e apagar de luz, horários impiedosos. A prisão é, nos primeiros anos, uma materialização arquitectónica de uma ideia filosófica : o Panopticon de Bentham. Feita para tudo ser visto a partir de um olho central, o local último do poder. A “estrela de seis pontas”. Depois de quase um ano, em que não foi autorizado a fazer nada, o homem lê, estuda, escreve, desenha e pinta.
Cá fora há uma guerra, fria , mas guerra. Acontece tudo. O tempo é solto, é rápido, é o tempo da modernidade, acelerado. Como juntar num mesmo movimento tanta imobilidade e tanta rapidez?

DOIS TEMPOS 2

Os “dois tempos” da minha nota anterior eram obviamente sobre a prisão de Cunhal, em cujo terceiro volume da biografia estou a trabalhar, e que cobre os anos da prisão de 1949 a 1960. João Nogueira escreveu-me comentando os “dois tempos” na base do trabalho sociológico que nos últimos dois anos tem estado a fazer “sobre prisões e encarceramento”. Levanta a seguinte objecção à “dualidade temporal” :

“O tempo «dentro» não é «linear» (ou, se quisermos, «linearmente lento»), quando se procura fazer uma «fenomenologia da vida prisional». Com efeito, em boa parte das etnografias prisionais que li até hoje, é notória a existência de diversas fases na percepção da passagem do tempo por parte de reclusos (sobretudo, em reclusos com penas de longa duração). Veja, a título exemplificativo, o que me dizia um ex-recluso condenado a uma pena relativamente extensa (9 anos) em sede de uma «entrevista biográfica» (história de vida/ estória de vida).

Segundo a sua «experiência vivida» afirmava existirem três fases distintas na percepção da passagem do tempo:

“O tempo na cadeia tem três fases. Tem a fase inicial que custa muito… de adaptação. O tempo custa muito a passar. Depois o do meio, passa-se num instante: ‘O quê já passaram quatro anos…’ Depois no final é a ansiedade, quando se aproxima a saída. Aí o tempo volta a ser muito lento. Mas na fase do meio nem se dá por ela passar. Não se vive, vegeta-se… A entrada custa a aceitar… A adaptação áquele ambiente, os problemas, a vida cá fora, o que se deixou, os crimes, as perspectivas de vida… às vezes pensa-se na evasão. Depois pensamos: ‘Isto é uma fase de passagem… vamos lá ver se me aguento cá dentro’. É a parte mais difícil. Depois uma pessoa mentaliza-se… Passa muito rápido. Depois vem a ânsia de viver. A ânsia da liberdade.” (Ex-recluso)

Assim, no período inicial, de adaptação à prisão, de assimilação da cultura penitenciária e de internalização dos tempos institucionais, o tempo custa muito a passar [“Você não imagina como é acordar a noite inteira, olhar para o relógio e ver que só passou uma hora, às vezes meia… uma pessoa pode enlouquecer à espera do dia seguinte. É um tempo muito lento… muito lento. E custoso, obviamente.” (Ex-recluso).

Na fase que se segue, pontifica o sentimento do tempo parado e inerte, onde os rituais quotidianos são incorporados e os dias passam sem se dar conta. Na última etapa, regressa o tempo que custa muito a passar, devido à enorme ansiedade provocada pela proximidade da libertação. Ademais, esta percepção do tempo não é universal (e é, na verdade, algo teleológico argumentar que todos os reclusos passam por estas três fases) e muitos reclusos, apresentam diferentes maneiras de experienciar a passagem do tempo. As tempografias da experiência de reclusão são, por conseguinte, muito heterogéneas.

Assim questiono-me porque tentar dar uma noção de imobilidade «lá dentro». Porque não dar uma noção menos linear da evolução da percepção do tempo lá dentro, com as suas flutuações, mutações, hesitações, etc…? Fica a sugestão.”

O meu problema é que lido com o caso individual, não generalizável, de um preso político, altamente motivado, numa cadeia de presos comuns, numa situação de isolamento sui generis, que tem que ser analisado como político, mas também como homem que está preso, sujeito aos efeitos e perversões da vida carcerária. Tento fazê-lo em dois capítulos do livro, um dos quais intitulado provisoriamente “estratégias contra a solidão”. Quando li a literatura sobre o encarceramento e os seus efeitos, era para mim claro que alguns dos efeitos de interiorização do regime prisional aí descritos, alguns inclusive de identificação com a instituição prisional, não se verificavam dada a força de resistência psicológica do preso, fruto da sua personalidade e da motivação política e ideológica. Mas, nem tudo era assim tão simples.

No entanto, mesmo aqui, tive que me defrontar com a diferença entra a situação dos presos políticos numa cadeia onde só há presos políticos (Peniche ou o Tarrafal por exemplo) e em que estes se defendem da institucionalização criando uma “contra-sociedade” na prisão (aulas, estudo em comum, caixa de solidariedade, actividades partidárias, direcção política das actividades, hierarquia própria ), com o caso de Cunhal que permaneceu longos períodos de prisão isolado. Aí não há esse efeito de “contra-sociedade” limitando os efeitos da “instituição total”.

Por último, a percepção do tempo vivido, sendo psicológica é também neste caso, afectada pela importância de uma filosofia individual da acção, impregnada pela história, que corre … cá fora.

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